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Tailandesas comemoram eleição de 1ª mulher como premiê do país

10 de janeiro de 2012

Após seis primeiros-ministros em seis anos de uma crise política por vezes sangrenta, uma mulher será indicada como primeira-ministra. Algo inédito no país, Yingluck Shinawatra, empresária de 44 anos que até dois meses estava fora da política, deve ser eleita a nova primeira-ministra da Tailândia após a maciça vitória de seu partido, o Puea Thai (Para Tailandeses, em tradução livre).

O principal líder do partido é o irmão de Yingluck, o ex-premiê Thaksin Shinawatra, que já foi eleito premiê por duas vezes e está vivendo como fugitivo da Justiça da Tailândia em Dubai. Thaksin quer voltar ao seu país e uma das políticas da irmã será a anistia a crimes políticos.

Yingluck, conhecida como Pou, nunca havia concorrido a um cargo público ou assumido um posto no governo. Mas alguns tailandeses, principalmente as mulheres, veem a vitória como um grande passo para as mulheres do país, que têm lutado por representação igual no governo

Fonte: Agência Patrícia Galvão

Relacionamento de uma pessoa com outra

10 de janeiro de 2012

Marco Antonio Fetter*

Nem o amor, e muito menos o casamento, surgiram assim sem mais nem menos. Foi criado, estruturado, se fez para atender algumas necessidades, ou melhor, o sentimento do amor e a instituição do casamento nasceram para atender as nossas melhores necessidades. Da alma e da vida. De uma vida com alma.

… é de se perguntar, então: onde e como começou o casamento? Por mais que alguns queiram acreditar, a caricatura do homem da caverna arrastando sua noiva pelos cabelos para a sua caverna não foi…com toda a certeza, o modo pelo qual o casamento começou. 

Outros entusiastas teóricos românticos podem especular que o homem começou em bandos de laços frouxos partilhando sexo, companheiras e filhos, juntamente com sua comida. Mas, embora tal opinião de vida comunal promíscua seja intrigante, os antropólogos não encontram provas para sustentar essas idéias propostas por antigos antropólogos e filósofos.

Mesmo os nossos parentes mais próximos entre os primatas não vivem em bandos promíscuos – podem ser mais ecléticos em sua vida sexual do que gostamos de pensar que somos, mas eles também seguem certas normas de relacionamento.

Simplesmente não sabemos quais foram às primeiras normas do homem no casamento embora se especule que o “vínculo do par” foi à unidade fundamental do homem em suas fases iniciais de desenvolvimento humano.  

Mas isso é apenas uma teoria, e, como as pesquisas da história humana e antropológica nos mostram, o modo de vinculação do homem no casamento tem sido espantosamente diverso, variando desde a monogamia até a poligamia. Entretanto, naquelas sociedades em que se preferem outras formas de casamento, a monogamia também existe, é uma norma universal em todas as sociedades do mundo.

Esse tipo de união da mulher e do homem pode não ser sexualmente exclusivo ou durar a vida inteira, mas sua presença em toda parte confirma o fato de que o relacionamento de uma pessoa com outra é uma norma humana básica.

O relacionamento de uma pessoa com outra satisfaz as necessidades profundamente humanas do indivíduo, as necessidades desenvolvimentistas e psicológicas da intimidade, confiança, afeição, associação e validação da experiência. Não precisa ser permanente, exclusivo ou dependente, mas o relacionamento de duas pessoas – de uma com a outra – permite uma aproximação e intimidade psicológica que nenhuma outra espécie de relacionamento oferece.

Na teoria, o casamento não deve ser necessário para haver um relacionamento de uma pessoa com outra. Na verdade, nem é preciso haver casamento para se legitimar um filho. Num mundo de verdadeira compreensão humana, o filho deve ser legítimo porque nasceu. Todos os requisitos para cuidá-lo – cuidado maternal, garantia de interdependência e cooperação com os outros, podem ser atendidos sem o casamento legal.

O amor e o companheirismo existentes entre um casal não necessitam de documento nenhum para fazê-los atuar ou assegurar sua existência. Ou precisam?

O compromisso com outra pessoa não pode ser legislado ou registrado. O “verdadeiro compromisso vem de dentro, não de fora de um relacionamento”. A assinatura de um contrato não pode garantir a ninguém o compromisso de outra pessoa no sentido emocional; porque a ausência de tal contrato deve significar falta de compromisso? Não deve, é claro. Mas, infelizmente, às vezes significa, e bastantes vezes para permitir que aqueles que acreditam no compromisso da companheira (ou companheiro) pensem duas vezes. Não precisaríamos do contrato de casamento, na realidade, se todos nós tivéssemos alcançado uma etapa de desenvolvimento humano que assegurasse responsabilidade e confiança mútuas entre todas as pessoas.

*Doutor em Sociologia da Família – www.rebraf.com.br

Futuro do feminismo depende dos homens

6 de setembro de 2011

Katrin Bennhold

Em 1965, minha mãe era a única estudante de engenharia em sua classe na Alemanha. Não havia banheiro feminino exceto no porão, onde as faxineiras tinham seus armários e seu professor pedia a ela que encontrasse rapidamente um marido, para que ela não fracassasse nas provas.

O feminismo naquela época era bem claro: tratava-se de mulheres cerrando fileiras para combater o sexismo flagrante, receber educação e ir trabalhar. Era “a respeito das mulheres entrarem no mundo dos homens”.

O feminismo do futuro está se transformando em atrair os homens para o universo das mulheres – como pais envolvidos, parceiros iguais no lar e embaixadores da igualdade de gênero, do gabinete à sala da diretoria.

A realidade é mais cheia de nuances. As mulheres obtêm mais doutorados, mas menos dinheiro. Elas superam em número os homens na força de trabalho, mas ainda são responsáveis por grande parte do trabalho doméstico. Elas tomam as decisões de consumo, mas dirigem apenas 3% das empresas da “Fortune 500”.

No mundo ocidental, a maternidade continua sendo uma barreira para a igualdade de gênero. Até terem filhos, as mulheres jovens atualmente ganham quase o mesmo que os homens e sobem na escada da carreira em um ritmo semelhante. Com os bebês frequentemente vêm interrupções na carreira, trabalho em meio expediente e uma existência corrida em dois turnos que significa o sacrifício dos contatos informais, como as experiências de beber cerveja e formar laços após o expediente, frequentemente cruciais no momento da promoção.

Muitos países ocidentais protegem os empregos das mulheres durante a licença maternidade e vários oferecem às mães o direito de jornadas reduzidas. No mundo corporativo, as diretoras de recursos humanos fazem lobby por horários de trabalho flexíveis e as diretoras de diversidade organizam programas de apoio às mulheres. Redes de contato de executivas, onde as mulheres podem desenvolver laços, estão crescendo. E em inúmeras conferências de mulheres, estas debatem com outras mulheres a respeito de mulheres e desenvolvem ainda mais laços.

Na melhor das hipóteses, essas iniciativas são boas para dicas e para o moral. Na pior, elas prendem as mulheres ao seu papel de protetoras primárias. O que não fazem é colocar mais mulheres em posições de liderança.

A única coisa que pode igualar o campo de jogo no trabalho é igualar o campo de jogo em casa. E isso requer uma grande mudança na política pública e na cultura corporativa.

Nos poucos países onde os pais têm licença paternidade em uma escala significativa, essa licença é altamente remunerada e não transferível à mãe. De forma previsível, os nórdicos lideram o caminho. A Islândia, que está mais próxima de atingir igualdade de gênero segundo o índice de desigualdade de gênero do Fórum Econômico Mundial, foi mais longe, reservando três meses de licença para os pais. Nove entre 10 homens islandeses tiram licença para ficar com seus bebês. Uma legisladora, Drifa Hjartardottir, descreveu a lei de 2000 como “um dos maiores e mais importantes passos voltados à igualdade de gênero desde o direito de votar das mulheres”.

Foi necessário um primeiro-ministro para vender a legislação ao país e foram necessários líderes masculinos na Suécia e Noruega para aprovação de leis semelhantes. Foi um homem que defendeu uma cota para conselho diretor na Noruega, obrigando as empresas a preencherem pelo menos 40% das cadeiras com mulheres.

Basicamente, os homens são feministas mais eficazes, porque isso aumenta a probabilidade de outros homens escutá-los.

Isso também vale para os negócios. Modelos de líderes femininas importam, disse De Anca. Mas modelos masculinos que tiram licença para ficar com seus bebês, encerram o expediente em um horário decente, promovem as mulheres e transmitem a notícia para seus colegas masculinos talvez importem ainda mais.

Mas a mensagem está sendo transmitida.

Na França, por exemplo, o Institut d’Études Politiques está transformando os estudos de gênero parte do currículo básico para todos os alunos a partir de 2011. A Deloitte France está promovendo uma iniciativa neste mês para educar os homens de seu quadro a respeito da diversidade de gênero. Um punhado de empresas, incluindo a gigante nuclear Areva (dirigida por uma mulher), colocou homens encarregados de gênero.

Dar à próxima geração fortes figuras paternas não apenas ajudaria a explodir o teto de vidro, como também seria a melhor esperança para esses meninos que fracassam na escola, que carecem de modelos masculinos.

Os homens têm muito a ganhar com a ascensão das mulheres, disse Joanne Dreyfus, uma auditora da Deloitte, em Paris, apontando que no momento três quartos dos que estão tirando proveito do esquema de horário flexível da empresa são mulheres.

Colocando de outra forma: a fronteira final da liberação das mulheres pode ser a liberação dos homens.

 Tradução: George El Khouri Andolfato

A escravidão feminina

11 de março de 2011

por Maria Berenice Dias*

Para justificar a discriminação contra a mulher Aristóteles chegou a dizer que ela não tinha alma. Assim, como um objeto, não merecia sequer respeito. Era considerada uma mercadoria. Não só para compra, mas também para venda. Basta lembrar o regime dotal, ainda vigorante em alguns países, e que estava previsto na legislação brasileira até o ano de 2003, quando do advento do novo Código Civil. O dote nada mais é do que o pagamento feito pelo pai para alguém casar com sua filha.

Foi árdua a luta para mudar este estado de coisas. A mulher só atingiu a condição de cidadã, em 1932, ao adquirir o direito ao voto. Ainda assim, foram necessários mais 30 anos para que, ao casar, não perdesse a sua plena capacidade. Esta posição degradante, que submetia a vontade da esposa à autorização marital, foi eliminada em 1962, pelo chamado Estatuto da Mulher Casada. Mas ainda continuava o homem sendo o cabeça do casal e o chefe da sociedade conjugal, status que perdeu com a Constituição Federal, que consagrou a igualdade entre homens e mulheres, e isso no ano de 1988.

O acesso da mulher à educação e o seu ingresso no mercado de trabalho – conquistas alcançadas graças ao movimento feminista – não lhe garantiu igualdade nem de salário e nem de oportunidades. Continua percebendo menos do que o homem, ainda que desempenhe igual labor, sendo rarefeita sua presença nos postos de poder.

Os avanços, ainda que significativos no mundo público, não tiveram a mesma repercussão no ambiente doméstico. Nas relações familiares persiste a mulher subjugada ao homem, que se arvora o direito de puni-la toda a vez que ela não corresponde ao modelo de comportamento por ele imposto. A maior prova são os surpreendentes números da violência doméstica que somente foram contabilizados com o advento da Lei Maria da Penha.

Apesar de todos esses ganhos – que não são poucos – o poder de sedução continua sendo o atributo mais valorizado pela mulher. Não é por outro motivo que, quando nasce uma menina, todos passam a torcer que seja bonita. Furam suas orelhas e colam laços de fita em sua cabeça. Ela cresce com o dever de agradar os prováveis candidatos a marido. Nessa luta desenfreada tudo vale. Que o digam as academias de ginástica, as clínicas estéticas e os cirurgiões plásticos.

O físico perfeito é o que corresponde a uma magreza absoluta, com excessos somente em lugares determinados, de modo a tornar as mulheres apetitosas. Daí as inúmeras analogias feitas com frutas: pera, melão, melancia. Uma verdadeira salada de fruta com a única finalidade de serem admiradas por sua performance.

Os programas que se intitulam de humor, sempre trazem mulheres lindas, seminuas, curvilíneas e alvo da cobiça de todos. Ou isso ou mulheres feias e gordas contra as quais todas as agressões são admitidas.

Mas talvez o mais paradoxal sejam os concursos de beleza, que exigem estrita obediência a medidas definidas como ideais. O padrão é tão uniforme que é até difícil distinguir as candidatas que têm a única preocupação de serem reconhecidas mais bela do que as demais.

A erotização feminina é cada vez mais precoce. Já existem concursos de miss para crianças e a moda agora é as meninas comemorarem o aniversário em salões de beleza, sendo as participantes brindadas com sofisticadas produções de penteado e maquiagem.

Ou seja, se de um lado as mulheres avançam na conquista da igualdade, por outo lado querem marcar a diferença por uma competição sem limites com a só finalidade de impressionar e seduzir. Uma verdadeira guerra sem qualquer preocupação em preservar a própria dignidade.

Mas, enquanto as mulheres buscarem conquistar os homens por sua beleza e sexualidade ainda serão suas escravas.

*Advogada

Grande Brasil: veredas

12 de janeiro de 2011

Rosiska Darcy de Oliveira*

“O que a vida quer da gente é coragem“. Guimarães Rosa, que sabia que viver é muito perigoso, escreveu que a vida aperta e afrouxa, esquenta e esfria. A presidenta do Brasil escolheu citar essa passagem como uma espécie de resumo da sua trajetória. Das mãos dos torturadores ao Palácio da Alvorada a presidenta sabe bem do que fala.

Que bálsamo encontrar Rosa em um discurso de posse! Ele veio no fim, depois da travessia do grande sertão que é o programa de governo, os conflitos não ditos e os enfáticos compromissos, confirmando o renome de competência técnica.

Pequenas frases terão passado despercebidas, relegadas à retórica impertinente. Não são. Pertencem a uma outra esfera, imaterial, metapolítica. São elas que me interessam aqui, essas veredas que indicam uma direção inesperada e que deram à fala da presidenta, em alguns momentos, um élan que provem menos das sugestões de uma boa assessoria do que de algum recôndito lugar, talvez da memória, onde foi buscar o que de fato lhe pertence.

“Mulher não é só coragem, é carinho também“. Coragem e carinho sustentando a fala de quem anuncia a intenção de honrar as mulheres. Boa notícia para a gente brasileira que já conheceu tanta covardia e maus tratos.

A dimensão do sonho no discurso da presidenta, conhecida por seu senso prático e resolutivo, tampouco é irrelevante. Sonhar uma democracia moderna, garantidas as liberdades políticas, de expressão e de imprensa, já seria auspicioso. Melhor se vivida na clave da cultura brasileira, a generosidade, a criatividade e a tolerância, apostando na ousadia e invenção, para além da “cautela racional”. A vida é sonho, disse o grande Calderón. Quem não é capaz de sonhar não merece o poder. Quem só é capaz disso, também não.

Reconhecer nos traços da identidade cultural brasileira instrumentos para a construção do futuro pode facilitar e muito sua tarefa. Porque não é só com o mensurável, com os números da economia – essenciais, é certo – que se constrói um país. Não se trata de ingenuidade, mas de considerar outras variáveis. Pertencimento e participação são a liga do bom governo.

Governar é muito perigoso. Governar não é coisa só para o governo. Foi bom ouvir que o destino do Brasil – o nosso, afinal – será o que fizermos todos e não apenas os funcionários de Brasília ou os crentes de um só partido.

O Brasil no mundo, se de fato se compromete com direitos humanos – “bandeira sagrada de todos os povos” – deixa para trás os tempos de afagos no companheiro Ahmadinejad. Se não espera pelos outros e se perde em picuinhas para dotar-se de uma política efetiva de preservação ambiental, mas o faz porque é compromisso universal, ganha liderança na mais aguda e significativa crise global. Valores, mais que realpolitik, podem ser bons conselheiros.

Dilma despertou esperanças. Esperança não é um sentimento passivo, é parte ativa da realidade que se quer construir, desse acervo imaterial que é tão decisivo na história das nações. Um discurso não faz milagres. As esperanças que despertou estavam latentes.

Fica a perplexidade: como cumprir essa coragem e exercer o carinho pelo povo com o ministério que escolheu ou que lhe impuseram goela abaixo? Entre a limpidez do discurso e a mediocridade da foto oficial, salpicada de carcomidos, cai-se no abismo da dúvida. Sua democracia moderna já vem com cheiro de mofo. ”Daí, de repente, quem mandava em mim já eram os meus avessos”.

A história é bem conhecida. A vitória tem o preço da composição partidária e a conta costuma ser salgada. Há quem veja nisto a fatalidade do jogo da política. Um outro olhar enxerga aí um beco sem saída em que a democracia é assaltada. Literalmente. Postos e nomeações são o butim. “A gente quer passar um rio a nado, e passa, mas vai dar na outra banda em um ponto mais embaixo, do que em primeiro se pensou. Viver nem não é muito perigoso?”

Para honrar sua palavra de mulher, Dilma vai ter que enfrentar este paradoxo da vitória que ameaça derrotá-la. Coragem não lhe falta. Tomara que não falte a inventividade que prometeu, aplicando-a para escapar desse impasse. “O mais importante e bonito do mundo é isso: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas, mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam”.

Desejo-lhe, neste início de mandato, que vá sempre mudando e não desafine. Que continue lendo e relendo o Grande Sertão e continue a falar em carinho porque ”qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura”. Que Rosa a acompanhe.

*Escritora – rosiska.darcy@uol.com.br

O patriarcado e as várias sentenças de morte

31 de agosto de 2010

Ana Veloso*

“Eu sofro por ser mulher.”
Sakineh Mohammadie Ashtiani

Enquanto o jornalismo sensacionalista mundial explora o caso da iraniana que poderá ser apedrejada até morrer, centenas de movimentos feministas e nações do mundo inteiro estão fazendo mobilizações e pressionando entidades internacionais de direitos humanos em protesto contra mais um ato de barbárie contra a condição feminina no planeta. Todavia, o governo do Irã assumiu uma tendência de cancelar a execução por apedrejamento, mas pretende manter a sentença de morte com o enforcamento da ré.

Sakineh Mohammadie Ashtiani, mãe de duas crianças, foi obrigada a confessar que cometeu adultério, pelas autoridades do país. O caso está sendo usado como um exemplo do cumprimento das leis locais e para que outras cidadãs permaneçam mantidas em silêncio e sob a tirania do Estado.

Resguardadas as especificidades de cada cultura, é possível perceber semelhanças quando o assunto é a institucionalização da dominação/opressão feminina ao redor do mundo. Um planeta onde a amputação do clitóris, em algumas regiões, faz parte de um ritual de passagem para milhares de mulheres mutiladas. Passagem para quê? Para uma vida sem prazer, sem amor, sem sentido?

Discordo da tese da derrocada do patriarcado. Minha posição poderá contrariar argumentos de pesquisadores/as que debatem o assunto com vigor e competência. Contudo, não consigo perceber mudanças substanciais e efetivas quando percebo que tal sistema devastador continua vitimizando as mulheres ao redor do globo. Observamos sua perpetuação quase silenciosa em nações do oriente e, no ocidente, de modo talvez mais escandaloso com a explicitação dos crimes praticados nas esferas privada e pública contra a população feminina.

Quando o patriarcado “apresenta suas armas”, o apedrejamento assume formas distintas em cada país. Em Nairobi, a organização “Médicos sem Fronteiras” denuncia, em relatório recente, a existência de uma “violência sexual endêmica”, onde mulheres e crianças (meninas e meninos) são violados/as todos os dias por homens conhecidos, em geral, familiares. No Brasil, a expressão do modelo, marcado pela divisão sexual das tarefas e no controle sobre os corpos e a sexualidade das mulheres, é impressionante. Basta notar os altos índices de violência e o tráfico de mulheres para fins de exploração sexual.

O Mapa da Violência/2010, feito com base no banco de dados do Sistema Único de Saúde (DataSUS), revela: entre 1997 e 2007, 41.532 mulheres morreram vítimas de homicídio, o que significa dez cidadãs assassinadas por dia. Aqui mesmo, no eudecido, noticiamos: cerca de 40% das vítimas de tráfico de pessoas em Portugal são brasileiras. Este é o resultado do Relatório Anual de 2009 do Observatório do Tráfico de Seres Humanos, órgão ligado ao Ministério da Administração Interna (Interior) português.
Os/as leitores/as podem até pensar que as situações aqui apresentadas não têm relação direta.

Todavia, estamos tratando do mesmo fenômeno secular, que se estabeleceu, no mundo inteiro e que é responsável pela perpetuação das relações desiguais entre os gêneros masculino e feminino. Apesar de todas as transformações que o movimento feminista impulsionou ao lutar pela autonomia e contra qualquer tipo de interdição à liberdade das mulheres, precisamos permanecer em estado de alerta, em vigília.

O patriarcado ainda dita o ritmo das relações de opressão/dominação a que muitas cidadãs estão assujeitadas. Estamos muito distantes da vivência integral da emancipação das mulheres em vários países. As desigualdades entre homens e mulheres no mundo do trabalho, a permanente exploração das empregadas domésticas negras, a lesbofobia, a mercantilização dos corpos e da sexualidade feminina e a exploração sexual para fins comerciais de mulheres e meninas são fenômenos do século XXI!

Em meio às contradições e disputas de projetos e modelos de sociabilidade na tessitura da teia de nossa “aldeia global”, debates acerca dos princípios teóricos e das práticas políticas feministas são urgentes para a reinvenção do mundo. Não poderemos ousar falar na existência de uma democracia plena enquanto a liberdade das mulheres estiver ameaçada por Estados omissos e/ou pela força alienadora de fações religiosas.

Também não devemos nos contentar e comemorar a edição políticas compensatórias por nações que privilegiam o mercado em detrimento dos direitos humanos. Não há placebo para atenuar a dor das mulheres apedrejadas diariamente por governos que obedecem aos ditames dos fundamentalismos, do patriarcado e do capital.

*Jornalista, doutoranda em Comunicação, empreendedora social da Ashoka, professora da UNICAP e colaboradora do Centro das Mulheres do Cabo

A honra das mulheres

3 de agosto de 2010

por Rosiska Darcy de Oliveira

Começou pouco depois que se conheceram. Um belo dia, sem que nem pra que, ele grunhiu: você não sabe o que diz. Ela tentou se defender, explicar mais uma vez seu argumento que não lhe parecia estúpido. Ele virou as costas e foi se servir de um uísque que não lhe ofereceu.Quer gelo, ela perguntou em voz baixa já procurando o baldinho e o pegador. O não foi seco. Assunto encerrado.

Tudo deveria ter se encerrado ali. Errou. Dois anos depois já morava com ele e, quando engravidou, admitiu que ele tinha um gênio difícil, que não queria esse filho e que, furioso, a maltratara quando recebeu a notícia. Como se nada tivesse a ver com isso, como se o Espírito Santo a tivesse visitado à revelia dele.

As brutalidades cotidianas vai engolindo. Quer salvar a relação, é o pai do seu filho. E vai enveredando pelo caminho do calvário, bem conhecido das mulheres que hipotecaram suas vidas a homens violentos. São elas que viram estatística.

A violência nem sempre é um gesto físico, como uma bofetada. Começa antes, é feita não só de atos mas de sua ausência, de desacatos, um decreto de inexistência que anula sua vida, um olhar que lhe atravessa como se você não estivesse ali. É a presença incontornável de um poder inconteste que, mesmo sem origem ou justificativa, se exprime nos menores gestos. Espécie de direito divino ao que há de melhor em casa, a melhor cadeira, o controle da TV, o espaço na cama, apagar ou acender a luz, o direito de falar e ser ouvido, ao silencio quando trabalha, ao barulho quando recebe os amigos. Direito de ser respeitado em seus desejos. Tudo que a ela é negado.

Quando a violência sanguinária contra as mulheres explode como agora, freqüente e macabra, abalando todo o país, essa pergunta volta, insistente. Em que momento começaram os gestos que a anunciavam? Quando acende o sinal de alerta que pressagia o perigo? Cada mulher deveria rever em sua vida as grosserias que deixou passar. Porque aceitou que fosse assim.

Quem tem filhas lembre-se de preveni-las de que ainda vivemos em um mundo que tudo perdoa aos homens e muito pouco às mulheres, o que é descrito como a ordem natural das coisas. Ordem inóspita para nós e por demais confortável para eles. Cuidado com o senso comum, o que parece óbvio, o”sempre foi assim”, o “é da natureza deles”, que disfarça uma ideologia que nos é tão desfavorável.

Cuidado, portanto, para não endossar pela omissão, submissão ou vício de sedução, uma ordem que não só não é natural mas é injusta. Que, em casos extremos, evolui para se tornar criminosa. E que precisa acabar.

Um bom exemplo é o conceito de honra. No século passado quem, solteira deixava de ser virgem, tinha sido desonrada. Era uma perdida. Perdida ou desonrada era a mesma coisa. Um século mais tarde ainda há quem fale em piranha referindo-se a quem faz o que quer do seu corpo. Não há, na gíria, um equivalente masculino.

Homens não perdem a honra, o que quer que façam com seus corpos. Não é neles que ela reside. Só sentem a honra atacada quando perdem a mulher para outro homem e por isso já houve quem defendesse o assassino de uma mulher em nome da legítima defesa da honra. O corpo das mulheres vira, assim, uma espécie de coisa sem alma mas com dono.

Os números assustadores de casos de violência contra as mulheres sugere que é urgente que elas defendam a sua honra que não reside em uma suposta pureza mas no seu estatuto de ser humano, livre e respeitado como todos devem ser.

É o princípio de honra feminina que é preciso incutir na nossa cultura e no nosso cotidiano. Que elas não precisam de protetor ou provedor. Ambos cobram e o custo pode ser alto. Que não devem levar desaforo para casa e, sobretudo, ouvi-los dentro de casa. Nem confundir o carinho, traço atávico da cultura feminina, e o instinto protetor que exercitam na maternidade, com a anulação de si que tudo perdoa. O tapinha dói e é véspera da chacina.

Que se envergonhe quem achou graça quando um goleiro boçal perguntou quem nunca saiu na mão com uma mulher. Deu no que deu.

Feminicídio: do privado ao público; do ‘passional’ à associação criminosa

2 de agosto de 2010

Maria Dolores de Brito Mota *

O assassinato de mulheres por questões de gênero, o feminicídio, é um crime cada vez mais reconhecido e há muito denunciado. Mas, a sua reprodução histórica apresenta mudanças que não podemos deixar despercebida. Essas mudanças indicam mecanismos de atualização cotidiana da violência praticada contra as mulheres no contexto de relações desiguais de gênero que persistem, ainda que já exista uma consciência mundial e nacional contrária a tal desigualdade. No Brasil, apesar da Lei Maria da Penha, instrumento de criminalização dessa violência contra a mulher os crimes contra mulheres se sucedem de forma mais evidente.

Temos assistido nos últimos anos a mídia nacional, particularmente a mídia televisiva, apresentar casos de assassinatos de mulheres por seus ex-companheiros ou companheiros de relacionamento amoroso, que chamam a atenção por sua visibilidade, brutalidade e, em certo sentido, por uma inevitabilidade. Assim o foram os fatos que circunstanciaram as mortes de Maria Islaine de Morais, 31 anos (20/01/2010); Eloá Cristina Pimentel, 15 anos (16/10/2008), Mercia Nakashima, 28 anos (23/05/2010) e Elisa Samudio, 25 anos (desaparecida desde 4/06/2010): todos contendo elementos que indicam a emergência de novos procedimentos no processo do feminicídio do qual foram vítimas.

Identifico como novos procedimentos que indicam mudanças nas circunstâncias dos feminicídios: 1) a realização desses crimes em lugares públicos, sob as vistas de testemunhas, bem como, 2) a formação de associações criminosas para a sua efetivação.

Do privado ao público – a espetacularização do ódio ao feminino.

Em se tratando de assassinato de mulher por seus parceiros ou ex-parceiros afetivos e sexuais, o mais comum, tradicional, é aparecer o cadáver da mulher e depois a investigação identificar o feminicida. Eliane de Gramont, assassinada em 30 de março de 1981, aos 26 anos, enquanto cantava no Café Belle Époque, em São Paulo, por seu ex-marido, o também cantor Lindomar Castilho que desferiu cinco tiros em suas costas, deve ter sido o primeiro feminicídio famoso cometido publicamente.

Em Fortaleza, no dia 4 de julho de 2006, o ex-marido de Célia Marilac de Oliveira, 46 anos, assassinaria a ex-mulher à facada na fila de banco de um Shopping Center do Centro da cidade. Mais recentemente, em 2008, assistimos por 59 horas através das redes nacionais de televisão o drama de Eloá, do inicio do sequestro até a sua morte por seu ex-namorado. E as câmeras de um circuito interno de um salão de beleza gravaram a cena do feminicídio de sua funcionária, Maria Islaine (que estava sob medidas protetivas da Lei Maria da Penha), por seu ex-marido que lhe desferiu nove tiros.

Podemos nos perguntar: “O que significa a procura de exposição ao público destes crimes por parte do assassino?”. O fato do feminicida não se preocupar em ocultar e, mais ainda, seu querer dar publicidade à sua ação criminosa, revela a vontade de afirmação pública da força e domínio do macho em ‘retomar’ um espaço de poder que ele tradicionalmente demarcava como próprio e que as atitudes de ‘sua’ mulher estão ameaçando. É como se, em sua pretensa hegemonia nas relações de gênero, ele dissesse, em voz bem alta: “Aqui quem manda sou eu”.

Uma segunda consideração nos sugere que a procura da telinha da TV para fazer conhecer suas ações criminosas contra a mulher, se torna para o macho uma forma de angariar consensos dos demais machos do seu bando. Mas os novos palanques dos crimes de gênero só fazem ligar os holofotes sobre a crise da hegemonia de uma categoria social em sua guerra contra a afirmação humanizante do feminino nas relações de gênero e na sociedade.

Da reação individual à associação criminosa

Os casos mais recentes de feminicídio que ainda estão na mídia, também chamam a atenção pelo fato de envolverem uma associação criminosa para matar as mulheres. Misael Bispo, que contratou um amigo, vigilante, para ajudá-lo a matar Mércia Nakashima. E Bruno, que mobilizou aproximadamente 10 pessoas no assassinato de Elisa Samudio. Um problema que normalmente é vivido individualmente pelo homem, torna-se uma questão para um crime coletivo, por formação de quadrilha. Em um caso, no de Mércia, embora haja indícios de um contrato financeiro, evidencia-se a relação de amizade e lealdade do ajudante com o feminicida; fato que no caso de Bruno essa relação entre todos os participantes é indubitável, envolvendo não somente amigos homens, mas também mulheres, namoradas atuais e ex.

O feminicídio vai ganhando a característica de “pistolagem”, de encomenda, no qual técnicas profissionais de matar e esconder (desintegrar) o corpo torna-se ingredientes de práticas de matar mulheres, intensificando a crueldade e o ódio na busca de destruição do feminino e de seus significados. A punição pela não sujeição dessas duas mulheres aos seus parceiros foi brutal: uma por não querê-lo e a outra por confrontá-lo e expô-lo publicamente. A arrogância dos seus feminicidas transparece até na atitude de confrontarem o país negando o que está evidente, mas que ainda necessita de fundamento técnico e jurídico para a imputação de culpa e punição.

A espetacularização e a associação criminosa para a efetuação de feminicídios parecem expressar novas formas de sujeição e de violência contra as mulheres, desenvolvidas como reação patriarcal aos avanços na conquista de direitos humanos e da emancipação das mulheres pelas lutas feministas.

* Socióloga, Profª da UFC, Coordenadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Gênero, Idade e Família, NEGIF

TSE divulga perfil do eleitorado brasileiro

2 de agosto de 2010

Eleitorado feminino chega a 51,73% do total

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) divulgou, recentemente, perfil do eleitorado brasileiro. Há mais de 130 milhões de eleitores e eleitoras aptos a votar nas eleições de 2010.

Na maioria das Unidades da Federação, o número de eleitoras supera o de eleitores. O cenário é diferente em apenas quatro estados: Mato Grosso, Pará, Roraima e Rondônia.

Em 2010, as mulheres entre 25 e 34 anos representam a maioria do eleitorado brasileiro.

O quadro abaixo apresenta um comparativo de gênero do eleitorado brasileiro.

Fonte TSE.

A lei não escrita

25 de julho de 2010

por Rosiska Darcy de Oliveira

É possível que, nas sombras, uma mulher tenha sido estrangulada e jogada aos cães. Outra, à luz do dia, seria morta a pedradas não a tivesse salvo, in extremis, uma corrente global de defesa de direitos humanos. Por enquanto…

“Uma ‘piranha’ querendo extorquir o goleiro do Flamengo”, me explicou um chofer de táxi, indignado com a injustiça contra o acusado. A outra, adúltera, palavra maldita na boca de aiatolás escandalizados, no Irã do companheiro Ahmadinejad.

Fogo, pedras, bala nas costas ou rotweillers, aqui ou lá, são fins previsíveis das mulheres atiradas na vala das indecentes. No Irã, apoiada na religião e na tradição, a execução é legal. No Brasil, é clandestina e selvagem, apoiada na inoperância do Estado e na apatia da sociedade.

As delegacias de atendimento a mulher foram necessárias. Quem recorria a uma delegacia comum esbarrava no preconceito da própria polícia. Mereceu a surra que levou? Provocou com pérfida sedução o estupro que sofreu? Houve quem risse, cúmplice,quando o goleiro Bruno perguntou qual o homem que, na vida, nunca saiu na mão com uma mulher. Quem se associaria hoje, mesmo em um sorriso, a tão ilustre pensador?

A lei Maria da Penha exprime o repúdio de mulheres de todas as classes à barbárie de um mundo anômico e sombrio. Exigiram proteção do Estado e punição para agressores e assassinos, fossem eles maridos, amantes ou namorados eventuais. Supunha-se que a lei teria efeito punitivo e também dissuasório. Anos depois, o país registra a cifra estarrecedora de uma mulher assassinada a cada duas horas. Que sociedade de orangotangos é essa? Que democracia inconclusa é essa?

Paradoxo inexplicável, um país que se apresenta ao mundo como potência emergente, alardeando modernidade, com duas candidatas à presidência da república, é o mesmo que convive com o massacre das mulheres, nos aproximando do que há de mais anacrônico no mundo contemporâneo.

Eliza Samudio procurou uma delegacia, invocou uma lei e foi enviada a um juizado que, todos, existiam para protegê-la. Deixada ao desabrigo, foi morta. O sistema judiciário falhou tragicamente. A responsabilidade cabe a ele mesmo apurar e punir. Não é a primeira vez que falha. O jornalista Pimenta Neves, assassino confesso que, pelas costas, executou a amante, condenado a dezenove anos de cadeia, está em liberdade, blindado por artimanhas jurídicas.

O cidadão Joseph K, no livro O Processo de Franz Kafka, é encarcerado por um crime cuja acusação não conhece. Pimenta, personagem kafkiano pelo avesso, foi libertado malgrado um crime que confessou.

Tão perigosa quanto à violência explícita do crime ou a inoperância da justiça é a violência surda dos olhares enviesados, dos “mas” ou “talvez” que desculpam a brutalidade, argumentando que a moça não era nenhuma santa. Crimes bárbaros encontram atenuante nos “pecados” sexuais atribuídos às mulheres. Só elas são ‘vagabundas’, resguardado aos homens o direito a fazer em matéria de sexo o que bem quiserem sem que isso interfira em outros aspectos de suas vidas ou reputação.

Don Juan e Casanova são os modelos mais acabados da virilidade bem sucedida. A literatura está cheia de exemplos de rapazes pobres que “sobem na vida”, casando-se com herdeiras e tudo se passa em um clima de esperteza consentida e incentivada. Não há masculino para piranha.

Políticos fazem orgias, jogadores de futebol também, condenadas são as mulheres que delas participam. Eles não, apenas exercem um direito ancestral – são folguedos, farras – onde usam seres humanos como coisas que desprezam. Não nos iludamos, a chamada mulher honesta também apanha se contraria um violento. O sentimento de poder não aceita desobediência.

A falha não está somente na justiça. A lei, por melhor que seja, não arranca as raízes de uma cultura perversa. Quem muda a cultura são os homens e mulheres que decidem recusar em suas vidas as relações de poder que deságuam nessa aberração. A sociedade não é uma abstração, é o dia a dia das pessoas, nos gestos de amor ou de ódio, no sexo que reconhece – ou não – qualquer mulher como um ser humano.

Assassinos de mulheres não são necessariamente psicopatas. São criminosos que acreditam no seu bom direito de matar e por isso não se arrependem. Mortas, suas vitimas continuam a ser culpadas.

Há países islâmicos em que as impuras são jogadas em um buraco e apedrejadas. Não seria essa a encenação perfeita, a atualidade e materialização de uma lei que, não escrita, ainda vigora, também entre nós, inconsciente ou inconfessa?