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De livros e vinhos

10 de julho de 2010

Berenice Sica Lamas

Atravesso o pátio com cuidado. Circulo a ameixeira, abro a porta. Não quero derramar uma só gota do copo de leite de papai. Me atrai sua ampla peça isolada da casa em meio à parreira e ao arvoredo – misto de ateliê biblioteca oficina gabinete. Cavaletes, telas, tintas, pinceis, livros, revistas, torno com lixeira e serra circular, formão, goiva, cinzel, bigorna onde improvisa ferramentas, lamparina para aquecê-las e moldar a cera, martelo, madeiras, sarrafos, cheiro de serragem, plaina elétrica, esmeril, réguas e lápis de carpinteiro grafite plano. A coleção de serrotes de diversos tamanhos me fascina. Ele diz ser o local de suas transmutações… para mim, ambiente mágico de sua risada solta, lenços gitanos e réstias de sol que trespassam a vidraça, reluzindo os metais, o punhal, o espelho, o chapéu.

Papai saboreia o leite em pequenos goles, molhando o bigode. O caixote com os vinhos portugueses Ramos Pinto chegara e eu, constante contente, cumpro o ritual: abro-o, apanho o pequeno volume de capa vermelha, o raro brinde do “grande Camilo” como diz papai, “do castelo que precisa cor” completo eu – e coloco na estante ao lado dos demais. Chamo-a prateleira dos vinhos e papai sorri com ternura.

Na cadeira giratória de madeira e palhinha, volteio até tontear. Mamãe não serve o leite quando papai pinta as moças e então, não entrando na oficina, fico espiando através da janela. Ele se aproxima com a mão em concha, cheirando à água de toilette.

Um de cada cor, filhota?

Bem coloridinho, papai.

Ouvindo meus gritos, mamãe acorre em pânico, papai estrebucha com ataque.
Ardo em febre. Uma grande poça de lagrimas e xixi manchada de tinta escorre pela desordem do chão. Nadam preguinhos e parafusos, que chovem pelas minhas pernas.

(do livro Falsas Ficções, 2001)