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Significação mítica da telenovela

30 de maio de 2010

por Eloá Muniz

A condição que a televisão tem de comunicar-se pela imagem e de conviver com as pessoas na intimidade de suas casas torna-a um veículo com força de comunicação muito mais através do emocional e do afetivo do que pelo racional. Esta característica facilita o desencadeamento dos processos psicológicos da projeção e da identificação.

O ato de ver televisão é um ritual já tão assimilado culturalmente pela família brasileira, que um novo padrão de comportamento foi criado e desenvolvido a partir do hábito cotidiano de reunirem-se para assistir televisão. Este comportamento da família que se emociona diante da telinha, abrange todas as classes sociais, é um fenômeno que atinge pela emoção, pela vivência dos dramas, mobilizando os membros da família pela identificação da realidade que cada um deles tem escondida intimamente com a realidade mostrada na televisão.

A telenovela herdou um procedimento característico do melodrama que é a cumplicidade, onde o suspense era criado a partir das informações que o espectador tinha da trama da história e que os personagens envolvidos na situação não conheciam. Assim, os segredos das personagens exerciam sob o espectador um forte fascínio. Da mesma forma o telespectador de novelas detém informações e interage com um mundo de fantasias e de poderes fictícios.

A televisão trabalha com dois sistemas básicos de comunicação que passam para sua linguagem os fatos da realidade que pretende transmitir. São os signos e os clichês.

O signo atua em dois lados: na cabeça do telespectador e no produto de comunicação que o telespectador vê, pois o produto é realizado por pessoas que também elaboram os pensamentos como signos. A produção sígnica só tem efeito se realiza essa dualidade de forma plena.

O Clichê é o segundo mecanismo básico da linguagem da televisão. Contrariamente ao signo, em que o telespectador não sente violência das mensagens televisivas porque mantém um escudo contra elas, aqui, ele se entrega à estória, sente emoção, se entristece, chora, sente saudade, vive com a personagem. Ou seja, se na linguagem dos signos ele se separa da emoção, na linguagem dos clichês ele se funde com ela, se entrega a ela. O que distingue essa fusão dos sentimentos reais, das emoções verdadeiras, é seu caráter de clichês, que significa que as tristezas, as dores, as lágrimas relembram inconscientemente ao telespectador momentos emocionalmente fortes de sua vida.

A televisão é ligada sempre a mesma hora, para se assistir aos mesmos gêneros de programas. Ela coloca ordem na vida das pessoas. Uma ordem verticalizada que passa a sincronizar o tempo do telespectador e sua vida passa a ser ordenada simbolicamente pelo veículo. A novela faz parte deste processo de ordenação, quando se apresenta ao público de forma seriada criando um espetáculo polissêmico a cada dia e a cada capítulo. Neste sentido o processo ritual é o encadeamento de discursos e gestos facilmente reconhecidos pelo público que desenrolam num espaço e numa temporalidade próprios distintos, portanto, dos espaços e dos momentos da vida quotidiana.

Mostram o digno e o indigno de imitação, tudo mesclado, de forma esboçada e ambígua, porém sinalizando sempre a significação. A significação do símbolo é o significado. Não dizem o que devem ou não fazer, porém reproduzem o que é feito e pensado, e só a repetição sugere que poderia tratar-se de algo que é correto fazer. A vinculação do orgânico e a ordem sócio-moral se realizam também aqui mediante a ritualização.

Neste aspecto, há que entender como equivalentes à simultaneidade de informações sensacionalistas e a transformação do passado na televisão. A insegurança que resulta de exposição acumulada de delitos através da mídia, desde jornal até o filme policial televisivo, e cuja finalidade é assegurar ao cidadão seus contornos, induz que ele busque segurança em seu passado mítico. O mito, para explicar o presente partindo de um passado, tem acontecido sempre e em todas as épocas, conecta com as experiências primárias sobre o acima e abaixo, dentro e fora, claro e escuro, e opera com ele, como algo viável e estabilizado.

A telenovela, tal como o melodrama, funciona como uma catarse social que substitui a contestação e a reflexão pela anestesia e fascínio que a televisão provoca através da sedução pela imagem esteticamente composta e ritualizada. Assim, a novela elabora uma nova ordem simbólica e apropria-se do tempo e do espaço do telespectador, criando em sua vida quotidiana um vínculo e uma relação comunicacional com o veículo televisão.

O prazer de ser o outro e por alguns momentos ter a ilusão do poder. A novela cria a ilusão e possibilita ao telespectador fundir-se com o personagem e experimentar outra identidade. Tal como os jogos de mimicry, a novela não tem compromisso com a verdade, mas com a verossimilhança, o fingir perfeito. O espelho da realidade, a história contada através dos personagens filtrados pela imagem icônica.

A ritualização, a ordem simbólica estabelecida e a rede fascinam cada vez mais a pessoa e a tornam sempre mais solitária, pois ela deixou de preocupar-se com seus vizinhos e seus amigos, para preocupar-se com os problemas das personagens da televisão. A relação com a televisão é mais fácil, pois ela possui o controle da ação, se estiver incomodando é só desligar. Com a relação humana é diferente, ela é real. A pessoa no mundo moderno vive uma solidão distinta – é uma solidão existencial.

Poemas de Humanidade

30 de maio de 2010

Por Luiz Antonio de Assis Brasil

Pontes de Miranda é um nome mítico nas letras jurídicas, uma geração inteira aprendeu a admirá-lo, e seu imenso Tratado de Direito Privado permanece um marco da doutrina internacional. Só os mais familiarizados com sua obra sabem que foi, também, um filósofo, um humanista, um matemático, e agora, pelas mãos da Betty Yelda Brognoli Borges Fortes, tradutora e estudiosa, sabemos tidos que foi um poeta, e um poeta superior, com exata noção da força da palavra.

Este livro Poemas e Canções (Poèmes et Chansons) publicado originalmente na língua francesa, é dividido em cinco partes, nominados sucessivamente como inscrição da coluna interior, Penetração, Suíte dos músicos, Sinfonia Humana e Cantos e Poemas. Muito embora imaginemos que o poeta desejasse ser entendido como alguém que, à semelhança de Fernando Pessoa, contivesse dentro de si várias modulações estéticas e de conteúdo, podemos intentar uma análise compreensiva de Poemas e Canções, ainda que superficial perante a grandeza da obra. Isso será feito na identificação de algumas vertentes temáticas dominantes; outras haverá, por certo, mas que, dada a natureza introdutória deste escrito, terão de ficar para outros hermeneutas, quiçá mais competentes.

O sentido da musicalidade – Eis algo visível (audível?) em Poemas e canções. A escolha do poema de Victor Hugo não foi aleatória, ou mera garridice para impressionar seus contemporâneos; foi uma decisão em que deve ter pesado muito a harmonia, reconhecida como uma bela qualidade do Francês. A medida em que lemos o original e, a seguir, a bela tradução de Betty Borges Fortes, que manteve a sonoridade da obra, percebemos o quanto seu autor dava tento à escansão do verso, ainda que livre. Bem sabia que, mesmo lido, o poema obriga-nos a uma respiração, vestígio, ainda, do tempo em que todo o texto era recitado.

Este livro é uma bela surpresa para todos, e todos somos devedores da tradutora Betty Borges Fortes que, com seu talento, sua audácia intelectual, seu denodo e, sobretudo, sua persistência, soube transpor para o Português um livro de que estávamos à espera – mesmo sem o saber.
Boa leitura.

Para adquirir a obra contate www.fnac.com.br no Barra Shopping Porto Alegre.

A estação das flores em cada um de nós

30 de maio de 2010

por Luiz Machado, Ph.D*

Natureza se renova a cada primavera: o desabrochar das flores indica a abertura para nova fase na vida: flor, semente, fruto. Também em nossa vida pode haver renovação. No outono, as folhas caem. Na estação seguinte, primavera, surgem as flores.

Será que não podemos seguir o exemplo da Natureza e criarmos um outono mental em que exerçamos a expiação para fazer uma limpeza em nossa mente: dos medos, da ansiedade, das culpas, dos ódios, da raiva, dos rancores, da inveja e de todos os sentimentos ruins que atravancam nossa mente não deixando espaço para os sonhos que se transformam em objetivos e, por fim, em resultados.

As religiões, desde as mais primitivas, pregam a limpeza da mente para colocar nela os quadros mentais emotizados do que se pretende conseguir.

Em emotologia, nós mostramos que, se a mente estiver entulhada com sentimentos que consomem energia, onde haverá espaço e energia para conseguirmos o que queremos? E mais, nós mostramos que tudo o que a Emotologia preconiza deve ser uma prática diária e, pelo menos, uma vez por ano como, por exemplo, na primavera, fazer uma limpeza profunda em nossa mente para que a emotização produza seus resultados. Evidentemente, há várias técnicas não só para a limpeza da mente como para enchê-la com os quadros mentais emotizados do que queremos conseguir. Sabemos que não é fácil, por isso mesmo precisa ser uma prática diária.

Uma vez me ocorreu de fazer um levantamento de como eu estava gastando minhas energias e fiquei muito assustado, o que me conduziu a um processo de mudança interior. Então, eu convido você a verificar quanta energia você está gastando com sentimentos ruins e quanto está empregando naquilo que deseja conseguir. É possível que esteja desperdiçando 80% e empregando apenas de 10% a 20% para conseguir os resultados pretendidos, na vida, na profissão, na situação financeira etc. A primavera é uma boa época para fazer esse exame de consciência.

*Cientista Fundador da Cidade do Cérebro – Mentor da Emotologia
Fonte: www.cidadedocerebro.com.br

Emotologia: a ciência do ser humano

30 de maio de 2010

Prof. Luiz Machado

Inicialmente, façamos algumas considerações sobre ciência. A palavra vem do particípio presente latino sciens, do verbo scire, “saber”. Quando queremos ir na essência do conhecimento é sempre aconselhado recorremos à etimologia para aumentar nossa percepção; assim, no caso de ciência, a idéia é mais voltada para o que se sabe e como se sabe que o objeto de estudo.

Na verdade, ninguém sabe realmente o que é ciência, assim como também não se define o que é arte. Mas sabemos que a ciência está mais voltada para a maneira como encaramos o conhecimento, sem distorções, sem quaisquer visões que tentem modificar a análise dos fatos, procedendo com total isenção, e não o tipo de conhecimento em si. A idéia errônea de que ciência é tudo aquilo que dá estouro no laboratório vem do tempo dos alquimistas e é totalmente ultrapassada.

A ciência procura desvendar o oculto por meio da atitude do pesquisador, por procedimentos guiados pelo espírito científico, isto é, com rigor, objetividade, sem preconceitos, sem tendenciosidade, com fundamentos metodológicos precisos.

Em relação à emotologia, comecemos pela origem da palavra: do latim e (x), “fora”, “para fora”, motio, “ação de mover” e o pospositivo grego –logia, de lógos, “tratado”, “estudo de”, mais o sufixo –ia, que forma nomes de ciências.

A palavra emotologia é um hibridismo, formada de elementos latinos e (x), motio e outro grego lógos, da mesma forma que a palavra sociologia, do latim socius, “companheiro” e lógos, criada por Auguste Comte para indicar o estudo científico da organização e do funcionamento das sociedades humanas e das leis fundamentais que regem as relações sociais, as instituições etc.

A emotologia é um corpo de conhecimentos sistematizados com base em elementos das neurociências e da física quântica, que, adquiridos via observação direta, identificação, descrição, investigação experimental, pesquisa e explicação teórica de determinadas categorias de fenômenos e fatos, são metódica e racionalmente formulados para promover o desenvolvimento das potencialidades humanas como elemento de autopreservação.

Esse é o conceito de emotologia. Conceito é uma síntese de uma noção a que se chegou pelo estudo, pela reflexão, pela experiência. Prefere-se conceito à definição, pois esta última palavra implica contornos bem delineados, com limites bem definidos daquilo que se quer explicar, o que não se consegue com o rigor exigido no campo das ciências.

Vamos analisar o conceito: um corpo de conhecimentos sistematizados. Muitos dos conhecimentos abrangidos pela emotologia encontravam-se esparsamente distribuídos em outros campos do saber humano e aqui nós os reunimos para dar-lhes consistência e destaque tal a sua relevância para as pessoas; com base em elementos das neurociências e da física quântica. A neurociência (esta palavra também é usada no plural: neurociências) indica qualquer ciência que se refere ao sistema nervoso; física quântica, ciência que investiga as leis do universo no que se refere às partículas extremamente pequenas ou no que diz respeito à energia; adquiridos via observação direta.

A observação direta é um método científico. O que faz um conhecimento ser científico não é a sua natureza e, sim, a maneira como é estudado e apresentado. A identificação é o ato ou efeito de conhecer, de reconhecer, de distinguir os traços característicos de alguma coisa, no caso, para poder estudá-los com rigor; descrição: depois de observados fenômenos e fatos vem a descrição, que consiste numa representação do que foi verificado; investigação experimental que consiste no fato de as mesmas causas produzirem os mesmos tipos de efeitos, podendo o ato ser repetido.

A emotologia tem leis e efeitos; pesquisa é um conjunto de atividades que têm por finalidade a descoberta de novos conhecimentos no domínio científico, literário, artístico etc.; explicação de determinadas categorias de fenômenos e fatos indica o ato de tornar claro aos outros o resultado da observação, identificação e conclusões destacando as características comuns para melhor compreendê-los; são metódica e racionalmente formulados indica que o método científico, com racionalidade, isto é, comparados os dados e informações, deduziram-se conseqüências e foram enunciados de forma precisa conforme os estudos; para promover o desenvolvimento das potencialidades humanas como elemento de auto-realização – aqui está a grande razão de ser da emotologia pois a auto-realização é o maior fator de motivação para que o ser humano cumpra sua destinação biológica e a Natureza persiga sua maior finalidade: a preservação da espécie. Esse é o objeto da Emotologia.

Fonte: www.cidadedocerebro.com.br

Casamento e divórcio, imposição de afeto

4 de maio de 2010

por Maria Berenice Dias*

Todas as pessoas querem acreditar que o amor é para sempre. Todavia, ele é infinito enquanto dura. Quando acaba só tem um jeito. Terminar um casamento implica definir direitos e deveres com relação aos filhos e partilhar bens. Esta é a única maneira de preservar o direito à felicidade.

Mesmo assim, injustificavelmente, o estado resiste em permitir que as pessoas acabem com as relações de casamento. Houve um tempo que o matrimônio era indissolúvel: até que a morte os separe! Mesmo com a Lei do Divórcio, a imposição de prazos, a identificação de culpados e a necessidade de um duplo procedimento persistem. Embora haja, é preciso primeiro separar para depois converter a separação em divórcio, e isso em conseqüência do decurso de um ano. Existe, no entanto, a possibilidade de obter o divórcio direto depois de dois anos da separação de fato. Dessa maneira, ninguém consegue casar outra vez antes de tais prazos. Poderá sim viver em união estável, mas não poderá convertê-la em casamento.

As pessoas são livres para casar, mas não para por fim ao casamento ou casar novamente. Estas verdadeiras cláusulas de barreira são impostas sem sequer questionar a existência de filhos ou interesses de ordem patrimonial.

Quando este nem é o desejo dos cônjuges, a quem interessa a mantença dessa união? Será que ainda se acredita que, como a família é a base da sociedade, ela se desfaz; renasce com outro formato; reconfigura-se com novos partícipes?

O Instituto Brasileiro de Direito de Família – IBDFAM, para acabar com este verdadeiro calvário, apresentou o projeto que se transformou na Proposta de Emenda Constitucional nº 413-C, a chamada PEC do Divórcio. Ela acaba com a separação, permanecendo o divórcio como a única forma de dissolver a sociedade conjugal, sem identificação de culpados e a necessidade de adimplemento de prazos.

Esta é, com certeza, a única forma de assegurar o respeito a um punhado de princípios constitucionais. Obrigar alguém a permanecer casado afronta o respeito à dignidade humana, o direito à liberdade, à convivência familiar e – às claras – o direito fundamental à afetividade.

Atentar a um fato, no entanto, é imperioso. Prejudica especialmente a mulher e os filhos a necessidade de esperar que flua um lapso temporal desde o fim da vida em comum até a chancela estatal do término da união. Quando da separação é a mulher que permanece com a guarda dos filhos e geralmente o homem fica na administração do patrimônio. São garantidos direitos e identificadas responsabilidade de ordem pessoal e patrimonial, quase sempre, por ocasião do divórcio que ocorre a imposição de deveres.

Até serem fixados alimentos e partilhados os bens, portanto, o marido é beneficiado com a perenização do estado de indefinição. Ele pode, enquanto isso, dispor livremente do patrimônio comum. Quando finalmente o divórcio se torna possível, muitas vezes não há mais vestígios dos bens e nem o encargo alimentar atende ao critério da proporcionalidade. Tudo foi consumido, vendido ou desviado. Ou seja, a mulher fica com os ônus e o homem com os bônus.

Atentando a esta realidade talvez seja possível identificar a quem interessa as coisas ficarem como estão. É possível serem estes os motivos que estejam a impedir a imediata aprovação da PEC do divórcio, que, ao contrário, deveria ser chamada de PEC do casamento. Afinal, só depois do divórcio é que as pessoas podem casar de novo.

É necessário, mais uma vez, que as mulheres se mobilizem para evitar que se perpetuem os enormes prejuízos decorrentes da indefinição patrimonial gerada pela injustificável resistência em chancelar o fim do vínculo afetivo.

A dignidade feminina acaba sendo afrontada com a tentativa de manutenção do casamento.

* Advogada e Vice-Presidente Nacional do IBDFAM – www.mariaberenice.com.br

As mulheres não podem prescindir da ação política

29 de abril de 2010

por Maria João Silveirinha (Investigadora e professora universitária, na Universidade de Coimbra)

O feminismo em Portugal, como movimento político, foi durante muitos anos quase inexistentes por comparação à maioria dos países europeus. Estruturalmente não era possível fazer exigências de igualdade política e, portanto, a militância feminista era muito difícil. Será bom recordar que em 1936 a Constituição do Estado Novo estabelecia a igualdade de direitos perante a lei, “salvas, quanto à mulher, as diferenças resultantes da sua natureza e do bem da família” e que no Código Civil de 1967 a família ainda era chefiada pelo marido.

Nestas condições, acrescidas de uma fortíssima debilidade real em termos educacionais, econômicos, sociais, dificilmente o feminismo se poderia afirmar entre nós. Com efeito, para além dos controles formais, toda uma forte estrutura de dominação informal ligada aos papéis sociais e à extrema hierarquização social e econômica dificultava qualquer ressonância social do feminismo como expressão das lutas femininas. Pelo contrário, ganhava uma estranha expressão em organizações governamentais e estatais de mulheres e juventude, de que são exemplos a Obra das Mães pela Educação Nacional e a Mocidade Portuguesa.

Por todas estas razões, e não significando isto que não tenham existido momentos (mais que movimentos) feministas, talvez em termos formais, só o movimento para a Libertação das Mulheres possa ser considerado um movimento feminista.

Hoje o feminismo em Portugal partilha – ainda que aparentemente só do ponto de vista teórico – dos dilemas que se colocam às feministas de todo o mundo, incluindo a sua dilaceração por expressões identitárias de cor, de classe, de preferência sexual, etc.

Poderemos dizer que o que dá forma às diversas formulações da teoria feminista é a determinação de eliminar a subordinação das mulheres. Mas no momento em que se tenta aprofundar este acordo, logo surgem os travões ao mesmo, expressos nas muito diferentes explicações dos seus elementos: Que subordinação? Que igualdade? O que é uma mulher (e um homem)? Como se consegue essa igualdade?

Só muito recentemente foi abandonando o pressuposto da inferioridade natural das mulheres, aceitando que as mulheres, tanto como os homens, deveriam considerar-se “seres livres e iguais”, capazes de se auto-determinar. Neste início de século pode dizer-se que quase todas as democracias adotaram leis anti-discriminatórias que procuram assegurar um igual acesso das mulheres ao emprego, à educação, aos cargos políticos, etc..

Mas também neste início de século é bem visível como estas mesmas leis não trouxeram a igualdade sexual. Não mudaram as mentalidades, dir-se-á. E muitas, efetivamente, não mudaram. Mas talvez o problema seja também de outra ordem mais complexa. Numa sociedade em que, num quadro legal de competência neutras em matéria de sexo, se premiam crescentemente “estruturas de mérito”, o problema reside no fato de essas mesmas “estruturas de mérito” estarem normalmente definidas de uma tal forma que os homens são frequentemente mais aptos para elas. Tal legitima num movimento circular, uma sociedade que, mesmo reconhecendo formalmente o princípio da igualdade, continua fundada no androcentrismo e na autoridade masculina.

Encurraladas em estruturas onde verdadeiramente não podem (e também frequentemente não querem) concorrer, o problema da desigualdade transforma-se num problema de dominação, para o qual a solução não só é a ausência de discriminação formal, mas a substantiva distribuição do poder.

O feminismo deu frutos concretos em alguns dos seus objetivos e, sobretudo, conscientizou as mulheres. Mas ainda são muitos os lugares concretos e simbólicos que não permitem à agenda feminina esgotar-se. As armas da dominação são hoje mais subtis (ainda que se mantenham também muitas das de sempre) – a tecnologia, as novas tecnologias reprodutivas, a exploração da intimidade, o avanço do neoliberalismo, o fundamentalismo – e isso gera também uma maior diversidade da experiência e, portanto do pensamento feminista.

O feminismo não é, como por vezes se pretende, um movimento de emancipação à medida da mulher branca heterossexual de classe média. Tão-pouco é defensável que o feminismo já não é necessário porque as mulheres resolveram os seus problemas.

A expressão da dominação é necessariamente diferente em cada período histórico e as mulheres encontraram discriminações de diferentes tipos em diferentes momentos, pedindo reivindicações específicas. Mas, de formas diferenciadas, as mulheres não poderão prescindir da ação política (mesmo que a partir da sua experiência pessoal e localizada) como antídoto do cansaço.

Porto Alegre integra a coordenação do Fórum Nacional de Gestoras Municipais de Políticas para as Mulheres

29 de abril de 2010

Aconteceu na segunda-feira, dia 26 de abril, a 57ª Reunião Geral da FNP – Frente Nacional de Prefeitos, na cidade de Florianópolis, em Santa Catarina, com a pauta principal de proposição da criação do Fórum Nacional das Gestoras Municipais de Políticas para as Mulheres.

Cerca de 50 gestoras municipais de políticas para mulheres de todo o país se reuniram com intenção de criar um espaço de auto-organização entre as gestoras.

A reunião contou com a presença da Ministra Nilcéa Freire, segundo ela a “formação do Fórum é crucial para o desenvolvimento das políticas públicas para mulheres. É neste espaço que sempre quisemos estar. Foi preciso uma mulher assumir a coordenação do Fórum para que então se colocasse isto na pauta de prioridades.”

No segundo dia do evento as gestoras reuniram-se em torno da criação do Fórum Nacional de Gestoras Municipais de Políticas para Mulheres. “É importante para a Cidade de Porto Alegre fazer parte dessa coordenação através da coordenadora do Gabinete de Políticas Públicas para as Mulheres – GPPM/GP” afirma Ângela Cristina Kravczyk.

Falta fraternidade na política

27 de abril de 2010

por Eloá Muniz

O filósofo Antonio Maria Baggio, professor de Filosofia Política do Instituto Universitário Sophia, em Firenze (Itália), em conferência na Universidade de Brasília, propõe o estudo e a análise do conceito de fraternidade para além de uma abordagem religiosa ou assistencialista, mas como uma categoria civil e política.

A fraternidade ganhou conotação religiosa e assistencialista e, em muitos casos, é equiparada à solidariedade. “O termo é quase ausente nos dicionários de Ciência Política”, observou Baggio, enquanto os conceitos de igualdade e liberdade foram incorporados como elementos políticos, e assumidos institucionalmente, a partir da Revolução Francesa de 1789, a fraternidade teve outro destino.

Uma reflexão sobre o conceito torna-se pertinente e necessária, afinal, “a ideia de fraternidade é anterior à Revolução Francesa. Está presente em civilizações até mesmo anteriores a hebraico-cristã”. A diferença é que apenas em 1789 o conceito é evidenciado, sendo colocado no mesmo nível da igualdade e da liberdade. “Essa tríade se tornou a luz na escuridão de um complexo sistema de relações”, observou o filósofo.

Na última década houve um salto de qualidade na reflexão acerca do tema, porque a fraternidade se fez presente em ações sociais que resultaram em mudanças políticas significativas. Segundo Baggio, os estudos que atualmente são desenvolvidos sobre a fraternidade podem determinar o papel que o elemento teve na construção da identidade dos povos e, também, como cada nação o interpreta. “É necessário conhecer a fraternidade a partir de diferentes pontos de vista. Ninguém pode definir o que seja fraternidade sozinho. E, para entendê-la, é preciso vivenciá-la”, diz Baggio.

Fonte: UnB Agência

Literatura feminista, um convite a reflexão

27 de abril de 2010

por Eloá Muniz

Ana Paula Fohrmann lançou no dia 06 de abril, na FNAC do Barra Shopping Sul, o romance A Amante do Lobo. O livro nos apresenta uma mulher de 42 anos, independente e professora universitária.

Ela mantém um relacionamento com um homem casado e mais velho até encontrar um jovem estudante que a faz repensar os padrões psicológicos, em que estabeleceu sua relação com o amante.

A história é marcada por influências de caráter psicoexistencialista, na linha francesa, ideias especificamente desenvolvidas por Simone de Beauvoir. A intenção da autora é conduzir o leitor, na forma quase de um diário, a uma reflexão sobre questões ainda tabus no universo do comportamento, tais como dominação e poder – no que se refere à figura masculina – e passividade e masoquismo – no caso da figura feminina. Também nos traz a França, e suas cidades-noir, principalmente seus dias solitários e chuvosos, quando um café, flores e vinho, além da ópera e a companhia de um bom livro, fazem toda a diferença.

Ana Paula Fohrmann tomou como base o livro de contos La Femme Rompue (A Mulher Desiludida), de Simone de Beauvoir e, particularmente, o mesmo conto que deu o nome a essa obra, que enfoca o drama do triângulo amoroso a partir do ponto de vista da esposa. A escritora carioca constrói seu romance da perspectiva da amante, aparentemente independente e bem resolvida internamente.

A sessão de autógrafos foi precedida de um bate-papo literário com a autora; a psicanalista, membro da APPOA, Marieta Madeira Rodrigues, e a Doutora em Literatura Francesa pela USP, Zilá Bernd sobre A mulher contemporânea e os ideais de Simone de Beauvoir.

Quem é Ana Paula Hohrmann

Nasceu em 1971, no Rio de Janeiro. É Bacharel em Direito e Mestre em Direito Público pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Em 2002, mudou-se para a Alemanha, onde se doutorou pela Faculdade de Direito da Ruprecht-Karls Universität Heidelberg, com bolsa de estudos do Serviço Alemão de Intercâmbio Acadêmico (DAAD). Paralelamente, fez aperfeiçoamento em Curso de Direito Internacional pela Académie de Droit Internacional de La Haye e estágio nas Nações Unidas, em Nova Iorque. Desde 2008 trabalha como pesquisadora, tradutora e editora jurídica. No final de 2009 concluiu seu Pós-Doutorado pela Universität Heidelberg. A amante do lobo é a sua estreia na Literatura.

O arpejo dos acordes da poesia

20 de abril de 2010

por Joaquim Moncks

Por ser o poema um homem com alma de mulher, o temor e o horizonte da perda estão vívidos logo na próxima esquina. A insegurança aponta o amanhã. Este é o leque que abana o sentir nunca comportado.

Mais que o lugar comum da vida, o verdadeiro poema (com as digitais da dama Poesia) nasce para o futuro, quando o parceiro escolhido ou o de ocasião bebe a primeira taça. Pode nem estar cheia, mas tem de parecer suficiente para o alumbramento.

É preciso ajustar o futuro dentro do inocente chá das cinco. E esperar a madrugada dos dias como uma loba na estepe, uivando ao longe, em solidão.

Quando há fome, a entrega ao ato de amar é tão natural quanto o comer e o beber. O novo, o inusitado na barriguinha do poema, é o nunca dantes revelado, mesmo que seja café com pão ou arroz e feijão.

Sempre vale o brinde à vida curtindo o calor do amanhã.

Fazer o poema é sentir-se dentro dele, compartilhar de sua irreverência amalucada. Copular com ele tantas vezes até o gozo. Antes que o humor se transmude e se esvaia no hálito do que passa.

– Do livro EU MENINO GRANDE, prosa poética; in CONFESSIONÁRIO – Diálogos entre Prosa e Poesia. Porto Alegre: Alcance, 2008, p. 289.

http://recantodasletras.uol.com.br/prosapoetica/761617