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Por acaso

13 de fevereiro de 2012

Rosiska Darcy de Oliveira

Uma jovem morreu esfaqueada por um louco no Central Park, em Nova York. Levava na bolsa um diário e naquele dia escrevera: ”nunca me acontece nada”.

Não deduzo daí que não devemos nos queixar de monotonia. A moral da história é outra, o acaso é quem dita nossas vidas. O louco poderia ter ido passear na beira do Hudson ou ela sentar-se na Washington Square e rabiscar tranquilamente suas queixas. Mas, por acaso, se encontraram.

Há anos quase fui esfaqueada no Central Park. Era jovem, corri mais do que o assassino, um bêbado que tropeçou nas próprias pernas. Achei que tudo me acontecia e que, apesar disso era uma mulher de sorte.

Não falo de destino porque a palavra tem a nobreza das tragédias gregas, do que estava escrito e tinha que se cumprir. O acaso é muito mais banal e próximo do absurdo. É, como poderia não ter sido. Se o acaso é infeliz, é chamado de fatalidade. Se é feliz, de sorte. E, às vezes, decide mais as nossas vidas do que os imensos esforços que fazemos. Quase nunca a vida é justa.

Woody Allen, que fez trinta e seis anos de análise , não encontrou respostas para suas angústias  e ,  mestre na abordagem do imponderável , em Stardust Memories, faz seu personagem dizer: “Eu era um menino que gostava de contar piadas. A sociedade americana valoriza os cômicos. Se eu tivesse nascido entre os apaches, estaria desempregado. Questão de sorte. Se em vez do Brooklyn eu tivesse nascido em Berlim ou na Polônia, hoje eu seria um abajur,não?”.  

Há muita verdade no que diz ,apesar do  humor negro e da amargura. Quem acredita que controla a própria vida  nunca me explicou como  escolheu onde nascer, pobre ou rico, homem ou mulher, ao Norte ou ao Sul do Equador, vestido com que pele.

Os existencialistas sabiam dessa roleta mas, corajosos , e um tanto pretensiosos , acreditavam que a partir daí fariam , graças a afirmação da liberdade , o  que bem entendessem de suas existências. Uma guerra mundial que atropelou Sartre e Simone de Beauvoir ainda no fulgor dos seus vinte anos, uma carnificina que matou e exilou seus amigos, e sobre a qual não tinham qualquer poder, relativizou essa onipotência.

O volume de memórias em que Simone relata sua tenra juventude chama-se A força da idade. O que relata a guerra e o pós-guerra, A força das coisas. Simone morreu idosa afirmando que escolhera a sua vida e acrescentando um bemol: “o acaso tem sempre a última palavra” .

 Um olhar retrospectivo, atento à intervenção do incontrolável, vai encontrar os momentos em que ele, direta ou indiretamente dirigiu nossas supostas escolhas, redundando em um grande amor falhado ou um sucesso profissional retumbante. Ou, ao contrário, em uma vida medíocre. Feridos em nossa auto – estima, nessa retrospectiva tentamos dar uma racionalidade aos acontecimentos como se eles tivessem obedecido fielmente aos nossos desígnios.

No Pequeno Príncipe, Saint Exupéry, que viria a morrer em um acidente do avião por ele mesmo pilotado, criou o personagem de um Rei cujo único súdito era um camundongo. Para garantir sua autoridade, só dava a ele ordens parecidas com o que um camundongo de todo modo faria.

Em todos nós há um pouco desse Rei, um desejo de explicar a vida a posteriori, dando a impressão de que ela nos obedece. Quando a razão tropeça no inexplicável dos acidentes , para continuarmos no papel principal resta, como afirmação da vontade, o reservatório do inconsciente. Inconscientemente quisemos isso ou aquilo. Sempre nós, no comando.

Os consultórios dos psicanalistas estão cheios de gente querendo  encontrar explicações para o que lhes acontece como se houvesse um porquê de tudo . Mais desafiador e sadio seria aceitar e conviver com a incômoda e real presença do incontrolável.

A ficção é , talvez , o único refúgio onde o autor onipotente faz e desfaz, desenha e entrelaça como bem entende todas as vidas que cria ,é ele mesmo o acaso.  A criação é uma forma de rebelião, de insolência , a revanche contra o acaso, de quem tem a medida do seu desamparo ,um momento de  divindade.

Na vida real é ele quem tem a última palavra.