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Cerimônia de Adeus

15 de setembro de 2014

Berenice Sica Lamas*

Coimbra, 27 de Abril de 1956 – Pareço uma rês enfragada, a que ninguém pode acudir. Gemo no fundo do abismo, com a alma partida, e só no desespero encontro conforto. É um desamparo     irremediável que sinto, uma velhice súbita que me dobra, uma solidão absoluta que me acobarda (A morte do pai – Miguel Torga).

Repentinamente viajo ao Brasil devido ao agravamento da doença do pai – ainda o vejo na UTI de um hospital com alguma lucidez e ele me reconhece – falece alguns dias depois. Ainda acompanho a mãe e os irmãos alguns dias e regresso em seguida. A viagem em si não foi fácil: pouco tempo e longa distância; ao todo, sete aviões entre ida e volta, em nove dias. Sentimentos contraditórios: rever amigas e familiares nesta situação – o pessoal todo de Pelotas novamente em Porto Alegre, as duas famílias de origem, como nas festa de suas bodas, impossibilidade de conversar, tempo escasso, situação familiar em luto.

Te olhar, pai, com o físico tão depauperado, teu corpo frágil sob o lençol, solto aos caprichos das trevas que talvez não demorem, cheio de aparelhos que não permitem que fales, durante minutos controlados pelo relógio em rodízio de familiares. Tu que sentes tanto frio, aqui exposto com roupas neutras e toscas tão exíguas. A vulnerabilidade. A fragilidade. A solidão. A terrível solidão da morte, sem teus queridos, sem o aconchego de teu ninho, atravessado pela parafernália hospitalar que sabemos não adiantar mais nada.

Te sinto tão perto entretanto longe, em outras paragens azuis prateadas rosadas. Hoje morrer em casa é luxo para poucos. Desfio palavras e preces discretas, somente pra ti. Rondam por aqui teus cavalos esculpidos e peixes e barcos navegam nesta imensa enfermaria. Vejo em especial um cavalo que te vigia e não vai embora. Teus pensamentos dissolvidos nas sombras, já adentras no sótão e porão do armazém do vovô Lamas. Talvez na fusão eterna com o outro Rubens que te antecedera, desaparecido precocemente, este duplo que habitou tuas memórias, este fantasma que emoldurou tuas paredes, este irmão morto precocemente de quem herdasses o mesmo nome. Desprendo-me e também estalo por ali, em busca de anotações, bilhetes e lembretes com tua letra clara e precisa em papeizinhos dobrados entre as páginas de teus livros. Encontro o chapéu tirolês, presente antigo meu. Sou um peixinho vermelho tecendo vôo com guelras famintas. Te vais nas luzes pálidas do outono.

Não era esta a visita idealizada, ainda mais no primeiro retorno depois de um ano. Senti-me muito desconfortável, com sentimentos de “não lugar” e  desterritorializada. Quando voei de retorno a Bologna, tive a sensação de estar voltando pra casa e isto me assustou um pouco. Minha identidade foi revolvida outra vez.  A vida oferta situações singulares às vezes: eu não estava ao lado de meu filho quando perdeu o pai, mas ele estava a meu lado quando perdi o meu, seu avô. Voltar a dormir “em casa” trouxe um certo estranhamento: peças vazias, meu quarto disposto em outro cômodo, a mala permaneceu no chão até o momento do retorno, nem desfeita foi – tudo muito rápido. Me empanturrei de filmes em DVD da locadora – uma boa fuga, as legendas em português me confortavam, acostumada ao italiano. Vagava pelo apartamento já um tanto esvaziado. Apesar de ser abril e inicio de maio, o frio já chegara a Porto Alegre. Houve ate mesmo o brinde de um ciclone extra-tropical. Revi algumas amigas, jantei com duas.

Conheci uma sobrinha neta de três meses. A casa nova construída pelo irmão caçula. Pude ajudar no rearranjo de móveis do quarto da mãe, das arrumações dos armários e separação das roupas do pai, papelada, amparando-a nestes primeiros dias de luto. Não havia digerido nada ainda quando embarquei de novo alguns dias depois. Precisei de um tempo – reorganizar tudo para seguir o movimento dos compromissos ou o contrário, as tarefas me ajudaram a me reestabelecer. Pai, voltei contigo no coração e mente, não existia mais tua figura física. Fotos, lembranças, pensamentos. Transbordava pra dentro. Tua presença muito forte em mim. Como dispôs Proust, o morto continua a agir sobre nós. Tua vida interrompida continuava em nós, uma extensa família. Pressinto que a dinâmica da família se modificará para sempre. Ao reler o livro de memórias chegando em Bologna, me emocionei e chorei muito nas diversas passagens em que me ocupei de ti. Pude te sentir e te reviver. E ressignificar tudo de ti em mim.

Sério, calado, circunspecto, encapsulado, mas com um humor prestes sempre a desabrochar, ditos espirituosos à espreita – rejeitavas o aparelho que te melhoraria a audição, pois era cômodo muitas vezes fingir não ouvir. Podias ficar sem proferir uma palavra durante cinco, seis ou até mais horas – às vezes se chegava na casa de vocês e a mãe logo dizia “teu pai ainda não deu uma palavra hoje” como se fosse uma grande novidade ou como se pudéssemos fazer alguma coisa a respeito e agora, que me dizes de tua própria morte? – agora já disseste tudo, não precisas falar mais nada.

Contradições e paradoxos de tua vida, vivida de forma tão intensa, interna, tão interior – sabias pensar, refletir, avaliar, sabias tanta coisa, mas não compartilhavas tanto – às vezes de mal com o mundo e com as pessoas, custavas a fazer as pazes, azedavas rancores inúteis, uma pena. Tanto sofrias com os fatos externos, do social – um assalto a uma agência do Banco do Brasil, por exemplo, era motivo de te colocar sofredor e aflito por dias e dias. Uma vez funcionário do BB, sempre funcionário do BB!! Acidentes rodoviários também te mobilizavam muito, talvez pela perda prematura de nossa Dag em 1974. Gostavas de uma contra-luz, de um ventilador indireto, de um lençol térmico aconchegante, jogo de luzes e sombras, penumbras, músicas de CD’s e jornais do dia.

Petiscos diferentes para saborear, que os filhos buscavam com prazer – bolinho de bacalhau do restaurante Calamares, por exemplo ou galinha ao molho pardo. Passeios com os filhos aos arredores de Porto Alegre. Visitas à tua Pelotas querida. Foi difícil manejar e conter a fase das compras pelo programa Shopping Time da TV, pois conseguias driblar o controle da mãe, e quando se percebia, estavam chegando ventiladores, jogos de lençois, caixas de facas de todos os tamanhos e usos, rádios, e muitos outros objetos e aparelhos. Tivemos que bloquear o acesso ao telefone do programa. Não ficaram débitos emocionais, não temos contas pessoais afetivas a ajustar nem a pagar. Não precisarei escrever uma Carta ao pai ao modo de Kafka. Sensibilidade vivida pra dentro, raramente externalizada. Sob esta capa antissocial uma vida interior plena de riquezas mas tuas dificuldades impunham limitações que bloqueavam teu ser mais participativo. Generoso, no entanto, com os seus, da forma como eras capaz: presentes, ajudas financeiras, adoravas surpresas – tanto proporcioná-las quanto recebê-las. Silencioso em vida, na morte fazes um rumor tremendo, espesso…Sempre foste um… & outros. Múltiplo.

quando morre um pai,

                       são tantos

não se perde o pai

                        se perdem muitos

o que embalou fez ler proibiu o namoro

ensinou a dirigir dançou a valsa levou a viajar  

                      modelou constância honra

                      responsabilidade lealdade dignidade

                                       gosto pela arte beleza estética

                                                       leitura gatos cavalos

                                                      valor do silêncio

o que babou com os netos, bisnetos

        adoeceu, envelheceu

 

* Psióloga e escritora

Deusas

15 de setembro de 2014

Berenice Sica Lamas*

                                      Gaia Reia Demeter Iemanjá

mães da terra

dessacralizam espaços

entoam uma espécie de tormenta

torneio

anseio

deusas de palavras evocatórias

e chaves para o indecifrável

zelam pelas pedras do leite e amuletos

para os humanos eseus relógios de areia

embebedam-se de fertilidade,

rendem fluxo de excessos

ao prazer

 

*Psicóloga e escritora

Alquimia

13 de fevereiro de 2012

Berenice Sica Lamas*

decantar                                                                                                                                     

Não sei se as manias começam com mamãe ou com vovó, figuras dominadoras na minha vida. Onipresentes. O autoritarismo parecia vir através do genoma, escorria braços e pernas. Zinabre ferrugem nos neurônios. A carreirinha de formigas e azafamas pelos rodapés, fruto de um condicionamento mais do que centenário. Semente funde, divide e multiplica forrada de lã e cetim. Teto cheio de nichos e em cada um, um lustre de cristais e outras bobagens. Me diziam que as tríades eram as relações mais difíceis e complexas; ali estava eu, ponta de um triangulo somente de mulheres, e transgeracional ainda por cima. Duas pontas que se dobravam sobre a terceira, oprimida. 

Intuí o que aconteceria desde o velório de papai, quando minha avó estampou um semblante de alivio. Genro danado. Me dei conta de que ela teria minha mãe de volta. E provavelmente palpitaria até mesmo nos negócios. O caixão, ela ajudara os caras da funerária a aparafusar. Dio mio, ninguém se deu conta, somente eu.

Elas me disputaram para sempre e não foi fácil conviver. Necessitei transvasar obsessões e compulsões. Era purificação minha precisão. Formigas, impurezas, papeizinhos, resíduos, farelos e lascas de chocolate, tudo implodiu em meio à nuvem de veneno que inundou meu quarto. Aproveitaram, as duas loucas, um dia de aula noturna na faculdade. Vovó aparafusaria meu esquife também?                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                catalisar

Minha filha não sabe o que é bom para ela, de que necessita, não tem consciência, se transformou em uma menina sem pai. As moças de hoje privam de uma liberdade ainda maior do que a angariada nos anos 60 por minha geração mas administrar e reconhecer isso, neca pau. O que eu não daria para aplaudir novamente o por do sol o espetáculo diário em Morro de São Paulo na Bahia ou caminhar pelos Champs Elisèes em Paris tendo ao fundo o Arco do Triunfo? 

Acontecimentos de tempos atrás me alagam, porém a casa precisa de mim, arrumações, faxinas, agendamentos, compras. A companhia de mamãe me assegura, dá suporte. Uma casa com três mulheres é como uma fortaleza de hábitos e regras. Gosto do império do feminino, embora não entenda bem minha filha nem mamãe, às vezes sou um elástico puxado antagônico por ambas as pontas.

Me conformo com a viuvez, a morte do Paulo era inevitável, tudo excedia nele, eu nem avisava nem pedia mais. Fumo bebida e trabalho não é uma boa combinação, sobretudo se em excesso. Um remoinho de areia se aproxima, grãos em furacão, o coleguinha de minha filha, sim, um projeto portentoso de homem, que não saibam as outras mulheres da família. Em busca de minhas utopias derramadas através deste menino. Orvalho para desembaciar minha pele.    

condensar

Bem que preferiria um filho, um neto, e tive um genro fraco, pusilânime. Senti mais pelo pai de minha neta. Mastigo sementes de abóbora trituro ervas e se eu desaparecesse? o lago não murmura soletra letras que vagam duvidosas pelo caminho lácteo de um céu resplandecente será que conseguirei morrer? Ultrapasso um plano de realidade e me encaminho para encaracolados, me desdobro em inquietudes e gozos. O que está embaixo é semelhante ao que está em cima. Fiquei desarticulada e desorganizada, e daí? depois de viver mais de oitenta e cinco anos quem não fica?                                                                          

O rosto e o corpo murcham, tá certo, o cheiro de carne velha, talco, pó de arroz, colônia floral, memórias pedras preciosas em minha cabeça o mundo se alarga na velhice na proporção em que o corpo encolhe. Não é fácil equilibrar este contraste, cautelas acabam, quero é riscos traços marcas pesar plumas, na balança levezas. Mãos sujas em claros colarinhos nem filha nem neta sustentam a inquietação, quero me derreter feito relógio de Dali. Alguém duvida que vi o surrealismo nascer?                                                                                                                                     

Impossível não perceber os rastros, lençóis, papéis, mensagens, esta minha filha é muito burra mesmo, tentar resgatar fracassos deste jeito. Uma vida inteira pra aprender que tudo é processo, bem que alguém poderia contar isto pra gente na adolescência. E agora esta, o primeiro boletim de ocorrência de minha vida, pensei que havia surripiado a ècharpe sem testemunhas.

*Psicóloga e escritora

Curso: oficina de poesia na Academia Literária Feminina RS-2012

5 de janeiro de 2012

Ampliando o repertório 2: diálogos sobre poetas e poéticas com Ronald Augusto

Duração: 04 encontros-aulas, no mês de janeiro.

Local: Academia Literária Feminina/RS – Rua Sarmento Leite, 933 – quase esquina Rua Lima e Silva, Cidade Baixa, Porto Alegre, RS.

Datas: 12, 19 e 26/01 quintas-feiras e 17/01 terça-feira.

Horário: das 16h às 18h.

Inscrições pelos telefones: 9991 9292 ou 9676 2730 ou e-mail: alf.rs@terra.com.br 

Sobre a oficina

Um diálogo dinâmico sobre alguns poetas fundamentais da tradição poética de língua inglesa, seja em termos de fundação da linguagem moderna, seja em termos de perspectivas para a contemporaneidade. Através da apresentação e análise de obras chaves de determinados poetas, os participantes do curso se familiarizarão com as questões essenciais da função estética da linguagem e desse modo ampliarão sua capacidade de leitura e criação de poemas.

Os encontros serão dedicados aos seguintes autores: Walt Whitman, Ezra Pound, T. S. Eliot e, finalmente, William Carlos Williams e E. E. Cummings. Dentro deste quadro se discutirá desde a dicção versicular do utópico Whitman até a fratura sem-versista de Cummings, passando pela épica sem enredo de Pound, o imagismo de Williams e as 3 vozes poéticas de Eliot.

Em paralelo os participantes exercitarão a escritura de poemas que serão comentados e debatidos em grupo. O curso, portanto, também se voltará para o aspecto da criação verbal de cada interessado.

Em seus objetivos gerais a oficina pretende

Reforçar o valor da literatura como forma de ampliar a subjetividade do indivíduo — objetivo por si só pertinente, haja vista o panorama sociocultural cada vez menos voltado ao pensamento e à interpretação.

Divulgar e, na medida do possível, ampliar a riqueza da produção poética universal.

Estimular a produção de poemas no sentido de acréscimo criativo (qualitativo) à nossa tradição literária.

E em seus objetivos específicos

Identificar e explorar no interior do texto a função poética da linguagem, de modo a potencializar os elementos já iniciados ou prefigurados racional ou intuitivamente nos escritos dos candidatos.

Ler, em cada poema apresentado, o que está de fato escrito/inscrito desde um ponto de vista de forma-e-fundo, e não aquilo que gostaríamos que estivesse escrito.

Trabalhar elementos/insumos essenciais como sonoridade, rima, ritmo, imagem, e outras figuras de linguagem. Perceber que forma e conteúdo são inseparáveis.

Tomar consciência de que a poesia não é uma janela para o real. A arte da poesia propõe quando muito um sentido provável para o real.

Sobre Ronald Augusto

Ronald Augusto é um escritor que atua em inúmeras áreas: é poeta, músico (integra a banda os poETs), letrista (parcerias com Marcelo Delacroix), ensaísta e possui ainda um trabalho significativo no âmbito da literatura. Como poeta alcançou expressividade no cenário nacional e até mesmo mundial, de tal forma que suas produções foram publicadas em revistas literárias, bem como em antologias, dentre elas destacamos: A razão da Chama, organizada por Oswaldo de Camargo (1986), a revista americana Callaloo: African Brasilian Literature: a special issue, EUA (1995 e 2007), a revista alemã Dichtungsring Zeitschrift für Literatur, e outras.

As principais temáticas presentes no repertório intelectual de Ronald Augusto referem-se à poesia contemporânea e à literatura negra no Brasil. Entre essas publicações um estudo referente à obra de Cruz e Sousa mereceu destaque e por este trabalho o escritor recebeu a Medalha de Mérito conferida pela Comissão Estadual para Celebração do Centenário de Morte de Cruz e Sousa. Além dessa premiação, o poeta recebeu ainda o Troféu Vasco Prado conferido pela 9ª Jornada Nacional de Literatura de Passo Fundo, em agosto de 2001 e o Prêmio Apesul Revelação Literária em 1979.

Atualmente Ronald Augusto realiza palestras e oficinas/cursos abordando assuntos como música, poesia contemporânea e visual. Em 2007 criou ao lado do poeta Ronaldo Machado a Editora Éblis, voltada para a poesia. É diretor associado do website WWW.sibila.com.br. Colaborador do caderno Cultura do Diário Catarinense.

Entre suas principais publicações destacamos Homem ao rubro, de 1983, Puya, com a primeira edição em 1987; e ainda um dos seus mais recentes trabalhos, que recebeu o nome de Confissões Aplicadas, publicado em 2004. Recentemente publicou pela editora Éblis o livro de poemas No assoalho Duro (2007).

SARAU WISLAWA NO 68° ANIVERSARIO DA ALFRS

22 de maio de 2011

por Berenice Sica Lamas

Em 11 de abril a Academia Literária Feminina comemorou 68 anos de sua fundação em 1943 com um Sarau em homenagem à poeta polonesa Wislawa Szymborska, lembrando ainda o ano Chopin festejado em 2010. Estiveram à frente do evento Tiago Halewicz, pianista e curador-adjunto do Studioclio e Carmen Presotto, poeta e gestora do site Vidraguas.

Tiago relatou fatos da vida da poeta, entrelaçando leituras de seus poemas, e Carmen também dizia poemas. As vezes recitavam juntos alguns poemas, conferindo um belo efeito à voz de Wislawa. Tiago recitou um em língua polonesa e mesmo sem o significado – após revelado em português – encantou o publico pela sonoridade e assonância descobertas em língua desconhecida. Poesia é universal, em qualquer idioma. Foi utilizado o volume “Memória Cultural Polonesa”, livro de autoria do próprio Tiago, que ao final do evento, vendeu vários exemplares.

Wislawa possui uma obra extensa, sendo detentora do Premio Nobel de Literatura de 1996. Atualmente aos 88 anos de idade ainda escreve e vive com simplicidade. Privilegia o canto do cotidiano em seus versos, o social, o político e a cultura.

Uma brevíssima amostra – fragmentos – de seus versos:
“EXEMPLO

Um vendaval
despojou todas as folhas das árvores ontem à noite
com a excepção de uma folha
deixada
a baloiçar sozinha num ramo nu.

Com este exemplo
a Violência demonstra
que sim, senhor –
gosta da sua piadinha de vez em quando.”

“Nada acontece duas vezes
e nem acontecerà. Por este motivo
nasceremos sem pratica
e morreremos sem rotina.” …

… “São treze e vinte.
Como o tempo voa.
Deve ser agora.
Ainda não.
Sim, è agora.
A bomba, ela explode”.

“Depois de toda guerra
Alguém precisa fazer a limpeza.
Já que uma ordem como essa
Não vai se fazer sozinha” …

“Somos filhos da época,
A época é política.
Todos os teus, nossos, vossos

Assuntos diurnos, assuntos noturnos
São assuntos políticos” …

Durante e depois da apresentação de Tiago e Carmen, o publico foi bastante participativo com questões, indagações e esclarecimentos sobre a biografia e obra da poeta em foco. O Sarau suscitou muito interesse, pelo observado.

Carmen, em um gesto sensível e delicado, ofereceu uma cesta com rosas em diversos tons de amarelo, bege, amarelo-rosado e branco. Junto às flores, envelopes contendo fragmentos de textos e/ou poemas das 40 patronas das cadeiras da Academia. A cesta passou entre o publico, que foi retirando as rosas e os envelopes, e lendo seus conteúdos, conferindo ao sarau um tom inusitado e de homenagem nostálgica. Portanto, foram lembradas literariamente as patronas no dia do 68° aniversario da Academia, em uma justa e bela homenagem.

A presidente da Academia – Eloá Muniz – ainda entregou 3 diplomas de sócias participativas a três novas integrantes,(aqui favor colocar o nome das 3 – eliete, Isabel ….) pessoas que colaboram e prestigiam a Academia. A acadêmica Teniza Spinelli ofereceu de surpresa uma homenagem à Academia e ao publico presente ao Sarau: a apresentação de uma poética espacial encantadora. A bailarina e coreógrafa integrante do Grupo MEME – memória do movimento – Thais Helena de Freitas dançou em coreografia de sua autoria ao som de belíssima musica clássica, recitando o poema Quintal de Osório, de autoria da referida acadêmica, de seu livro Genius Loci da Coleção Sempre Viva da ALFRS. A coreógrafa valeu-se das palavras e respectivas imagens do poema para transformá-las em movimento.

As atividades do sarau pareciam se entrelaçar de modo harmonioso, sucedendo-se num clima intelectual e amistoso. Após todos confraternizaram e brindaram em delicioso coquetel.

Escritora e Poeta

Outonal

22 de novembro de 2010

por Berenice Sica Lamas

fogachos, reposiçao
hormonal secura
ruguinhas marcas
de expressão veias
salientes
depressão osteoporose
sazonais sazonadas
maduras mulheres Deméteres
preparando fecundos invernos

Escritora e acadêmica da Academia Literária Feminina RS

Ciclos

14 de outubro de 2010

por Berenice Sica Lamas

sob olhos maternos
solstícios equinócios
pétalas pérolas pinceladas
menina de cinco anos

luz e sombra, pistilo
repletos de bolas balões
seus meninos
mãe aos trinta

ferro química fogo, estilo
raro encontro, correnteza
mulher de sessenta
inconsumada

Escritora e acadêmica da Academia Literária Feminina RS

Poemas de Humanidade

30 de maio de 2010

Por Luiz Antonio de Assis Brasil

Pontes de Miranda é um nome mítico nas letras jurídicas, uma geração inteira aprendeu a admirá-lo, e seu imenso Tratado de Direito Privado permanece um marco da doutrina internacional. Só os mais familiarizados com sua obra sabem que foi, também, um filósofo, um humanista, um matemático, e agora, pelas mãos da Betty Yelda Brognoli Borges Fortes, tradutora e estudiosa, sabemos tidos que foi um poeta, e um poeta superior, com exata noção da força da palavra.

Este livro Poemas e Canções (Poèmes et Chansons) publicado originalmente na língua francesa, é dividido em cinco partes, nominados sucessivamente como inscrição da coluna interior, Penetração, Suíte dos músicos, Sinfonia Humana e Cantos e Poemas. Muito embora imaginemos que o poeta desejasse ser entendido como alguém que, à semelhança de Fernando Pessoa, contivesse dentro de si várias modulações estéticas e de conteúdo, podemos intentar uma análise compreensiva de Poemas e Canções, ainda que superficial perante a grandeza da obra. Isso será feito na identificação de algumas vertentes temáticas dominantes; outras haverá, por certo, mas que, dada a natureza introdutória deste escrito, terão de ficar para outros hermeneutas, quiçá mais competentes.

O sentido da musicalidade – Eis algo visível (audível?) em Poemas e canções. A escolha do poema de Victor Hugo não foi aleatória, ou mera garridice para impressionar seus contemporâneos; foi uma decisão em que deve ter pesado muito a harmonia, reconhecida como uma bela qualidade do Francês. A medida em que lemos o original e, a seguir, a bela tradução de Betty Borges Fortes, que manteve a sonoridade da obra, percebemos o quanto seu autor dava tento à escansão do verso, ainda que livre. Bem sabia que, mesmo lido, o poema obriga-nos a uma respiração, vestígio, ainda, do tempo em que todo o texto era recitado.

Este livro é uma bela surpresa para todos, e todos somos devedores da tradutora Betty Borges Fortes que, com seu talento, sua audácia intelectual, seu denodo e, sobretudo, sua persistência, soube transpor para o Português um livro de que estávamos à espera – mesmo sem o saber.
Boa leitura.

Para adquirir a obra contate www.fnac.com.br no Barra Shopping Porto Alegre.

O arpejo dos acordes da poesia

20 de abril de 2010

por Joaquim Moncks

Por ser o poema um homem com alma de mulher, o temor e o horizonte da perda estão vívidos logo na próxima esquina. A insegurança aponta o amanhã. Este é o leque que abana o sentir nunca comportado.

Mais que o lugar comum da vida, o verdadeiro poema (com as digitais da dama Poesia) nasce para o futuro, quando o parceiro escolhido ou o de ocasião bebe a primeira taça. Pode nem estar cheia, mas tem de parecer suficiente para o alumbramento.

É preciso ajustar o futuro dentro do inocente chá das cinco. E esperar a madrugada dos dias como uma loba na estepe, uivando ao longe, em solidão.

Quando há fome, a entrega ao ato de amar é tão natural quanto o comer e o beber. O novo, o inusitado na barriguinha do poema, é o nunca dantes revelado, mesmo que seja café com pão ou arroz e feijão.

Sempre vale o brinde à vida curtindo o calor do amanhã.

Fazer o poema é sentir-se dentro dele, compartilhar de sua irreverência amalucada. Copular com ele tantas vezes até o gozo. Antes que o humor se transmude e se esvaia no hálito do que passa.

– Do livro EU MENINO GRANDE, prosa poética; in CONFESSIONÁRIO – Diálogos entre Prosa e Poesia. Porto Alegre: Alcance, 2008, p. 289.
http://recantodasletras.uol.com.br/prosapoetica/761617