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Curso: oficina de poesia na Academia Literária Feminina RS-2012

5 de janeiro de 2012

Ampliando o repertório 2: diálogos sobre poetas e poéticas com Ronald Augusto

Duração: 04 encontros-aulas, no mês de janeiro.

Local: Academia Literária Feminina/RS – Rua Sarmento Leite, 933 – quase esquina Rua Lima e Silva, Cidade Baixa, Porto Alegre, RS.

Datas: 12, 19 e 26/01 quintas-feiras e 17/01 terça-feira.

Horário: das 16h às 18h.

Inscrições pelos telefones: 9991 9292 ou 9676 2730 ou e-mail: alf.rs@terra.com.br 

Sobre a oficina

Um diálogo dinâmico sobre alguns poetas fundamentais da tradição poética de língua inglesa, seja em termos de fundação da linguagem moderna, seja em termos de perspectivas para a contemporaneidade. Através da apresentação e análise de obras chaves de determinados poetas, os participantes do curso se familiarizarão com as questões essenciais da função estética da linguagem e desse modo ampliarão sua capacidade de leitura e criação de poemas.

Os encontros serão dedicados aos seguintes autores: Walt Whitman, Ezra Pound, T. S. Eliot e, finalmente, William Carlos Williams e E. E. Cummings. Dentro deste quadro se discutirá desde a dicção versicular do utópico Whitman até a fratura sem-versista de Cummings, passando pela épica sem enredo de Pound, o imagismo de Williams e as 3 vozes poéticas de Eliot.

Em paralelo os participantes exercitarão a escritura de poemas que serão comentados e debatidos em grupo. O curso, portanto, também se voltará para o aspecto da criação verbal de cada interessado.

Em seus objetivos gerais a oficina pretende

Reforçar o valor da literatura como forma de ampliar a subjetividade do indivíduo — objetivo por si só pertinente, haja vista o panorama sociocultural cada vez menos voltado ao pensamento e à interpretação.

Divulgar e, na medida do possível, ampliar a riqueza da produção poética universal.

Estimular a produção de poemas no sentido de acréscimo criativo (qualitativo) à nossa tradição literária.

E em seus objetivos específicos

Identificar e explorar no interior do texto a função poética da linguagem, de modo a potencializar os elementos já iniciados ou prefigurados racional ou intuitivamente nos escritos dos candidatos.

Ler, em cada poema apresentado, o que está de fato escrito/inscrito desde um ponto de vista de forma-e-fundo, e não aquilo que gostaríamos que estivesse escrito.

Trabalhar elementos/insumos essenciais como sonoridade, rima, ritmo, imagem, e outras figuras de linguagem. Perceber que forma e conteúdo são inseparáveis.

Tomar consciência de que a poesia não é uma janela para o real. A arte da poesia propõe quando muito um sentido provável para o real.

Sobre Ronald Augusto

Ronald Augusto é um escritor que atua em inúmeras áreas: é poeta, músico (integra a banda os poETs), letrista (parcerias com Marcelo Delacroix), ensaísta e possui ainda um trabalho significativo no âmbito da literatura. Como poeta alcançou expressividade no cenário nacional e até mesmo mundial, de tal forma que suas produções foram publicadas em revistas literárias, bem como em antologias, dentre elas destacamos: A razão da Chama, organizada por Oswaldo de Camargo (1986), a revista americana Callaloo: African Brasilian Literature: a special issue, EUA (1995 e 2007), a revista alemã Dichtungsring Zeitschrift für Literatur, e outras.

As principais temáticas presentes no repertório intelectual de Ronald Augusto referem-se à poesia contemporânea e à literatura negra no Brasil. Entre essas publicações um estudo referente à obra de Cruz e Sousa mereceu destaque e por este trabalho o escritor recebeu a Medalha de Mérito conferida pela Comissão Estadual para Celebração do Centenário de Morte de Cruz e Sousa. Além dessa premiação, o poeta recebeu ainda o Troféu Vasco Prado conferido pela 9ª Jornada Nacional de Literatura de Passo Fundo, em agosto de 2001 e o Prêmio Apesul Revelação Literária em 1979.

Atualmente Ronald Augusto realiza palestras e oficinas/cursos abordando assuntos como música, poesia contemporânea e visual. Em 2007 criou ao lado do poeta Ronaldo Machado a Editora Éblis, voltada para a poesia. É diretor associado do website WWW.sibila.com.br. Colaborador do caderno Cultura do Diário Catarinense.

Entre suas principais publicações destacamos Homem ao rubro, de 1983, Puya, com a primeira edição em 1987; e ainda um dos seus mais recentes trabalhos, que recebeu o nome de Confissões Aplicadas, publicado em 2004. Recentemente publicou pela editora Éblis o livro de poemas No assoalho Duro (2007).

SARAU WISLAWA NO 68° ANIVERSARIO DA ALFRS

22 de maio de 2011

por Berenice Sica Lamas

Em 11 de abril a Academia Literária Feminina comemorou 68 anos de sua fundação em 1943 com um Sarau em homenagem à poeta polonesa Wislawa Szymborska, lembrando ainda o ano Chopin festejado em 2010. Estiveram à frente do evento Tiago Halewicz, pianista e curador-adjunto do Studioclio e Carmen Presotto, poeta e gestora do site Vidraguas.

Tiago relatou fatos da vida da poeta, entrelaçando leituras de seus poemas, e Carmen também dizia poemas. As vezes recitavam juntos alguns poemas, conferindo um belo efeito à voz de Wislawa. Tiago recitou um em língua polonesa e mesmo sem o significado – após revelado em português – encantou o publico pela sonoridade e assonância descobertas em língua desconhecida. Poesia é universal, em qualquer idioma. Foi utilizado o volume “Memória Cultural Polonesa”, livro de autoria do próprio Tiago, que ao final do evento, vendeu vários exemplares.

Wislawa possui uma obra extensa, sendo detentora do Premio Nobel de Literatura de 1996. Atualmente aos 88 anos de idade ainda escreve e vive com simplicidade. Privilegia o canto do cotidiano em seus versos, o social, o político e a cultura.

Uma brevíssima amostra – fragmentos – de seus versos:
“EXEMPLO

Um vendaval
despojou todas as folhas das árvores ontem à noite
com a excepção de uma folha
deixada
a baloiçar sozinha num ramo nu.

Com este exemplo
a Violência demonstra
que sim, senhor –
gosta da sua piadinha de vez em quando.”

“Nada acontece duas vezes
e nem acontecerà. Por este motivo
nasceremos sem pratica
e morreremos sem rotina.” …

… “São treze e vinte.
Como o tempo voa.
Deve ser agora.
Ainda não.
Sim, è agora.
A bomba, ela explode”.

“Depois de toda guerra
Alguém precisa fazer a limpeza.
Já que uma ordem como essa
Não vai se fazer sozinha” …

“Somos filhos da época,
A época é política.
Todos os teus, nossos, vossos

Assuntos diurnos, assuntos noturnos
São assuntos políticos” …

Durante e depois da apresentação de Tiago e Carmen, o publico foi bastante participativo com questões, indagações e esclarecimentos sobre a biografia e obra da poeta em foco. O Sarau suscitou muito interesse, pelo observado.

Carmen, em um gesto sensível e delicado, ofereceu uma cesta com rosas em diversos tons de amarelo, bege, amarelo-rosado e branco. Junto às flores, envelopes contendo fragmentos de textos e/ou poemas das 40 patronas das cadeiras da Academia. A cesta passou entre o publico, que foi retirando as rosas e os envelopes, e lendo seus conteúdos, conferindo ao sarau um tom inusitado e de homenagem nostálgica. Portanto, foram lembradas literariamente as patronas no dia do 68° aniversario da Academia, em uma justa e bela homenagem.

A presidente da Academia – Eloá Muniz – ainda entregou 3 diplomas de sócias participativas a três novas integrantes,(aqui favor colocar o nome das 3 – eliete, Isabel ….) pessoas que colaboram e prestigiam a Academia. A acadêmica Teniza Spinelli ofereceu de surpresa uma homenagem à Academia e ao publico presente ao Sarau: a apresentação de uma poética espacial encantadora. A bailarina e coreógrafa integrante do Grupo MEME – memória do movimento – Thais Helena de Freitas dançou em coreografia de sua autoria ao som de belíssima musica clássica, recitando o poema Quintal de Osório, de autoria da referida acadêmica, de seu livro Genius Loci da Coleção Sempre Viva da ALFRS. A coreógrafa valeu-se das palavras e respectivas imagens do poema para transformá-las em movimento.

As atividades do sarau pareciam se entrelaçar de modo harmonioso, sucedendo-se num clima intelectual e amistoso. Após todos confraternizaram e brindaram em delicioso coquetel.

Escritora e Poeta

O Livro dos Erros

22 de maio de 2011

por Lícia Peres*

Uma das coisas mais aberrantes com que nos defrontamos neste momento é a utilização de livros destinados à educação com erros crassos da língua portuguesa, ou melhor dizendo, a deseducação institucionalizada. E o MEC serve para quê? Não é sua obrigação defender o nosso idioma como dispõe o artigo 13 da nossa Constituição?

É sabido que a educação se dá através da consolidação do conhecimento. É, portanto, dever da escola ensinar certo, corrigindo quem fala errado, não por discriminação, mas justamente para auxiliar os estudantes no domínio da sua língua materna que os auxiliará no processo de mobilidade social.

A tentativa de alguns ditos especialistas em linguística de flexibilizar as regras da escrita é um tremendo equívoco. “Os pé”, “menas”, “nós fumo”, e tantas expressões oriundas de um aprendizado deficiente em famílias iletradas devem, na escola, ser corrigidas. Assim a instituição estará cumprindo sua função de preparar os estudantes para competir, em igualdade de condições, com aqueles de famílias mais cultas. Não é possível, de forma paternalista, sonegar-lhes o direito de aprender, deixando “passar” os erros cometidos. Até porque o alunato, em qualquer nível, tem aspirações e quer melhorar sua condição de vida. Assim, muitos, mesmo com sacrifício, trabalham de dia e frequentam a escola noturna.

Ademais, há um aspecto que não pode ser desconsiderado. Em qualquer concurso, a exigência em relação ao conhecimento da língua portuguesa costuma ser rigorosa e até mesmo eliminatória. Como alguém oriundo de um ensino deficiente desde as séries iniciais poderá ter êxito em suas pretensões? Nesse caso constata-se a verdadeira discriminação: a que limita de antemão a ascensão dos mais pobres transformando seus sonhos em mera ilusão.

*Socióloga

O Enigma do Tempo Retido nos Museus

19 de maio de 2011

Teniza Spinelli*

A frequente comparação do museu com uma máquina do tempo – que desloca e transporta o indivíduo para outros mundos – leva-nos a crer que o espaço expositivo no museu, de fato, nos conduz a um tempo diferenciado e inusitado. Esse tempo concebido e problematizado – foco do olhar – pode ser o passado, o presente ou mesmo a projeção de um tempo ou lugar do futuro. Mas seguramente nunca será o tempo real vivido pelo visitante fora do espaço artificial, idealizado e institucionalizado. Porque o tempo no espaço da exposição museológica será sempre um simulacro do tempo real.

Para esclarecer essa assertiva fomos buscar inspiração em uma antiga lenda oriental. Trata-se da história de Urachima Taro, famoso pescador japonês e sua viagem a um mundo desconhecido.

Urachima, ao salvar uma estranha tartaruga maltratada por garotos, em uma praia de sua aldeia, liberta, sem saber, uma princesa encantada, filha do rei do mar. Como prêmio, a princesa o convida a conhecer o seu palácio, no fundo das águas. Impressionado por aquele mundo, Urachima se envolve e, acaba permanecendo ali, casado com a princesa.

A lenda, pela riqueza dos fatos abordados, nos permite fazer inúmeras reflexões: a tartaruga, por ter vida longa, constitui-se num símbolo milenar da passagem do tempo em seu lento, constante e irreversível percurso. Ela é ainda, neste caso, um vetor de comunicação. Em um museu, a exposição é o espaço do estranhamento, do hermético a decifrar. Trata-se de um local onde o visitante se percebe através dos objetos e, ao reconhecê-los, se conhece e se transforma. A mensagem contida nos objetos (meios), proposta pelo emissor (profissional do museu) no contexto museológico está destinada ao visitante-receptor denominado público de museu.

Na história em questão, o pescador é este indivíduo-visitante. Ao mesmo tempo em que ele desencanta/desvela o objeto olhado – na lenda a tartaruga/princesa – ele é também por ela encantado, gerando-se uma transformação. Urachima acaba fascinado pelo desconhecido: o mundo submerso da memória.

Que tempo é este que Urachima encontra no fundo do mar? Não é o tempo que ele viveu na aldeia, nem o tempo futuro que desconhece. Trata-se de um tempo presente, porém um tempo paralelo coexistente ao seu.

Conforme a lenda, a busca interior do personagem o consome. Embora vivendo com a princesa e rodeado de fabulosos tesouros, Urachima não consegue ser feliz. Como um exilado, ele teme perder a identidade e, por isso, deseja reencontrar aquele passado deixado para trás. Decidido a partir, recebe da princesa uma caixa fechada. Ela recomenda-lhe que não a abra, caso contrário jamais poderá regressar e vê-la novamente. A caixa nas mãos de Urachima representa uma incógnita. Assim como a tartaruga, este objeto é um vetor simbólico da comunicação com o tempo. A caixa contém o segredo do conhecimento ali acumulado e encerrado.

Cumprida a saga do retorno, no momento em que Urachima volta à tona, aflora à superfície das águas e caminha pela orla da praia, ele não reconhece mais a antiga aldeia. Descobre que seus parentes e amigos haviam morrido há séculos. Percebe que o tempo não tinha a mesma equivalência nos dois mundos. A lenda nos leva a crer que não há caminho de volta no tempo. Quando se move uma porta, não há retorno para o mesmo lugar, mas sim um abrir-se para o novo – um tempo reinaugurado. A identidade se constrói no caminhar e não no tentar reaver o que ficou para trás.

Como derradeira chance, em busca do auto-conhecimento, Urachima tenta reverter o tempo e projeta o futuro no fundo do mar. Mas o fundo do mar agora era passado. Desesperado, sem entender o enigma, Urachima esquece a recomendação da princesa e abre a caixa. Tal como a caixa de Pandora, ela contém um segredo, uma revelação radical para o visitante. Seu interior desvenda para ele a materialidade do tempo e opera nele uma transformação física. Urachima começa a envelhecer com rapidez e transforma-se num ancião. Amadurecido pelos anos e pelo conhecimento acumulado, sozinho, o pescador acaba morrendo na praia, no mesmo lugar da partida, agora também chegada. Cumpre-se assim a roda da vida.

Transpondo a lenda para o espaço museológico, podemos deduzir que a incógnita do tempo está contida nos objetos dos museus – signos – em sua relação com as pessoas, pois se tornam vetores de comunicação. O tempo é finito para os seres humanos, porém os objetos permanecem como testemunhos materiais, herdeiros da passagem do homem sobre a terra. Eles são verdadeiras máquinas do tempo a conduzirem os visitantes nos museus. Assim, a memória é uma condição do homem que o diferencia dos animais, pois somente o homem é capaz de capturar o tempo, de entender e traçar a sua própria trajetória e ter consciência de sua finitude.

Concluindo: entrar num museu – não importa qual tipologia – não é necessariamente entrar no passado. É, sobretudo, estabelecer nexos e relações sem fazer juízo de valor entre o velho e o novo, o bom e o mau, o feio e o belo. É exercitar a capacidade humana de reflexão. A memória não está, portanto, nos objetos dos museus, mas na capacidade humana de projetar e perceber nos objetos/bens culturais os condutores de processos mentais e de reflexões.

*Jornalista e museóploga

Escritura

11 de janeiro de 2011

Berenice Sica Lamas*

acadêmicas estudiosas
dizem a escrita feminina
é da ordem do impossível
(como o desejo?)
não é fácil, concordo
todavia não me sinto incapaz
às vezes desanimo desinspirada
até enclausuro encontro tempos
nunca impossibilitada

teimosamente
na orla do amarelo horizonte
há um sempre possível
dizendo

vem!

* Escritora e acadêmica da Academia Literária Feminina RS

Outonal

22 de novembro de 2010

por Berenice Sica Lamas

fogachos, reposiçao
hormonal secura
ruguinhas marcas
de expressão veias
salientes
depressão osteoporose
sazonais sazonadas
maduras mulheres Deméteres
preparando fecundos invernos

Escritora e acadêmica da Academia Literária Feminina RS

Quem paga a música escolhe a dança?

5 de novembro de 2010

por Marisa Lajolo*

“Caçadas de Pedrinho”, de Monteiro Lobato, está em pauta e é bom que esteja, pois é um livro maravilhoso.

Narra as aventuras da turma do sítio de Dona Benta primeiro às voltas com a bicharada da floresta próxima e, depois, com uma comissão do governo encarregada de caçar um rinoceronte fugido de um circo. Nos dois episódios prevalecem o respeito ao leitor, a visão crítica da realidade, o humor fino e inteligente.

Na primeira narrativa, a da caçada da onça, as armas das crianças são improvisadas e na hora agá não funcionam. É apenas graças à esperteza e inventividade dos meninos que eles conseguem matar a onça e arrastá-la até a casa do sítio. A morte da onça provoca revolta nos bichos da floresta e eles planejam vingança numa assembléia muito divertida : felinos ferozes invadem o sítio e –de novo- é apenas graças à inventividade e esperteza das crianças (particularmente de Emília) que as pessoas escapam de virar comida de onça.

Na segunda narrativa, a fuga de um rinoceronte de um circo e seu refúgio no sítio de dona Benta leva para lá a Comissão que o governo encarregou de lidar com a questão. Os moradores do sítio desmascaram a corrupção e o corpo mole da comissão, aliam-se ao animal cioso da liberdade conquistada e espantam seus proprietários. E, batizado Quindim, o rinoceronte fica para sempre incorporado às aventuras dos picapauzinhos.

Estas histórias constituem o enredo do livro que parecer recente do Conselho Nacional de Educação (CNE), a partir de denúncia recebida, quer proibir de integrar acervos com os quais programas governamentais compram livros para bibliotecas escolares . O CNE acredita que o livro veicula conteúdo racista e preconceituoso e que os professores não têm competência para lidar com tais questões. Os argumentos que fundamentam as acusações de racismo e preconceito são expressões pelas quais Tia Nastácia é referida no livro, bem como a menção à África como lugar de origem de animais ferozes.

Sabe-se hoje que diferentes leitores interpretam um mesmo texto de maneiras diferentes. Uns podem morrer de medo de uma cena que outros acham engraçada. Alguns podem sentir-se profundamente tocados por passagens que deixam outros impassíveis. Para ficar num exemplo brasileiro já clássico, uns acham que Capitu (Dom Casmurro, Machado de Assis, 1900) traiu mesmo o marido, e outros acham que não traiu, que o adultério foi fruto da mente de Bentinho. Outros ainda acham que Bentinho é que namorou Escobar…!

É um grande avanço nos estudos literários esta noção mais aberta do que se passa na cabeça do leitor quando seus olhos estão num livro. Ela se fundamenta no pressuposto segundo o qual, dependendo da vida que teve e que tem, daquilo em que acredita ou desacredita, da situação na qual lê o que lê, cada um entende uma história de um jeito. Mas essa liberdade do leitor vive sofrendo atropelamentos. De vez em quando, educadores de todas as instâncias – da sala de aula ao Ministério de Educação – manifestam desconfiança da capacidade de os leitores se posicionarem de forma correta face ao que lêem.
Infelizmente, estamos vivendo um desses momentos.

Como os antigos diziam que quem paga a música escolhe a dança, talvez se acredite hoje ser correto que quem paga o livro escolha a leitura que dele se vai fazer. A situação atual tem sua (triste) caricatura no lobo de Chapeuzinho Vermelho que não é mais abatido pelos caçadores, e pela dona Chica-ca que não mais atira um pau no gato-to. Muda-se o final da história e re-escreve-se a letra da música porque se acredita que leitores e ouvintes sairão dos livros e das canções abatendo lobos e caindo de pau em bichanos . Trata-se de uma idéia pobre, precária e incorreta que além de considerar as crianças como tontas, desconsidera a função simbólica da cultura.

Para ficar em um exemplo clássico, a psicanálise e os estudos literários ensinam que a madrasta malvada de contos de fada não desenvolve hostilidade conta a nova mulher do papai, mas – ao contrário- pode ajudar a criança a não se sentir muito culpada nos momentos em que odeia a mamãe, verdadeira ou adotiva…

Não deixa de ser curioso notar que esta pasteurização pretendida para os livros infantis e juvenis coincide com o lamento geral – de novo, da sala de aula ao Ministério da Educação—pela precariedade da leitura praticada na sociedade brasileira. Mas, como quem tem caneta de assinar cheques e de encaminhar leis tem o poder de veto, ao invés de refletir e discutir, a autoridade veta . E veta porque, no melhor dos casos e muitas vezes com a melhor das intenções, estende suas reações a certos livros a um numeroso e anônimo universo de leitores . . .

No caso deste veto a “Caçadas de Pedrinho”, a Conselheira Relatora Nilma Lino Gomes acolhe denúncia de Antonio Gomes da Costa Neto que entende como manifestação de preconceito e intolerância de maneira mais específica a personagem feminina e negra Tia Anastácia e as referências aos personagens animais tais como urubu, macaco e feras africanas ; (…) aponta menção revestida de estereotipia ao negro e ao universo africano , que se repete em vários trechos do livro analisado e exige da editora responsável pela publicação a inserção no texto de apresentação de uma nota explicativa e de esclarecimentos ao leitor sobre os estudos atuais e críticos que discutam a presença de estereótipos na literatura.

Independentemente do imenso equívoco em que, de meu ponto de vista, incorrem o denunciante e o CNE que aprova por unanimidade o parecer da relatora, o episódio torna-se assustador pelo que endossa, anuncia e recomenda de patrulhamento da leitura na escola brasileira. A nota exigida transforma livros em produtos de botica, que devem circular acompanhados de bula com instruções de uso.

O que a nota exigida deve explicar? o que significa esclarecer ao leitor sobre os estudos atuais e críticos que discutam a presença de estereótipos na literatura ? A quem deve a editora encomendar a nota explicativa? Qual seria o conteúdo da nota solicitada ? A nota deve fazer uma auto-crítica ( autoral, editorial ? ), assumindo que o livro contém estereótipos? a nota deve informar ao leitor que “Caçadas de Pedrinho” é um livro racista? Quem decidirá se a nota explicativa cumpre efetivamente o esclarecimento exigido pelo MEC?

As questões poderiam se multiplicar. Mas não vale a pena. O panorama que a multiplicação das questões delineia é por demais sinistro. Como fecho destas melancólicas maltraçadas aponte-se que qualquer nota no sentido solicitado – independente da denominação que venha a receber, do estilo em que seja redigida, e da autoria que assumir- será um desastre. Dará sinal verde para uma literatura autoritariamente auto-amordaçada. E este modelito da mordaça de agora talvez seja mais pernicioso do que a ostensiva queima de livros em praça pública, número medonho mas que de vez em quando entra em cartaz na história desta nossa Pátria amada idolatrada salve salve. E salve-se quem puder… pois desta vez a censura não quer determinar apenas o que se pode ou não se pode ler, mas é mais sutil, determinando como se deve ler o que se lê!

* Prof.Titular (aposentada) da UNICAMP; Prof. da Universidade Presbiteriana Mackenzie; Pequisadora Senior do CNPq.; Ex Secretária de Educação de Atibaia (SP); Organizadora (com João Luís Ceccantini) do livro de Monteiro Lobato livro a livro (obra infantil), obra que recebeu o Prêmio Jabuti 2009 como melhor livro de Não Ficção.

Aposentadoria

17 de outubro de 2010

por Ana Mello

Essa semana um colega com 48 anos de trabalho resolveu parar de trabalhar, aposentado, optou por desligar-se do quadro de funcionário e curtir a vida a sua maneira. Ficamos todos fazendo contas e vendo quanto tempo mais trabalharíamos, discutindo o que faríamos depois de aposentados.

Em seguida vieram relatos de experiências de amigos de amigos quando se aposentaram. Muitas experiências tristes de pessoas que envelheceram rapidamente, que passavam o dia em casa de pijama só assistindo televisão. Algumas felizes, daqueles que resolveram
aproveitar para viajar ou fazer um curso que desejavam e não tinham tempo, para ler, ficar com os netos, fazer caminhadas diárias ou apenas curtir a vida fazendo o que estavam mesmo com vontade de fazer a cada momento.

Meu colega disse temer pelo seu casamento, pois a esposa poderá não agüentá-lo todos os dias em casa. É possível! Todas as coisas novas precisam de uma fase de adaptação, sem dúvida, mas depois tudo se acomoda, assim espero. Cada um sabe o que é melhor para si, contudo, quem sempre trabalhou a vida toda como dizem, deve se ocupar com alguma
coisas, ter uma rotina de atividades, nada muito estressante. Programar coisas para fazer como um cinema, café com os amigos, compras, visitas, atividade física. É o que pretendo fazer quando decidir me aposentar e escrever muito, ler muito, planos, muitos planos.

Seguidamente no shopping vejo um grupo de aposentados em um bom papo, dando risadas, fazendo lanchinho. No parque também é comum vê-los reunidos na maior farra. Todos homens, as mulheres não tem este hábito, pelo menos eu não tenho visto. Será que elas fazem outras coisas? Cuidam dos netos, quem sabe? Conheço umas que viajam, não param quietas em casa nunca.

Bate uma nostalgia em quem pára de trabalhar e nos que seguem trabalhando, afinal conviver com alguém durante muitos anos e interromper, é um pouco triste. Bom é saber que ele está vivo e com saúde e pode nos visitar sempre que quiser. É inevitável também ficar pensando em como mudamos neste tempo, namoros, casamentos, filhos, problemas compartilhados
e brigas, algumas brigas, passamos mais tempo no trabalho do que em casa e entramos na intimidade das pessoas próximas mesmo sem querer.

Sabemos das cirurgias uns dos outros, das doenças, dos aniversários, do colégio dos filhos, dos namoros, dos parentes. Já houve um tempo que eu achava chato saber de coisas que não me diziam respeito, depois amadureci também e fico feliz quando alguém quer me contar
algo pessoal, demonstrar sua alegria por alguma conquista ou algo assim.

Meu pai tinha uma dica ótima para aposentados e idosos, ele dizia que depois de certa idade temos absoluta obrigação de ficar bonitos e cheirosos e com um sorriso no rosto. Pois velho é que nem bebê, de fralda suja, ninguém quer dar colinho. Uma boa comparação para dizer que quem tem suas chatices e manhas, deve no mínimo tentar causar boa impressão. Certo ou errado eu não sei, mas ele sempre foi muito simpático e querido por todos e é isso que dá sabor a vida, percorrer caminhos, aprender, ser feliz.

Ciclos

14 de outubro de 2010

por Berenice Sica Lamas

sob olhos maternos
solstícios equinócios
pétalas pérolas pinceladas
menina de cinco anos

luz e sombra, pistilo
repletos de bolas balões
seus meninos
mãe aos trinta

ferro química fogo, estilo
raro encontro, correnteza
mulher de sessenta
inconsumada

Escritora e acadêmica da Academia Literária Feminina RS

Orquestra

15 de julho de 2010

por Berenice Sica Lamas

No domingo à tarde, em casa, Laura abre o álbum de fotografias. Ali estava toda a orquestra, os violinos, os violoncelos, o pianista, a cabeleira do maestro num fragmento de foto, as partituras, as roupas pretas e brancas. Excelentes fotos. A tristeza e o espanto de todos ali estavam. Desde seus onze anos preparara-se para brilhar com a orquestra na capital e agora, após vinte anos de duro estudo e aperfeiçoamento, desempregada. Uma violinista sem emprego não era qualquer mulher desempregada. Malditos deputados, sem sensibilidade suficiente em manter verbas para uma orquestra. Um suspiro fundo escapa e enxuga uma lágrima inútil, o peito pleno de mágoa. Tadzio entra e afaga seu rosto, mãe, o teu quebrou? Te compro outro violino. Laura vira as páginas do álbum, sem mais atençao.

Na última página, a foto do grupo para o folder do concerto na capital entra em combustão espontânea, chamuscando seus perplexos dedos. Arde a arte pela sobrevivência.

do livro Falsas Ficções, 2001.