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A travessia da felicidade

6 de janeiro de 2016

Marisa Faermann Eizirik *

“E existe a trajetória… em matéria de viver nunca se pode chegar.” (Clarice Lispector)

Falar sobre o que é a felicidade é refletir sobre o que é importante na vida, com a clareza de que não será o mesmo para todas as pessoas, que as prioridades e os caminhos, os gostos e as necessidades são diferentes.

Há questões que ocupam a empreitada humana em todas as épocas e, tal como o amor e a amizade, a felicidade é uma delas. É um tema recorrente e fundamental em toda a história do pensamento. As duas principais correntes filosóficas helenísticas, o epicurismo e o estoicismo, se ocuparam dela. Epicuro, em sua famosa Carta sobre a Felicidade (sec. 4 a.C.), define-a como a ausência de dor física e de turbulência do espírito, pregando uma distensão. Em contraponto, Sêneca (sec. 1 d.C), em Da Vida Feliz, acredita que a felicidade implica tensão, busca da virtude, da sabedoria, algo que precisa ser trabalhado, investido, como um ideal que não é da ordem da posse, mas da procura. Localizada no plano da ética, a questão da felicidade – como aquilo que o homem é capaz de criar por si mesmo – ocupou os filósofos em todos os tempos, de Platão, Aristóteles, Spinoza, Kant e Nietzsche, para citar alguns, aos nossos dias, em que os filósofos da liberdade (como Sartre) ou da diferença (como Derrida) concordam em que não há a possibilidade de uma ideia geral de felicidade, como um fim a ser atingido, mas escolha existenciais, movidas por desejos e expectativas extremamente diversificadas, individual e socioculturalmente.

Falar sobre o que é a felicidade é refletir sobre o que é importante na vida, com a clareza de que não será o mesmo para todas as pessoas, que as prioridades e os caminhos, os gostos e as necessidades, são diferentes, sem a expectativa de esgotar as questões e chegar a uma ideia definitiva que satisfaça todas as exigências. Assim, não podemos falar em felicidade abstrata. Como a vida, a felicidade é “minha”, pois afeta o núcleo íntimo da vida. Ela é particular e intransferível. Está em conexão com o que eu sou e desejo, e, mais ainda, com o que desejo ser, necessito ser.

A felicidade, segundo Gianetti, “não é algo que se compra, embrulha e leva para casa”. Não é algo ligado ao ter, mas ao fazer. “Ela não é um humor ou um estado de ânimo, por mais exaltados e duradouros que sejam, mas o resultado de uma vida bem conduzida, ou seja, das escolhas e valores que definem nosso percurso. Jamais será um estado final, que se possa adquirir e tomar posse de uma vez por todas”. Como uma atividade, a felicidade se cultiva e constrói e, por alguns momentos, se conquista e desfruta. É fonte de alegria, mas está sempre a exigir de nós empenho, amor, e contínuo recomeço.

Acentuando a característica humana de ser e já não ser, não ser e talvez não poder vir a ser, Marias define a felicidade como “o impossível necessário”, aquilo que pode ser uma realidade desejada e nunca alcançada, ou concluída: é o esforço para atingir porções, ilhas ou momentos de felicidade, o que já é uma forma de vivê-la. Felicidade é apaixonar-se pela possibilidade de viver. Enquanto algo ideal, feito nirvana ou paraíso a ser encontrado e possuído, sabemos que é uma miragem. Porém enquanto busca, é sempre instigante o movimento de valorização e aceitação de si e, ao mesmo tempo, de batalha para não permanecer o mesmo. Viver a felicidade enquanto travessia, desfrutando dos prazeres possíveis, das conquistas concretas, em nossos diferentes momentos de vida.

Existem as contingências às realidades, e a elas não é necessário se submeter de forma passiva e resignada. É preciso “escolher a si mesmo”, considerando as possibilidades pessoais e os constrangimentos objetivos do mundo. Mas o que significa “escolher a si mesmo”? É no teatro do cotidiano, na experiência do dia a dia, na escolha de si que podemos encontrar beleza, harmonia, inventividade, oposição à moral corrente, insubmissão, coragem, ética. A escolha de si como autor do próprio futuro pode consistir na construção de uma vida simples. A simplicidade do projeto não desmerece ou nega a autenticidade de quem a fez. Ao contrário, mostra que a potência humana se manifesta na e pela decência com que nos mantemos leais a nós mesmos. Viver segundo aquilo em que se crê é uma empreitada transitória, mundana e humana, com a crença de que todos temos o direito de pensar e agir sobre nossas vidas. Tudo que podemos fazer – e persistimos fazendo – é confiar em nossa capacidade natural de preferir viver a morrer. É ter um compromisso com a vida, dar um salto existencial, fazer escolhas e responsabilizar-nos por elas.

Escolher-se a si mesmo, em termos de uma ética e de uma estética de si, significa que não se escolhe apenas seu amado, mas toma-se a si mesmo como amante. O salto significa destinar a si mesmo e não determinar (ou se deixar determinar) a si mesmo. Ser determinado é ser “empurrado” pelo passado e pelas circunstâncias; autodesligar-se é ser “puxado” pelo que se escolhe como compromisso para toda a vida. Entretanto, autodesligar-se, dar o salto, não ocorre apenas através de uma escolha racional do sujeito. A consciência da escolha feita está presente ao se fazer a opção. Mas é a continuidade da vida – a sequência dos compromissos assumidos – que qualificará a escolha como decisão. A aposta se dá na vida como potência, como devir, como expansão das dores e das alegrias.

Isso nos remete a Foucault que, desde uma outra perspectiva, também encara a ética como a relação consigo mesmo. Não se encontra, todavia, em sua obra ênfase na palavra felicidade, e sim uma acentuação nas expressões estilo, ética e estética da existência. Para Foucault, estilo de existência significava um trabalho de si sobre si, como um artista de si mesmo: um melhoramento de si, na dimensão da existência humana, concebida como uma prática, um agir onde o homem é o autor que delibera, deseja, age e justifica suas ações. Tornar-se si mesmo, criar um modo de viver segundo valores que se escolha e se responsabilize, renunciando a outros e respeitando as escolhas existenciais dos outros, por meio de ações que expandam nossa imaginação e criatividade. Esse trabalho sobre si próprio não é uma atividade difusa, mas todo um conjunto de ocupações; implica sempre um trabalho que demanda tempo e um tempo que não se dá no vazio; ele é povoado por exercícios, tarefas práticas, atividades diversas, permanentes, ao longo de toda a vida. Trabalho que não se dá apenas individualmente, mas se sustenta na relação com os outros.

A vida, sempre em processo, não para a fim de que mudanças possam ser feitas. Não há um tempo para a reflexão e um tempo para a transformação. O mistério da vida é que tudo está acontecendo, o medo e o prazer, o sofrimento e a alegria, basta não estar fechado ao real. As transformações acontecem ao ar livre, sempre agitado, do conflito, do afrontamento, da luta, da resistência. O indivíduo contemporâneo é em primeiro lugar um passageiro metropolitano: em permanente movimento, cada vez mais longe, cada vez mais rápido. Com o movimento, sob o impacto da velocidade, perde-se a espessura. Com a generalização, há falha no próprio princípio da representação – as imagens passam a constituir a realidade, banalizam-se. O olhar enfrenta um espaço aberto, fragmentado; fratura e rompe a superfície lisa, foge à totalização, dá lugar ao lusco-fusco das zonas claras e escuras. O impulso inquiridor do olho nasce justamente da descontinuidade, desse inacabamento do mundo.

Conceber o pensamento sob o signo da viagem, aconselhava Nietzsche, e não sob o signo da parada, seria fugir do imobilismo. Pensar é mudar. Trocar de pele, olhar diferentemente para o que se conhece, exercitar um olhar viajante, um olhar estrangeiro, como sinaliza Cardoso. Há os acomodados, caseiros e sedentários. Transitam num espaço ordenado, compacto e pouco acidentado, que tudo acomoda; desdobramento cerrado e contínuo. “Ofuscamento dos cortes do horizonte, neutralização dos relevos”. Há os inquietos – curiosos ou insatisfeitos – aos quais “o ponto cego do horizonte obseda, fustiga e desafia. Desdenham o homogêneo e o contínuo; são sensíveis às diferenças e atentos aos limites. Afrontam obstáculos e vazios, são impelidos para o espaço aberto”. Porém, as direções e os sentidos também podem tornar-se indiferentes quando se dilui o desejo. Viagem supõe distância (proximidade), tempo, espaço, inclusões e exclusões, extensões – potência de estar em algum lugar – um entre/passagem. Supõe também saltos e rupturas, supõe riscos, desassossego, vertigem.

Nem todos querem fugir da ordem, do já programado e conhecido, errar e se dissipar em meio a aventuras, que podem ser dispersas e fragmentadas, e, por isso mesmo, constituir viagens em intensidade, que abrem passagem para olhar mais além, mais profundamente, as brechas e fissuras, os desníveis, as indeterminações, inesgotáveis experiências de sentido e de tempo. Viagens assim sempre tem um preço, que é nossa própria transformação. Um projeto pode ser, portanto, um modo de existência.

*Psicóloga, Professora, Doutora em Educação pela UFRGS, Coordenadora do Comitê de Pesquisa da Sociedade de Psicologia do Rio Grande do Sul.
Notas bibliográficas

CARDOSO, Sérgio O Olhar viajante (do etnólogo) IN: NOVAES, ª et al. O Olhar. São Paulo: Companhia das Letras, 1988: 347-60.
FOUCAULT, M. An Aesthetics of Existence . N. York: Routledge, 1988;
EIZIRIK, M. F. Michel Foucault, um pensador do presente. Ijuí: Unijuí, 2005.
MARÍAS, J. La Felicidad Humana. Madrid, Alianza Editorial, 1988.

Lançamento de livro faz sucesso e marca evento

3 de junho de 2015

HABITAÇÃO DE INTERESSE SOCIALNo dia 27 de maio de 2015 foi lançado o livro Habitação de Interesse Social: Cotejo Histórico e Analítico entre a Produção Habitacional do BNH e do PMCMV da autora Eunice Muniz da Silva.

O livro apresenta uma visão da evolução do direito à moradia, que no Brasil é um dos direitos fundamentais que possibilita a efetivação dos postulados da dignidade da pessoa humana.

O direito à moradia está relacionado a outros direitos fundamentais, razão pela qual a sua negativa implica a de vários outros direitos, aprofundando assim a situação de extrema pobreza em que vivem milhares de pessoas no país. É possível considerar alguns fatores como relevantes para a compreensão da realidade quanto à efetivação ou não do direito à moradia: (a) crescimento acelerado e desorganizado das cidades; (b) as desigualdades sociais, econômicas e políticas existentes entre as classes que formam a sociedade brasileira; (c) as dificuldades na formatação e encaminhamentos de políticas públicas com a finalidade de diminuir as desigualdades e o fornecimento de moradia adequada para boa parte da população brasileira, impossibilitada de acessar o mercado formal de habitação.

De acordo com a Constituição Federal de 1988, há um direito de igualdade genérico segundo o qual todos são iguais perante a lei. Avalia-se que essa igualdade nos termos da Constituição deve ser, sobretudo, uma isonomia de possibilidades, garantindo-se minimamente que aos brasileiros sejam dadas iguais chances de estudar, trabalhar e morar. É apresentado, também, estudo de casos comparando um condomínio de apartamentos construído pelo Banco Nacional da Habitação e outro condomínio de apartamentos construído pelo Programa Minha Casa Minha vida.

Eunice Muniz da Silva reside e trabalha em Porto Alegre. É Engenharia Civil formada pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUCRS e Administração de Empresas pela Faculdades Porto Alegrenses de Ciências Contábeis e Administração – FAPCCA. Possui Cursos de Pós-Graduação em Construção Civil pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Administração Hospitalar pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUCRS e Direito Municipal pela Fundação do Ministério Público.

Com uma linguagem simples e fluida a autora apresenta uma reflexão  sobre a Habitação de Interesse Social, fazendo uma comparação entre a produção habitacional do Banco Nacional da Habitação – BNH, e do Programa Minha Casa Minha Vida – PMCMV. apresentando o direito à moradia garantido pela Constituição Federal de 1988, sua evolução, e o estudos de caso em dois bairros da cidade de Porto Alegre.

Para adquirir contate feminal@feminal.com.br

Cerimônia de Adeus

15 de setembro de 2014

Berenice Sica Lamas*

Coimbra, 27 de Abril de 1956 – Pareço uma rês enfragada, a que ninguém pode acudir. Gemo no fundo do abismo, com a alma partida, e só no desespero encontro conforto. É um desamparo     irremediável que sinto, uma velhice súbita que me dobra, uma solidão absoluta que me acobarda (A morte do pai – Miguel Torga).

Repentinamente viajo ao Brasil devido ao agravamento da doença do pai – ainda o vejo na UTI de um hospital com alguma lucidez e ele me reconhece – falece alguns dias depois. Ainda acompanho a mãe e os irmãos alguns dias e regresso em seguida. A viagem em si não foi fácil: pouco tempo e longa distância; ao todo, sete aviões entre ida e volta, em nove dias. Sentimentos contraditórios: rever amigas e familiares nesta situação – o pessoal todo de Pelotas novamente em Porto Alegre, as duas famílias de origem, como nas festa de suas bodas, impossibilidade de conversar, tempo escasso, situação familiar em luto.

Te olhar, pai, com o físico tão depauperado, teu corpo frágil sob o lençol, solto aos caprichos das trevas que talvez não demorem, cheio de aparelhos que não permitem que fales, durante minutos controlados pelo relógio em rodízio de familiares. Tu que sentes tanto frio, aqui exposto com roupas neutras e toscas tão exíguas. A vulnerabilidade. A fragilidade. A solidão. A terrível solidão da morte, sem teus queridos, sem o aconchego de teu ninho, atravessado pela parafernália hospitalar que sabemos não adiantar mais nada.

Te sinto tão perto entretanto longe, em outras paragens azuis prateadas rosadas. Hoje morrer em casa é luxo para poucos. Desfio palavras e preces discretas, somente pra ti. Rondam por aqui teus cavalos esculpidos e peixes e barcos navegam nesta imensa enfermaria. Vejo em especial um cavalo que te vigia e não vai embora. Teus pensamentos dissolvidos nas sombras, já adentras no sótão e porão do armazém do vovô Lamas. Talvez na fusão eterna com o outro Rubens que te antecedera, desaparecido precocemente, este duplo que habitou tuas memórias, este fantasma que emoldurou tuas paredes, este irmão morto precocemente de quem herdasses o mesmo nome. Desprendo-me e também estalo por ali, em busca de anotações, bilhetes e lembretes com tua letra clara e precisa em papeizinhos dobrados entre as páginas de teus livros. Encontro o chapéu tirolês, presente antigo meu. Sou um peixinho vermelho tecendo vôo com guelras famintas. Te vais nas luzes pálidas do outono.

Não era esta a visita idealizada, ainda mais no primeiro retorno depois de um ano. Senti-me muito desconfortável, com sentimentos de “não lugar” e  desterritorializada. Quando voei de retorno a Bologna, tive a sensação de estar voltando pra casa e isto me assustou um pouco. Minha identidade foi revolvida outra vez.  A vida oferta situações singulares às vezes: eu não estava ao lado de meu filho quando perdeu o pai, mas ele estava a meu lado quando perdi o meu, seu avô. Voltar a dormir “em casa” trouxe um certo estranhamento: peças vazias, meu quarto disposto em outro cômodo, a mala permaneceu no chão até o momento do retorno, nem desfeita foi – tudo muito rápido. Me empanturrei de filmes em DVD da locadora – uma boa fuga, as legendas em português me confortavam, acostumada ao italiano. Vagava pelo apartamento já um tanto esvaziado. Apesar de ser abril e inicio de maio, o frio já chegara a Porto Alegre. Houve ate mesmo o brinde de um ciclone extra-tropical. Revi algumas amigas, jantei com duas.

Conheci uma sobrinha neta de três meses. A casa nova construída pelo irmão caçula. Pude ajudar no rearranjo de móveis do quarto da mãe, das arrumações dos armários e separação das roupas do pai, papelada, amparando-a nestes primeiros dias de luto. Não havia digerido nada ainda quando embarquei de novo alguns dias depois. Precisei de um tempo – reorganizar tudo para seguir o movimento dos compromissos ou o contrário, as tarefas me ajudaram a me reestabelecer. Pai, voltei contigo no coração e mente, não existia mais tua figura física. Fotos, lembranças, pensamentos. Transbordava pra dentro. Tua presença muito forte em mim. Como dispôs Proust, o morto continua a agir sobre nós. Tua vida interrompida continuava em nós, uma extensa família. Pressinto que a dinâmica da família se modificará para sempre. Ao reler o livro de memórias chegando em Bologna, me emocionei e chorei muito nas diversas passagens em que me ocupei de ti. Pude te sentir e te reviver. E ressignificar tudo de ti em mim.

Sério, calado, circunspecto, encapsulado, mas com um humor prestes sempre a desabrochar, ditos espirituosos à espreita – rejeitavas o aparelho que te melhoraria a audição, pois era cômodo muitas vezes fingir não ouvir. Podias ficar sem proferir uma palavra durante cinco, seis ou até mais horas – às vezes se chegava na casa de vocês e a mãe logo dizia “teu pai ainda não deu uma palavra hoje” como se fosse uma grande novidade ou como se pudéssemos fazer alguma coisa a respeito e agora, que me dizes de tua própria morte? – agora já disseste tudo, não precisas falar mais nada.

Contradições e paradoxos de tua vida, vivida de forma tão intensa, interna, tão interior – sabias pensar, refletir, avaliar, sabias tanta coisa, mas não compartilhavas tanto – às vezes de mal com o mundo e com as pessoas, custavas a fazer as pazes, azedavas rancores inúteis, uma pena. Tanto sofrias com os fatos externos, do social – um assalto a uma agência do Banco do Brasil, por exemplo, era motivo de te colocar sofredor e aflito por dias e dias. Uma vez funcionário do BB, sempre funcionário do BB!! Acidentes rodoviários também te mobilizavam muito, talvez pela perda prematura de nossa Dag em 1974. Gostavas de uma contra-luz, de um ventilador indireto, de um lençol térmico aconchegante, jogo de luzes e sombras, penumbras, músicas de CD’s e jornais do dia.

Petiscos diferentes para saborear, que os filhos buscavam com prazer – bolinho de bacalhau do restaurante Calamares, por exemplo ou galinha ao molho pardo. Passeios com os filhos aos arredores de Porto Alegre. Visitas à tua Pelotas querida. Foi difícil manejar e conter a fase das compras pelo programa Shopping Time da TV, pois conseguias driblar o controle da mãe, e quando se percebia, estavam chegando ventiladores, jogos de lençois, caixas de facas de todos os tamanhos e usos, rádios, e muitos outros objetos e aparelhos. Tivemos que bloquear o acesso ao telefone do programa. Não ficaram débitos emocionais, não temos contas pessoais afetivas a ajustar nem a pagar. Não precisarei escrever uma Carta ao pai ao modo de Kafka. Sensibilidade vivida pra dentro, raramente externalizada. Sob esta capa antissocial uma vida interior plena de riquezas mas tuas dificuldades impunham limitações que bloqueavam teu ser mais participativo. Generoso, no entanto, com os seus, da forma como eras capaz: presentes, ajudas financeiras, adoravas surpresas – tanto proporcioná-las quanto recebê-las. Silencioso em vida, na morte fazes um rumor tremendo, espesso…Sempre foste um… & outros. Múltiplo.

quando morre um pai,

                       são tantos

não se perde o pai

                        se perdem muitos

o que embalou fez ler proibiu o namoro

ensinou a dirigir dançou a valsa levou a viajar  

                      modelou constância honra

                      responsabilidade lealdade dignidade

                                       gosto pela arte beleza estética

                                                       leitura gatos cavalos

                                                      valor do silêncio

o que babou com os netos, bisnetos

        adoeceu, envelheceu

 

* Psióloga e escritora

Incongruência

15 de setembro de 2014

Lícia Peres*

27.09.2012. O debate sobre a obra de Monteiro Lobato ganhou até audiência no Supremo Tribunal Federal, instituição que vem merecendo o respeito de todos pela seriedade de seu trabalho no chamado Mensalão.

Agora o STF é instado a manifestar-se pelo Instituto de Advogacia Racial que defende   a restrição a adoção do livro Caçadas de Pedrinho no Programa Nacional Biblioteca na Escola (PNBE), por suposto conteúdo racista.

Desde menina posso dizer que tomei gosto pela leitura a partir de alguns clássicos infantis, entre eles as obras de Monteiro Lobato, instigantes e divertidas.

Penso mesmo que uma das melhores séries produzidas para o público infantil para televisão foi o Sítio do Pica-Pau Amarelo, uma exceção em meio a tanta mediocridade.

Imaginem a quantidade de grandes obras literárias que, obedecendo ao crivo do olhar feminista, deveriam ser” condenadas”. Para começar, todos os romances de época :Jane Austin,Henry James que retratam a condição feminina ,cujo único objetivo é um casamento adequado, com um pretendente possuidor de uma sólida renda anual ou com perspectiva de herança. A moça que não casasse era uma pobre coitada. Praticamente inexiste mobilidade social e o trabalho era considerado algo desprezível. Shakespeare seria considerado inapropriado : a Megera Domada, o Mercador de Veneza (anti-semita) só para dar alguns exemplos. Haveria uma lista infindável de livros a serem censurados e mergulharíamos na indigência intelectual.

Considero absurda a tentativa de retirar da lista de leituras indicadas nas escolas um livro escrito em 1933, no contexto que é um retrato daquela sociedade, marcada fortemente pelo escravagismo.

A resposta efetiva para tudo aquilo que, ofensivo no passado é inaceitável hoje, está sendo dada pelas conquistas dos movimentos sociais que falam por si mesmas. Na época atual racismo é crime inafiançável; as mulheres vêm ampliando suas conquistas . Todas as formas de discriminação e preconceito são consideradas um desrespeito aos direitos humanos. Felizmente a mudança está aí ,e conhecer os costumes de séculos anteriores ilustra o quanto avançamos.

E acrescento mais uma ponderável razão ao defender a adoção de todas as obras do consagrado escritor Monteiro Lobato: se for censurada, a boneca Emilia vai ficar furiosa.   E olhem que a boneca é marrenta.

* Socióloga

Hoje à noite

15 de setembro de 2014

Rosiska Darcy de Oliveira*

O Globo, 24.12.2011. Na noite de natal há uma pulsação acelerada no coração do mundo. É um tempo de exacerbação de sentimentos, quando presenças e ausências, ganham maior intensidade.

Há quem não goste do Natal, torça para que passe depressa esse frenesi do consumo, com desempregados patéticos sentados entre eletrodomésticos, equilibrando seus mal colados bigodes de algodão, mais assustando do que encantando as crianças. Há muita dor nesse dia mesmo se a televisão afirma que o natal é alegria, propondo o mundo surreal das compras em um megashopping superlotado. Essa histeria comprovaria a perversão de uma festa religiosa.

São verdades que não são toda a verdade. Dando o laço nos embrulhos dos presentes não me vejo estimulando o consumo e sim criando laços com que amarro a esperança de manter próximos e unidos os que chamo de meus. Não fosse a vida destruidora de laços e criadora de nós… Ainda assim, é possível preservar nossos gestos em um espaço interior, excêntrico às análises econômicas e que elas não têm o poder de desencantar.

O chamado sistema – o que quer que isso queira dizer em sua imprecisão conceitual – não expropria a vida do sentido que lhe damos, a exemplo do valor das memórias do Papai Noel da infância, indeléveis , revividas nos que hoje ainda são crianças e acreditam em um ser que não existe mas lhes é benfazejo. Essas também entram no pacote dos críticos do Natal.  Uma tolice, dizem, fazer acreditar no que não existe.

O que seria de nós sem as coisas que não existem? O mundo seria de uma banalidade insuportável e, nós, prisioneiros dos cinco sentidos. Não aconteceria, por exemplo, a literatura, essa arte de dar vida a criaturas imaginárias que, no entanto , nos acompanham vida afora . Se às crianças basta crer para ver, aos adultos também.

Nem tudo se explica pelo volume de negócios e seus negociantes. A economia não é a senha que descodifica o mundo. Há um outro modo de viver o Natal , como um desejo de vínculos que se exprime na ceia das famílias e dos amigos, no cartão de boas festas ou no telefonema dado às pressas, em meio à correria nossa de cada dia, que sublinha que alguém não deixou de existir para nós. São os vínculos que resistem a um mundo de relações esgarçadas, de amores líquidos, de individualismo delirante, do cada um por si. A força e o mistério da noite de Natal é trazer à tona o ancestral desejo de pertencimento.

Há um potencial regenerador, um desejo de comunidade religiosa ou familiar ou, simplesmente, de união a algum ente querido. No Natal dói mais a solidão e disso bem sabem os que conheceram o exílio e as noites gélidas em terra estrangeira, com saudade da falsa neve de algodão. Doem mais as ilusões perdidas, os que já não estão nas fotos e perambulam nos corredores da memória, presentes, mas invisíveis, fantasmas da permanência que a vida promete e não cumpre.

Em todo o mundo multidões se deslocam para passar essa noite com “os seus”, o que pode ser – e é – o inferno dos aeroportos e rodoviárias, o pesadelo dos engarrafamentos, mas é também o esforço de riscar, no espaço, um traço de união entre os que vivem separados. A dificuldade na noite de hoje é multiplicar-se entre os entes queridos, espalhados em casamentos rompidos e recompostos ou em cidades que a globalização e a imigração fizeram conviver sem que por isso sejam menos distantes .

Por que Bing Crosby, morto há décadas, cantando White Christmas, ainda faz chorar mesmo os politicamente corretos? Talvez porque, no fundo de si mesmo, ninguém tenha renunciado a uma noite feliz.

A noite de Natal é um tempo suspenso, um desafio à temporalidade hipermoderna. Um sursis em um mundo predatório que trata o tempo como tratou seus recursos naturais, exigindo de todos os malabarismos da quase ubiqüidade. Dia a dia luta-se pelo que se acredita será, no futuro, um lugar ao sol enquanto, no presente, o sol é subtraído dos escritórios sem janelas. No Natal cada um reserva para si um tempo inegociável – nessa noite tempo não é dinheiro – e se recolhe a um espaço privado, na contramão do cotidiano frenético que, impiedoso, devora os momentos de  intimidade .

Há uma inocência nessa noite em que se dá presentes, come-se bem, misturam-se gerações e, imperceptível, vive em cada um de nós um Deus pobre e nu, mas acalentado, a quem reis magos trazem ouro , incenso e mirra. Os amigos nos trazem um vinho, um livro, um brinquedo. Esse Deus, cedo ou tarde encontrará seu Judas e morrerá na cruz. Mas terá tido sua noite feliz, sua noite de criança.

Feliz natal.

*Sexta ocupante da cadeira 10 da Academia Brasileira de Letras.

Alquimia

13 de fevereiro de 2012

Berenice Sica Lamas*

decantar                                                                                                                                     

Não sei se as manias começam com mamãe ou com vovó, figuras dominadoras na minha vida. Onipresentes. O autoritarismo parecia vir através do genoma, escorria braços e pernas. Zinabre ferrugem nos neurônios. A carreirinha de formigas e azafamas pelos rodapés, fruto de um condicionamento mais do que centenário. Semente funde, divide e multiplica forrada de lã e cetim. Teto cheio de nichos e em cada um, um lustre de cristais e outras bobagens. Me diziam que as tríades eram as relações mais difíceis e complexas; ali estava eu, ponta de um triangulo somente de mulheres, e transgeracional ainda por cima. Duas pontas que se dobravam sobre a terceira, oprimida. 

Intuí o que aconteceria desde o velório de papai, quando minha avó estampou um semblante de alivio. Genro danado. Me dei conta de que ela teria minha mãe de volta. E provavelmente palpitaria até mesmo nos negócios. O caixão, ela ajudara os caras da funerária a aparafusar. Dio mio, ninguém se deu conta, somente eu.

Elas me disputaram para sempre e não foi fácil conviver. Necessitei transvasar obsessões e compulsões. Era purificação minha precisão. Formigas, impurezas, papeizinhos, resíduos, farelos e lascas de chocolate, tudo implodiu em meio à nuvem de veneno que inundou meu quarto. Aproveitaram, as duas loucas, um dia de aula noturna na faculdade. Vovó aparafusaria meu esquife também?                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                catalisar

Minha filha não sabe o que é bom para ela, de que necessita, não tem consciência, se transformou em uma menina sem pai. As moças de hoje privam de uma liberdade ainda maior do que a angariada nos anos 60 por minha geração mas administrar e reconhecer isso, neca pau. O que eu não daria para aplaudir novamente o por do sol o espetáculo diário em Morro de São Paulo na Bahia ou caminhar pelos Champs Elisèes em Paris tendo ao fundo o Arco do Triunfo? 

Acontecimentos de tempos atrás me alagam, porém a casa precisa de mim, arrumações, faxinas, agendamentos, compras. A companhia de mamãe me assegura, dá suporte. Uma casa com três mulheres é como uma fortaleza de hábitos e regras. Gosto do império do feminino, embora não entenda bem minha filha nem mamãe, às vezes sou um elástico puxado antagônico por ambas as pontas.

Me conformo com a viuvez, a morte do Paulo era inevitável, tudo excedia nele, eu nem avisava nem pedia mais. Fumo bebida e trabalho não é uma boa combinação, sobretudo se em excesso. Um remoinho de areia se aproxima, grãos em furacão, o coleguinha de minha filha, sim, um projeto portentoso de homem, que não saibam as outras mulheres da família. Em busca de minhas utopias derramadas através deste menino. Orvalho para desembaciar minha pele.    

condensar

Bem que preferiria um filho, um neto, e tive um genro fraco, pusilânime. Senti mais pelo pai de minha neta. Mastigo sementes de abóbora trituro ervas e se eu desaparecesse? o lago não murmura soletra letras que vagam duvidosas pelo caminho lácteo de um céu resplandecente será que conseguirei morrer? Ultrapasso um plano de realidade e me encaminho para encaracolados, me desdobro em inquietudes e gozos. O que está embaixo é semelhante ao que está em cima. Fiquei desarticulada e desorganizada, e daí? depois de viver mais de oitenta e cinco anos quem não fica?                                                                          

O rosto e o corpo murcham, tá certo, o cheiro de carne velha, talco, pó de arroz, colônia floral, memórias pedras preciosas em minha cabeça o mundo se alarga na velhice na proporção em que o corpo encolhe. Não é fácil equilibrar este contraste, cautelas acabam, quero é riscos traços marcas pesar plumas, na balança levezas. Mãos sujas em claros colarinhos nem filha nem neta sustentam a inquietação, quero me derreter feito relógio de Dali. Alguém duvida que vi o surrealismo nascer?                                                                                                                                     

Impossível não perceber os rastros, lençóis, papéis, mensagens, esta minha filha é muito burra mesmo, tentar resgatar fracassos deste jeito. Uma vida inteira pra aprender que tudo é processo, bem que alguém poderia contar isto pra gente na adolescência. E agora esta, o primeiro boletim de ocorrência de minha vida, pensei que havia surripiado a ècharpe sem testemunhas.

*Psicóloga e escritora

Curso: oficina de poesia na Academia Literária Feminina RS-2012

5 de janeiro de 2012

Ampliando o repertório 2: diálogos sobre poetas e poéticas com Ronald Augusto

Duração: 04 encontros-aulas, no mês de janeiro.

Local: Academia Literária Feminina/RS – Rua Sarmento Leite, 933 – quase esquina Rua Lima e Silva, Cidade Baixa, Porto Alegre, RS.

Datas: 12, 19 e 26/01 quintas-feiras e 17/01 terça-feira.

Horário: das 16h às 18h.

Inscrições pelos telefones: 9991 9292 ou 9676 2730 ou e-mail: alf.rs@terra.com.br 

Sobre a oficina

Um diálogo dinâmico sobre alguns poetas fundamentais da tradição poética de língua inglesa, seja em termos de fundação da linguagem moderna, seja em termos de perspectivas para a contemporaneidade. Através da apresentação e análise de obras chaves de determinados poetas, os participantes do curso se familiarizarão com as questões essenciais da função estética da linguagem e desse modo ampliarão sua capacidade de leitura e criação de poemas.

Os encontros serão dedicados aos seguintes autores: Walt Whitman, Ezra Pound, T. S. Eliot e, finalmente, William Carlos Williams e E. E. Cummings. Dentro deste quadro se discutirá desde a dicção versicular do utópico Whitman até a fratura sem-versista de Cummings, passando pela épica sem enredo de Pound, o imagismo de Williams e as 3 vozes poéticas de Eliot.

Em paralelo os participantes exercitarão a escritura de poemas que serão comentados e debatidos em grupo. O curso, portanto, também se voltará para o aspecto da criação verbal de cada interessado.

Em seus objetivos gerais a oficina pretende

Reforçar o valor da literatura como forma de ampliar a subjetividade do indivíduo — objetivo por si só pertinente, haja vista o panorama sociocultural cada vez menos voltado ao pensamento e à interpretação.

Divulgar e, na medida do possível, ampliar a riqueza da produção poética universal.

Estimular a produção de poemas no sentido de acréscimo criativo (qualitativo) à nossa tradição literária.

E em seus objetivos específicos

Identificar e explorar no interior do texto a função poética da linguagem, de modo a potencializar os elementos já iniciados ou prefigurados racional ou intuitivamente nos escritos dos candidatos.

Ler, em cada poema apresentado, o que está de fato escrito/inscrito desde um ponto de vista de forma-e-fundo, e não aquilo que gostaríamos que estivesse escrito.

Trabalhar elementos/insumos essenciais como sonoridade, rima, ritmo, imagem, e outras figuras de linguagem. Perceber que forma e conteúdo são inseparáveis.

Tomar consciência de que a poesia não é uma janela para o real. A arte da poesia propõe quando muito um sentido provável para o real.

Sobre Ronald Augusto

Ronald Augusto é um escritor que atua em inúmeras áreas: é poeta, músico (integra a banda os poETs), letrista (parcerias com Marcelo Delacroix), ensaísta e possui ainda um trabalho significativo no âmbito da literatura. Como poeta alcançou expressividade no cenário nacional e até mesmo mundial, de tal forma que suas produções foram publicadas em revistas literárias, bem como em antologias, dentre elas destacamos: A razão da Chama, organizada por Oswaldo de Camargo (1986), a revista americana Callaloo: African Brasilian Literature: a special issue, EUA (1995 e 2007), a revista alemã Dichtungsring Zeitschrift für Literatur, e outras.

As principais temáticas presentes no repertório intelectual de Ronald Augusto referem-se à poesia contemporânea e à literatura negra no Brasil. Entre essas publicações um estudo referente à obra de Cruz e Sousa mereceu destaque e por este trabalho o escritor recebeu a Medalha de Mérito conferida pela Comissão Estadual para Celebração do Centenário de Morte de Cruz e Sousa. Além dessa premiação, o poeta recebeu ainda o Troféu Vasco Prado conferido pela 9ª Jornada Nacional de Literatura de Passo Fundo, em agosto de 2001 e o Prêmio Apesul Revelação Literária em 1979.

Atualmente Ronald Augusto realiza palestras e oficinas/cursos abordando assuntos como música, poesia contemporânea e visual. Em 2007 criou ao lado do poeta Ronaldo Machado a Editora Éblis, voltada para a poesia. É diretor associado do website WWW.sibila.com.br. Colaborador do caderno Cultura do Diário Catarinense.

Entre suas principais publicações destacamos Homem ao rubro, de 1983, Puya, com a primeira edição em 1987; e ainda um dos seus mais recentes trabalhos, que recebeu o nome de Confissões Aplicadas, publicado em 2004. Recentemente publicou pela editora Éblis o livro de poemas No assoalho Duro (2007).

SARAU WISLAWA NO 68° ANIVERSARIO DA ALFRS

22 de maio de 2011

por Berenice Sica Lamas

Em 11 de abril a Academia Literária Feminina comemorou 68 anos de sua fundação em 1943 com um Sarau em homenagem à poeta polonesa Wislawa Szymborska, lembrando ainda o ano Chopin festejado em 2010. Estiveram à frente do evento Tiago Halewicz, pianista e curador-adjunto do Studioclio e Carmen Presotto, poeta e gestora do site Vidraguas.

Tiago relatou fatos da vida da poeta, entrelaçando leituras de seus poemas, e Carmen também dizia poemas. As vezes recitavam juntos alguns poemas, conferindo um belo efeito à voz de Wislawa. Tiago recitou um em língua polonesa e mesmo sem o significado – após revelado em português – encantou o publico pela sonoridade e assonância descobertas em língua desconhecida. Poesia é universal, em qualquer idioma. Foi utilizado o volume “Memória Cultural Polonesa”, livro de autoria do próprio Tiago, que ao final do evento, vendeu vários exemplares.

Wislawa possui uma obra extensa, sendo detentora do Premio Nobel de Literatura de 1996. Atualmente aos 88 anos de idade ainda escreve e vive com simplicidade. Privilegia o canto do cotidiano em seus versos, o social, o político e a cultura.

Uma brevíssima amostra – fragmentos – de seus versos:
“EXEMPLO

Um vendaval
despojou todas as folhas das árvores ontem à noite
com a excepção de uma folha
deixada
a baloiçar sozinha num ramo nu.

Com este exemplo
a Violência demonstra
que sim, senhor –
gosta da sua piadinha de vez em quando.”

“Nada acontece duas vezes
e nem acontecerà. Por este motivo
nasceremos sem pratica
e morreremos sem rotina.” …

… “São treze e vinte.
Como o tempo voa.
Deve ser agora.
Ainda não.
Sim, è agora.
A bomba, ela explode”.

“Depois de toda guerra
Alguém precisa fazer a limpeza.
Já que uma ordem como essa
Não vai se fazer sozinha” …

“Somos filhos da época,
A época é política.
Todos os teus, nossos, vossos

Assuntos diurnos, assuntos noturnos
São assuntos políticos” …

Durante e depois da apresentação de Tiago e Carmen, o publico foi bastante participativo com questões, indagações e esclarecimentos sobre a biografia e obra da poeta em foco. O Sarau suscitou muito interesse, pelo observado.

Carmen, em um gesto sensível e delicado, ofereceu uma cesta com rosas em diversos tons de amarelo, bege, amarelo-rosado e branco. Junto às flores, envelopes contendo fragmentos de textos e/ou poemas das 40 patronas das cadeiras da Academia. A cesta passou entre o publico, que foi retirando as rosas e os envelopes, e lendo seus conteúdos, conferindo ao sarau um tom inusitado e de homenagem nostálgica. Portanto, foram lembradas literariamente as patronas no dia do 68° aniversario da Academia, em uma justa e bela homenagem.

A presidente da Academia – Eloá Muniz – ainda entregou 3 diplomas de sócias participativas a três novas integrantes,(aqui favor colocar o nome das 3 – eliete, Isabel ….) pessoas que colaboram e prestigiam a Academia. A acadêmica Teniza Spinelli ofereceu de surpresa uma homenagem à Academia e ao publico presente ao Sarau: a apresentação de uma poética espacial encantadora. A bailarina e coreógrafa integrante do Grupo MEME – memória do movimento – Thais Helena de Freitas dançou em coreografia de sua autoria ao som de belíssima musica clássica, recitando o poema Quintal de Osório, de autoria da referida acadêmica, de seu livro Genius Loci da Coleção Sempre Viva da ALFRS. A coreógrafa valeu-se das palavras e respectivas imagens do poema para transformá-las em movimento.

As atividades do sarau pareciam se entrelaçar de modo harmonioso, sucedendo-se num clima intelectual e amistoso. Após todos confraternizaram e brindaram em delicioso coquetel.

Escritora e Poeta

O Livro dos Erros

22 de maio de 2011

por Lícia Peres*

Uma das coisas mais aberrantes com que nos defrontamos neste momento é a utilização de livros destinados à educação com erros crassos da língua portuguesa, ou melhor dizendo, a deseducação institucionalizada. E o MEC serve para quê? Não é sua obrigação defender o nosso idioma como dispõe o artigo 13 da nossa Constituição?

É sabido que a educação se dá através da consolidação do conhecimento. É, portanto, dever da escola ensinar certo, corrigindo quem fala errado, não por discriminação, mas justamente para auxiliar os estudantes no domínio da sua língua materna que os auxiliará no processo de mobilidade social.

A tentativa de alguns ditos especialistas em linguística de flexibilizar as regras da escrita é um tremendo equívoco. “Os pé”, “menas”, “nós fumo”, e tantas expressões oriundas de um aprendizado deficiente em famílias iletradas devem, na escola, ser corrigidas. Assim a instituição estará cumprindo sua função de preparar os estudantes para competir, em igualdade de condições, com aqueles de famílias mais cultas. Não é possível, de forma paternalista, sonegar-lhes o direito de aprender, deixando “passar” os erros cometidos. Até porque o alunato, em qualquer nível, tem aspirações e quer melhorar sua condição de vida. Assim, muitos, mesmo com sacrifício, trabalham de dia e frequentam a escola noturna.

Ademais, há um aspecto que não pode ser desconsiderado. Em qualquer concurso, a exigência em relação ao conhecimento da língua portuguesa costuma ser rigorosa e até mesmo eliminatória. Como alguém oriundo de um ensino deficiente desde as séries iniciais poderá ter êxito em suas pretensões? Nesse caso constata-se a verdadeira discriminação: a que limita de antemão a ascensão dos mais pobres transformando seus sonhos em mera ilusão.

*Socióloga

O Enigma do Tempo Retido nos Museus

19 de maio de 2011

Teniza Spinelli*

A frequente comparação do museu com uma máquina do tempo – que desloca e transporta o indivíduo para outros mundos – leva-nos a crer que o espaço expositivo no museu, de fato, nos conduz a um tempo diferenciado e inusitado. Esse tempo concebido e problematizado – foco do olhar – pode ser o passado, o presente ou mesmo a projeção de um tempo ou lugar do futuro. Mas seguramente nunca será o tempo real vivido pelo visitante fora do espaço artificial, idealizado e institucionalizado. Porque o tempo no espaço da exposição museológica será sempre um simulacro do tempo real.

Para esclarecer essa assertiva fomos buscar inspiração em uma antiga lenda oriental. Trata-se da história de Urachima Taro, famoso pescador japonês e sua viagem a um mundo desconhecido.

Urachima, ao salvar uma estranha tartaruga maltratada por garotos, em uma praia de sua aldeia, liberta, sem saber, uma princesa encantada, filha do rei do mar. Como prêmio, a princesa o convida a conhecer o seu palácio, no fundo das águas. Impressionado por aquele mundo, Urachima se envolve e, acaba permanecendo ali, casado com a princesa.

A lenda, pela riqueza dos fatos abordados, nos permite fazer inúmeras reflexões: a tartaruga, por ter vida longa, constitui-se num símbolo milenar da passagem do tempo em seu lento, constante e irreversível percurso. Ela é ainda, neste caso, um vetor de comunicação. Em um museu, a exposição é o espaço do estranhamento, do hermético a decifrar. Trata-se de um local onde o visitante se percebe através dos objetos e, ao reconhecê-los, se conhece e se transforma. A mensagem contida nos objetos (meios), proposta pelo emissor (profissional do museu) no contexto museológico está destinada ao visitante-receptor denominado público de museu.

Na história em questão, o pescador é este indivíduo-visitante. Ao mesmo tempo em que ele desencanta/desvela o objeto olhado – na lenda a tartaruga/princesa – ele é também por ela encantado, gerando-se uma transformação. Urachima acaba fascinado pelo desconhecido: o mundo submerso da memória.

Que tempo é este que Urachima encontra no fundo do mar? Não é o tempo que ele viveu na aldeia, nem o tempo futuro que desconhece. Trata-se de um tempo presente, porém um tempo paralelo coexistente ao seu.

Conforme a lenda, a busca interior do personagem o consome. Embora vivendo com a princesa e rodeado de fabulosos tesouros, Urachima não consegue ser feliz. Como um exilado, ele teme perder a identidade e, por isso, deseja reencontrar aquele passado deixado para trás. Decidido a partir, recebe da princesa uma caixa fechada. Ela recomenda-lhe que não a abra, caso contrário jamais poderá regressar e vê-la novamente. A caixa nas mãos de Urachima representa uma incógnita. Assim como a tartaruga, este objeto é um vetor simbólico da comunicação com o tempo. A caixa contém o segredo do conhecimento ali acumulado e encerrado.

Cumprida a saga do retorno, no momento em que Urachima volta à tona, aflora à superfície das águas e caminha pela orla da praia, ele não reconhece mais a antiga aldeia. Descobre que seus parentes e amigos haviam morrido há séculos. Percebe que o tempo não tinha a mesma equivalência nos dois mundos. A lenda nos leva a crer que não há caminho de volta no tempo. Quando se move uma porta, não há retorno para o mesmo lugar, mas sim um abrir-se para o novo – um tempo reinaugurado. A identidade se constrói no caminhar e não no tentar reaver o que ficou para trás.

Como derradeira chance, em busca do auto-conhecimento, Urachima tenta reverter o tempo e projeta o futuro no fundo do mar. Mas o fundo do mar agora era passado. Desesperado, sem entender o enigma, Urachima esquece a recomendação da princesa e abre a caixa. Tal como a caixa de Pandora, ela contém um segredo, uma revelação radical para o visitante. Seu interior desvenda para ele a materialidade do tempo e opera nele uma transformação física. Urachima começa a envelhecer com rapidez e transforma-se num ancião. Amadurecido pelos anos e pelo conhecimento acumulado, sozinho, o pescador acaba morrendo na praia, no mesmo lugar da partida, agora também chegada. Cumpre-se assim a roda da vida.

Transpondo a lenda para o espaço museológico, podemos deduzir que a incógnita do tempo está contida nos objetos dos museus – signos – em sua relação com as pessoas, pois se tornam vetores de comunicação. O tempo é finito para os seres humanos, porém os objetos permanecem como testemunhos materiais, herdeiros da passagem do homem sobre a terra. Eles são verdadeiras máquinas do tempo a conduzirem os visitantes nos museus. Assim, a memória é uma condição do homem que o diferencia dos animais, pois somente o homem é capaz de capturar o tempo, de entender e traçar a sua própria trajetória e ter consciência de sua finitude.

Concluindo: entrar num museu – não importa qual tipologia – não é necessariamente entrar no passado. É, sobretudo, estabelecer nexos e relações sem fazer juízo de valor entre o velho e o novo, o bom e o mau, o feio e o belo. É exercitar a capacidade humana de reflexão. A memória não está, portanto, nos objetos dos museus, mas na capacidade humana de projetar e perceber nos objetos/bens culturais os condutores de processos mentais e de reflexões.

*Jornalista e museóploga