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Hoje à noite

15 de setembro de 2014

Rosiska Darcy de Oliveira*

O Globo, 24.12.2011. Na noite de natal há uma pulsação acelerada no coração do mundo. É um tempo de exacerbação de sentimentos, quando presenças e ausências, ganham maior intensidade.

Há quem não goste do Natal, torça para que passe depressa esse frenesi do consumo, com desempregados patéticos sentados entre eletrodomésticos, equilibrando seus mal colados bigodes de algodão, mais assustando do que encantando as crianças. Há muita dor nesse dia mesmo se a televisão afirma que o natal é alegria, propondo o mundo surreal das compras em um megashopping superlotado. Essa histeria comprovaria a perversão de uma festa religiosa.

São verdades que não são toda a verdade. Dando o laço nos embrulhos dos presentes não me vejo estimulando o consumo e sim criando laços com que amarro a esperança de manter próximos e unidos os que chamo de meus. Não fosse a vida destruidora de laços e criadora de nós… Ainda assim, é possível preservar nossos gestos em um espaço interior, excêntrico às análises econômicas e que elas não têm o poder de desencantar.

O chamado sistema – o que quer que isso queira dizer em sua imprecisão conceitual – não expropria a vida do sentido que lhe damos, a exemplo do valor das memórias do Papai Noel da infância, indeléveis , revividas nos que hoje ainda são crianças e acreditam em um ser que não existe mas lhes é benfazejo. Essas também entram no pacote dos críticos do Natal.  Uma tolice, dizem, fazer acreditar no que não existe.

O que seria de nós sem as coisas que não existem? O mundo seria de uma banalidade insuportável e, nós, prisioneiros dos cinco sentidos. Não aconteceria, por exemplo, a literatura, essa arte de dar vida a criaturas imaginárias que, no entanto , nos acompanham vida afora . Se às crianças basta crer para ver, aos adultos também.

Nem tudo se explica pelo volume de negócios e seus negociantes. A economia não é a senha que descodifica o mundo. Há um outro modo de viver o Natal , como um desejo de vínculos que se exprime na ceia das famílias e dos amigos, no cartão de boas festas ou no telefonema dado às pressas, em meio à correria nossa de cada dia, que sublinha que alguém não deixou de existir para nós. São os vínculos que resistem a um mundo de relações esgarçadas, de amores líquidos, de individualismo delirante, do cada um por si. A força e o mistério da noite de Natal é trazer à tona o ancestral desejo de pertencimento.

Há um potencial regenerador, um desejo de comunidade religiosa ou familiar ou, simplesmente, de união a algum ente querido. No Natal dói mais a solidão e disso bem sabem os que conheceram o exílio e as noites gélidas em terra estrangeira, com saudade da falsa neve de algodão. Doem mais as ilusões perdidas, os que já não estão nas fotos e perambulam nos corredores da memória, presentes, mas invisíveis, fantasmas da permanência que a vida promete e não cumpre.

Em todo o mundo multidões se deslocam para passar essa noite com “os seus”, o que pode ser – e é – o inferno dos aeroportos e rodoviárias, o pesadelo dos engarrafamentos, mas é também o esforço de riscar, no espaço, um traço de união entre os que vivem separados. A dificuldade na noite de hoje é multiplicar-se entre os entes queridos, espalhados em casamentos rompidos e recompostos ou em cidades que a globalização e a imigração fizeram conviver sem que por isso sejam menos distantes .

Por que Bing Crosby, morto há décadas, cantando White Christmas, ainda faz chorar mesmo os politicamente corretos? Talvez porque, no fundo de si mesmo, ninguém tenha renunciado a uma noite feliz.

A noite de Natal é um tempo suspenso, um desafio à temporalidade hipermoderna. Um sursis em um mundo predatório que trata o tempo como tratou seus recursos naturais, exigindo de todos os malabarismos da quase ubiqüidade. Dia a dia luta-se pelo que se acredita será, no futuro, um lugar ao sol enquanto, no presente, o sol é subtraído dos escritórios sem janelas. No Natal cada um reserva para si um tempo inegociável – nessa noite tempo não é dinheiro – e se recolhe a um espaço privado, na contramão do cotidiano frenético que, impiedoso, devora os momentos de  intimidade .

Há uma inocência nessa noite em que se dá presentes, come-se bem, misturam-se gerações e, imperceptível, vive em cada um de nós um Deus pobre e nu, mas acalentado, a quem reis magos trazem ouro , incenso e mirra. Os amigos nos trazem um vinho, um livro, um brinquedo. Esse Deus, cedo ou tarde encontrará seu Judas e morrerá na cruz. Mas terá tido sua noite feliz, sua noite de criança.

Feliz natal.

*Sexta ocupante da cadeira 10 da Academia Brasileira de Letras.