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A avó e a petroleira

16 de novembro de 2010

por Rosiska Darcy de Oliveira

Ser mulher já não é um imperdoável defeito. Cinqüenta e cinco milhões de brasileiros elegeram uma presidente. Injusto talvez esperar de uma mulher o que não se exige dos homens mas essa escolha, por seu caráter inaugural, legitima expectativas. Na equipe de transição a presença das mulheres é expressiva. Se persistir esse espírito na composição do ministério, ganhará a democracia.

Dilma Rousseff, com sua competência gerencial, pode garantir ao Brasil a continuidade do governo Lula. Mais do mesmo. Seria pouco, um desperdício de sua chance histórica. Tomara que esteja à altura de outro destino possível: encarnar a emergência do feminino na cultura brasileira. O que não se esgota na presença quantitativa das mulheres.

Trata-se agora de inscrever na agenda política o lado oculto da sociedade que elas representam. Para alcançar a igualdade de oportunidades entre homens e mulheres que Dilma define como essencial à democracia, e é, terá que virar os problemas pelo avesso. A cultura feminina está em nós como um avesso, presente mas invisível, útil mas secundaria. E se essa cultura escondida e reprimida se fizesse fio de um tecido novo que viesse substituir a esgarçada trama da política?

O passado não recomenda ilusões. As mulheres que chegaram ao poder vestiram o figurino de um político banal. O velho equívoco do mimetismo, assumindo o feminino como o “defeito” de um sexo que não seria senão o negativo do outro. Subscreveram um critério de simetria, buscando reconhecimento em nome da capacidade de ser como o outro e não de ser outro.

A sociedade brasileira emite mensagens contraditórias. Projeta na presidente, ao mesmo tempo, os estereótipos do homem e da mulher. Ora um capacete da Petrobrás, ora um neto recém-nascido nos braços. Quem vai governar o Brasil: a petroleira ou a avó? Ambas? Não é esse o conflito de identidade de todas as mulheres?

Sobre Dilma correm lendas, que ela, com razão, ironiza, definindo-se como uma mulher muito dura cercada de homens muito doces. Ninguém duvida de sua capacidade de afirmar autoridade no mundo dos homens, de se fazer mesmo temer quando não respeitar.

Em seu primeiro pronunciamento depois de eleita, definiu a preocupação com as pessoas como o cerne de seu governo. E acrescentou que honraria as mulheres. Dilma entende de pré-sal e de energia. Há outros desafios: desenterrar o que está mais oculto que o pré-sal, o que mais consome energia humana: a defeituosa articulação entre o público e o privado.

A cultura feminina se nutre das relações humanas mais próximas, dos cuidados, dos afetos. Entende de boa ou má qualidade de vida. É justamente aí que os sintomas de crise se acumulam na volatilidade dos núcleos familiares, no descaminho dos jovens, na assustadora solidão dos idosos. No cotidiano desenfreado de homens e mulheres estiolam-se vínculos fundamentais.

Um mercado de trabalho feminizado a quase 50%, a presença crescente nas universidades e setores estratégicos como a mídia e a pesquisa cientifica, tudo atesta a gigantesca e irreversível migração das mulheres da vida privada para o mundo do trabalho. O país não passa recibo de quanto essa migração afeta às famílias. Não faz creches, não acolhe os idosos. A vida das famílias se organiza, aos trancos e barrancos, em função do mundo do trabalho como ele é, como sempre foi, como se nada tivesse mudado.

Os laços entre vida privada e profissional se transformaram em um nó que não pode ser desatado na intimidade dos lares, mas no espaço público cujo modo de funcionamento tem que ser adequado à nova configuração familiar. O mundo do trabalho terá que experimentar novos modos de gestão e organização nas empresas, a administração pública testar novas temporalidades em beneficio de quem usa seus serviços.

A conciliação entre vida profissional e vida privada é um núcleo problemático da sociedade brasileira, invisível como tudo que machuca a existência feminina, sobretudo na pobreza. Honrar as mulheres é contribuir para desfazer esse nó.

Um problema só apela por solução quando é reconhecido como tal. Nos anos de chefia da Casa Civil, o assunto não existiu. Presidente, ela agora faz a pauta. Com ouvido atento às demandas que sobem da sociedade e uma boa dose de imaginação, o governo pode conceber e impulsionar uma estratégia, um conjunto de políticas que aliviem o cotidiano atormentado de homens e mulheres.

Será Dilma capaz, em nome da preocupação com as pessoas e da atenção às mulheres, de liderar um Programa de Desaceleração do Cotidiano?