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Mulheres desaprovam retrato que mídia faz delas

10 de janeiro de 2012

Corpo, mídia e sexualidade. Este é um dos temas da pesquisa “Mulheres brasileiras e gênero nos espaços público e privado”, realizada em 2010 pela Fundação Perseu Abramo, por meio de seu Núcleo de Opinião Pública, e em parceria com o SESC, mostra como a mulher se sente em relação ao próprio corpo.

Se os homens em geral apreciam ver rostos e corpos de belas mulheres na publicidade e em programas de TV, para as mulheres essa representação, além de pouco atraentre, contribui para uma desvalorização da classe feminina.

Confira alguns números da pesquisa

Para Gustavo Venturi, professor do departamento de sociologia da Universidade de São Paulo e um dos coordenadores da pesquisa, a opinião das entrevistadas ”mostra um amadurecimento da reflexão sobre a imagem da mulher. O percentual de desaprovação já era alto em 2001 e agora, cresceu mais. Isso mostra que elas estão conscientes de que a mídia, muitas vezes, impõe padrões que não são reais e que não representam a figura feminina”.

Outro dado interessante revelado pela pesquisa é que a grande maioria das mulheres (74%) é a favor de algum tipo de controle (governamental ou do próprio mercado) sobre o teor do conteúdo exibido pela publicidade e pela mídia. “Esse índice nos causou bastante surpresa porque é comum a sociedade reagir de maneira negativa a qualquer possível ideia de controle ou censura”, comenta o pesquisador.

Quatro em cada cinco (80% hoje, 77% em 2001) acham ruim que “na televisão sempre tem programas com mulheres dançando com roupas curtas, mostrando bastante o corpo”, sobretudo por avaliar que isso “dá muita atenção só para o corpo e desvaloriza todas as mulheres” (51%, contra 56% antes).

Três em cada quatro brasileiras (74%) são favoráveis a “um maior controle da programação e da publicidade na TV”, dividindo-se entre as que acreditam que isso deve ser feito por autorregulamentação das TVs e agências de publicidade” (38%), as favoráveis a uma “maior fiscalização ou censura por parte do governo” (37%), e ainda as que prefeririam o controle “por um órgão ou conselho com pessoas da sociedade” (20%).

A maioria das mulheres (64% hoje, 59% em 2001) avalia que de um modo geral elas próprias “saem perdendo” por ser comum no Brasil usarem “roupas que marcam o corpo, como calças justas, saias curtas e blusas decotadas”. Apenas 9% acreditam que as mulheres “saem ganhando” com isso (18% em 2001).

Apenas 50% das mulheres hoje (54% em 2001) declaram-se totalmente satisfeitas “com sua aparência física” em comparação a 70% dos homens.

Entre a quase metade das mulheres (47%) que não está plenamente satisfeita com sua aparência, declaram-se espontaneamente descontentes com a barriga 15%, acima do peso 14% e com os seis 7%.

Fonte: Meio & Mensagem/Fundação Perseu Abramo

Por que elas ganham menos?

6 de setembro de 2011

por Eduardo Ferraz*

Consultor explica que os homens não ganham mais que as mulheres apenas por questões de preconceito, mas por outro motivo: ao contrário das mulheres, geralmente os homens colocam a carreira muito à frente da família.

Participar de almoços e jantares de negócios; ser agressivo na busca de metas; reivindicar aumentos de salários; prospectar clientes; trabalhar nos finais de semana; cobrar resultados, cortar custos; viajar com frequência; fazer política para ser promovido. Essas são algumas das muitas atividades “extras” que fazem parte do dia a dia de executivos de empresas nacionais e multinacionais. No mercado de trabalho, o diferencial não está, muitas vezes, presente nas tarefas que são desenvolvidas, mas na personalidade do profissional que a desenvolve. Nesse sentido, quem exerce melhor estas atividades, o homem ou a mulher? Na era do politicamente correto, quase todos responderiam que tanto faz, o importante seria a capacidade de realização e a produtividade desta pessoa.

Mas, se isso é verdade, por que, segundo dados da Relação Anual de Informações Sociais 2010 (RAIS), as mulheres, que representam 42% dos 44 milhões de trabalhadores formais do Brasil, ganham, em média, 17% menos do que os homens? Uma das explicações para esta questão, de acordo com Eduardo Ferraz, consultor em Gestão de Pessoas e estudioso da Neurociência Comportamental, é que a diferença salarial é definida quando o profissional escolhe qual moeda de troca ele dará prioridade em sua carreira. As empresas têm basicamente quatro moedas para oferecer aos seus funcionários: dinheiro, segurança, status e aprendizado.

“Quem gosta mais de dinheiro, inconscientemente deixará em segundo plano as outras moedas, abrindo mão principalmente da segurança que significaria horários fixos, estabilidade, e, portanto, tempo para dedicar à família. Há mais homens ganhando mais e em cargos de chefia, pois eles culturalmente priorizam a carreira e colocam a família em segundo plano”, explica o consultor, que complementa: “as mulheres, em sua maioria, preferem trabalhos que lhes proporcionem mais segurança do que dinheiro. Não há uma opção melhor que a outra, apenas consequências”, Ferraz, que também é autor do livro Por que a gente é do jeito que a gente é?, lembra que os profissionais (homens ou mulheres) que deixam de lado a segurança, seja por estarem atrás de mais dinheiro, status ou aprendizado, estão sujeitos à instabilidade, mudanças freqüentes, carga horária maior e pressão constante por resultados.

O preço pela estabilidade

Segundo Ferraz, “Tudo tem seu preço”. Quem der muita prioridade ao aprendizado, tenderá a abrir mão do dinheiro e (ou) do status, e assim por diante, já que, quando uma moeda é muito importante, ocupa o espaço das outras. No caso das mulheres, a escolha pela segurança é quase instintiva. “Elas têm uma sobrecarga muito maior que a dos homens. Além de estar sempre atualizada, ter cursos de especialização, e ser uma profissional brilhante, ainda tem que cuidar dos filhos, ser uma filha dedicada, ter o corpo saudável, cuidar da casa, ser amorosa com marido, e ainda ouvir – pacientemente – da sogra, que não dedica tempo suficiente à família. É um verdadeiro massacre, e pouquíssimos homens agüentariam a carga que a maioria das mulheres suportam”, descreve Eduardo Ferraz.

“É por isso que muitas mulheres tacitamente aceitam ganhar menos em troca de uma carreira que lhe dê mais segurança e flexibilidade para suas múltiplas jornadas”.

O consultor chama a atenção para as mulheres que priorizam a carreira e entregam resultados consistentes, fato que garante uma autoridade moral para exigir chances parecidas com a dos homens.

“Quer meu talento em tempo integral? Pague o mesmo que fulano ganha para realizar um trabalho parecido. Esta postura quase sempre funciona, pois ninguém quer perder um funcionário de alta performance independente do sexo”.

O preço é alto, mas para quem está disposta a pagar vale à pena investir, mesmo que muitas vezes tenha que adotar uma jornada “quíntupla”: ser ótima profissional, mãe, esposa, ganhar mais que os homens e ainda ser elogiada pela sogra…

* É consultor em Gestão de Pessoas e especialista em treinamentos e consultorias “in company”, com aplicações práticas da Neurociência comportamental, possuindo mais de 30.000 horas de experiência prática. É pós-graduado em Direção de Empresas, especializado em Coordenação e Dinâmica de Grupos e autor do livro “Por que a gente é do jeito que a gente é?”, da Editora Gente. 

Fonte: Maxpress

ONU pede ação afirmativa pró-mulher árabe

23 de fevereiro de 2011

Estudo do PNUD sugere que mundo árabe adote temporariamente medidas que ajudem as mulheres a superar a discriminação.

Os países árabes devem implementar temporariamente ações afirmativas que ajudem as mulheres a atingir condições de vida semelhantes às dos homens, defende o Relatório de Desenvolvimento Humano Árabe, lançado na quinta-feira pelo PNUD. O documento, que aponta a discriminação contra a mulher como o maior desafio para o desenvolvimento da região, mostra que a população feminina árabe tem menor acesso à educação, emprego, saúde e direitos civis. O estudo ainda diz que não é o islamismo a causa do problema, mas sim a inflexibilidade política, a dominação masculina e a guerra.

O relatório, intitulado Rumo à Ascensão das Mulheres no Mundo Árabe, afirma que a taxa de mortalidade materna na região chegou a um nível “inaceitável”. Atualmente, os Estados árabes registram 270 mortes de mães para cada 100 mil bebês nascidos, mas esse número chega a 1 mil mortes por 100 mil bebês nos países mais pobres. No Brasil, o indicador mais recente (de 2003) aponta taxa de 51,74. O estudo ainda destaca que menos de 80% das garotas não chegam ao ensino médio e que metade das mulheres são analfabetas. Mas existem exceções: na Tunísia, na Jordânia e nos territórios palestinos há mais meninas que meninos nas escolas.

No que se refere à representação política, o relatório destaca que o sistema de cotas nas eleições adotado por alguns países árabes ajudou a aumentar a participação da população feminina no governo. No Iraque, por exemplo, a participação de mulheres no parlamento atingiu 25% nas eleições de 2005. No Marrocos, essa proporção subiu de 1%, em 1995, para 11%, em 2003. Mas ainda existem países onde as mulheres não têm vez nas decisões políticas. Na Arábia Saudita e nos Emirados Árabes Unidos, apenas os homens votam.

Mudar esse quadro e implementar políticas para colocar as mulheres no mesmo patamar de desenvolvimento dos homens é fundamental para garantir o avanço dos países árabes, de acordo com o administrador do PNUD, Kemal Dervis. “Desenvolvimento humano requer mais que crescimento econômico sozinho. A luta contra a pobreza não é uma campanha de caridade — é uma missão de empoderamento. Isso é especialmente verdade para as mulheres, já que, do 1 bilhão de pessoas mais pobres do mundo, três quintos são mulheres e meninas”, declarou.

Além desvencilhar os movimentos islâmicos da forte opressão exercida sobre as mulheres árabes, o relatório destaca que esses movimentos têm se transformado significativamente e que, em muitos casos, eles estão na vanguarda do empoderamento das mulheres.

Fonte: www.pnud.org.br

Mulheres são maioria entre jovens fora da escola e do mercado de trabalho

23 de fevereiro de 2011

Amanda Cieglinski*

Brasília – Parte da população de 18 a 24 anos do país faz parte de um grupo que nem estu-da nem trabalha. São cerca de 3,4 milhões de jovens que representam 15% dessa faixa etá-ria. Um estudo do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep) mostra que as mulheres são mais afetadas por esse problema, muitas vezes em função da maternidade e do casamento.

Do total de jovens fora da escola e do mercado de trabalho, 1,2 milhão concluiu o ensino médio, mas não seguiu para o ensino superior e não está empregado. A proporção de jovens nessa situação aumentou de 2001 a 2008, segundo o Inep, e quase 75% são mulheres. Uma em cada quatro jovens nessa situação tinha filhos e quase metade delas (43,5%) era casada em 2008.

Para Roberto Gonzales, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o estudo reflete que a desigualdade de gênero ainda persiste não apenas na diferença salarial, mas no pró-prio acesso ao mercado de trabalho. “Isso tem muito a ver com a divisão do trabalho familiar, seja doméstico ou de cuidados com o filho. É uma distribuição muito desigual e atinge em especial as mulheres, por isso você tem tantas meninas fora do mercado e da escola”, diz.

Entre as mulheres de 18 a 24 anos que estão na escola e/ou no mercado de trabalho, o per-centual daquelas que têm filhos é cinco vezes menor. Segundo o estudo, os dados compro-vam que “existe forte correlação entre casamento/ maternidade e a saída, mesmo temporá-ria, da escola e do mercado de trabalho observada para as mulheres”.

Uma vez que o processo de escolarização foi quebrado, o retorno aos estudos é bem mais difícil. Para Gonzales, esse afastamento do jovem do mercado de trabalho ou dos estudos pode não ser apenas uma situação “temporária”, como sugere o estudo. Um dos fatos que corroboram essa teoria é a queda da matrícula entre 2009 e 2010 nas turmas de Educação de Jovens e Adultos (EJA), segundo dados do último censo escolar.

“A baixa escolaridade não é uma barreira absoluta ao mercado de trabalho, mas é um pro-blema porque há a possibilidade de criarse um círculo vicioso. A mulher não terá acesso a bons empregos que dariam experiência profissional e poderiam melhorar sua inserção no futuro”, alerta.

Gonzales afirma ainda que as políticas públicas precisam ser mais flexíveis e acompanhar os “novos arranjos” da sociedade para garantir mais apoio a esse grupo de jovens mães. “As pessoas costumam ter uma ideia mais tradicional de educação em que os pais provêm o sustento para que o filho termine a escolaridade, depois ele segue para o ensino superior e entra no mercado de trabalho.

E, na realidade, esses eventos não acontecem necessariamente nessa ordem. Assim como temos muitos jovens casais, também temos famílias monoparentais chefiadas por mulheres com filho e isso, muitas vezes, abre espaço para outras trajetórias de vida”, explica.

Uma das estratégias básicas para garantir que a jovem consiga prosseguir com seus estudos ou ingressar no mercado é a ampliação da oferta em creche. Atualmente, menos de 20% das crianças até 3 anos têm acesso a esse serviço no país. “Essa é uma das principais barreiras alegadas pelas mulheres inativas”, indica Gonzalez.

*Repórter da Agência Brasil
Fonte: www.unifem.org.br

A avó e a petroleira

16 de novembro de 2010

por Rosiska Darcy de Oliveira

Ser mulher já não é um imperdoável defeito. Cinqüenta e cinco milhões de brasileiros elegeram uma presidente. Injusto talvez esperar de uma mulher o que não se exige dos homens mas essa escolha, por seu caráter inaugural, legitima expectativas. Na equipe de transição a presença das mulheres é expressiva. Se persistir esse espírito na composição do ministério, ganhará a democracia.

Dilma Rousseff, com sua competência gerencial, pode garantir ao Brasil a continuidade do governo Lula. Mais do mesmo. Seria pouco, um desperdício de sua chance histórica. Tomara que esteja à altura de outro destino possível: encarnar a emergência do feminino na cultura brasileira. O que não se esgota na presença quantitativa das mulheres.

Trata-se agora de inscrever na agenda política o lado oculto da sociedade que elas representam. Para alcançar a igualdade de oportunidades entre homens e mulheres que Dilma define como essencial à democracia, e é, terá que virar os problemas pelo avesso. A cultura feminina está em nós como um avesso, presente mas invisível, útil mas secundaria. E se essa cultura escondida e reprimida se fizesse fio de um tecido novo que viesse substituir a esgarçada trama da política?

O passado não recomenda ilusões. As mulheres que chegaram ao poder vestiram o figurino de um político banal. O velho equívoco do mimetismo, assumindo o feminino como o “defeito” de um sexo que não seria senão o negativo do outro. Subscreveram um critério de simetria, buscando reconhecimento em nome da capacidade de ser como o outro e não de ser outro.

A sociedade brasileira emite mensagens contraditórias. Projeta na presidente, ao mesmo tempo, os estereótipos do homem e da mulher. Ora um capacete da Petrobrás, ora um neto recém-nascido nos braços. Quem vai governar o Brasil: a petroleira ou a avó? Ambas? Não é esse o conflito de identidade de todas as mulheres?

Sobre Dilma correm lendas, que ela, com razão, ironiza, definindo-se como uma mulher muito dura cercada de homens muito doces. Ninguém duvida de sua capacidade de afirmar autoridade no mundo dos homens, de se fazer mesmo temer quando não respeitar.

Em seu primeiro pronunciamento depois de eleita, definiu a preocupação com as pessoas como o cerne de seu governo. E acrescentou que honraria as mulheres. Dilma entende de pré-sal e de energia. Há outros desafios: desenterrar o que está mais oculto que o pré-sal, o que mais consome energia humana: a defeituosa articulação entre o público e o privado.

A cultura feminina se nutre das relações humanas mais próximas, dos cuidados, dos afetos. Entende de boa ou má qualidade de vida. É justamente aí que os sintomas de crise se acumulam na volatilidade dos núcleos familiares, no descaminho dos jovens, na assustadora solidão dos idosos. No cotidiano desenfreado de homens e mulheres estiolam-se vínculos fundamentais.

Um mercado de trabalho feminizado a quase 50%, a presença crescente nas universidades e setores estratégicos como a mídia e a pesquisa cientifica, tudo atesta a gigantesca e irreversível migração das mulheres da vida privada para o mundo do trabalho. O país não passa recibo de quanto essa migração afeta às famílias. Não faz creches, não acolhe os idosos. A vida das famílias se organiza, aos trancos e barrancos, em função do mundo do trabalho como ele é, como sempre foi, como se nada tivesse mudado.

Os laços entre vida privada e profissional se transformaram em um nó que não pode ser desatado na intimidade dos lares, mas no espaço público cujo modo de funcionamento tem que ser adequado à nova configuração familiar. O mundo do trabalho terá que experimentar novos modos de gestão e organização nas empresas, a administração pública testar novas temporalidades em beneficio de quem usa seus serviços.

A conciliação entre vida profissional e vida privada é um núcleo problemático da sociedade brasileira, invisível como tudo que machuca a existência feminina, sobretudo na pobreza. Honrar as mulheres é contribuir para desfazer esse nó.

Um problema só apela por solução quando é reconhecido como tal. Nos anos de chefia da Casa Civil, o assunto não existiu. Presidente, ela agora faz a pauta. Com ouvido atento às demandas que sobem da sociedade e uma boa dose de imaginação, o governo pode conceber e impulsionar uma estratégia, um conjunto de políticas que aliviem o cotidiano atormentado de homens e mulheres.

Será Dilma capaz, em nome da preocupação com as pessoas e da atenção às mulheres, de liderar um Programa de Desaceleração do Cotidiano?

Mulheres na política

31 de agosto de 2010

Luiza Nagib Eluf*

As próximas eleições já entraram para a história, independentemente do resultado. Pela primeira vez no país, duas mulheres disputam o cargo de presidente da República e estão entre os principais candidatos. Dilma Roussef (PT) e Marina Silva (PV) são as protagonistas deste pleito. Antes delas, tentaram Maria Pio de Abreu (em 1989, ficando em 17º lugar) e Heloísa Helena (em 2006, ficando em 3º lugar, com expressiva votação).

Se o fato de termos duas fortes postulantes ao Palácio do Planalto em uma mesma eleição é histórico e motivo de comemoração, a verdade é que a política no Brasil ainda é essencialmente masculina. A participação das mulheres é crescente na história brasileira, mas ainda está aquém do desejado. Somos a maioria da população do país e representamos 40% da força de trabalho fora do lar, mas continuamos invisíveis na área pública. Só em 1985, uma mulher se tornaria prefeita de uma capital (Maria Luiza Fontenelle, do PT, em Fortaleza) e, apenas em 1995, o Brasil elegeria a sua primeira governadora mulher (Roseana Sarney, no Maranhão). Apenas dois dos nossos Estados mais populosos já elegeram governadoras – o Rio de Janeiro (Rosinha Garotinho) e o Rio Grande do Sul (Yeda Crusius).

Na Câmara Federal o cenário é ainda mais desanimador. Em 184 anos de existência do Legislativo, nunca uma mulher ocupou um cargo titular na mesa da Câmara. São apenas 45 mulheres em meio a 513 deputados, ou seja, míseros 8% de representação feminina. No Senado, o percentual sobe para 13%, mas ainda é inexpressivo. O percentual de mulheres na Câmara Federal e no Senado brasileiros é um dos mais baixos da América Latina e do mundo.

Apesar de a legislação determinar que os partidos preencham pelo menos 30% de suas candidaturas com mulheres, isso não ocorre na prática. Entre os fatores que desestimulam as mulheres a participar da política estão o preconceito, que já começa na própria família, a falta de incentivos financeiros e a dificuldade de encarar uma jornada dupla de trabalho, muito mais acentuada no caso de atividade partidária.

Trata-se de um problema cultural. Durante grande parte da história do Brasil, as mulheres não tiveram direitos civis nem cidadania plena. A elas eram negados os mais elementares direitos políticos como votar e ser votadas. Somente em 1932, durante o governo de Getúlio Vargas, as mulheres conquistaram o direito ao voto, depois de muita luta do movimento sufragista. Mesmo assim, apenas as mulheres casadas (com autorização do marido), viúvas e solteiras com renda própria votavam.

Com o Estatuto da Mulher Casada, de 1962, algumas liberdades fundamentais foram conferidas às mulheres, como o direito de viajar sem autorização do marido ou de gerenciar seus bens patrimoniais. Mais tarde, a Lei do Divórcio (1976) possibilitou que casamentos fracassados pudessem ser oficialmente desfeitos, permitindo-se a dissolução do vínculo matrimonial que, finalmente, deixou de ser para sempre. A mesma Lei igualou os direitos dos filhos, independente da situação dos pais. No entanto, esses passos aparentemente elementares, resultaram de muito esforço de persuasão das militantes feministas. A verdadeira emancipação feminina aconteceu apenas com a Constituição de 1988, que equiparou homens e mulheres em direitos e obrigações. Em que pesem os avanços legais, convivemos, ainda, com os resquícios culturais dessa antiga situação de subalternidade.

A desigualdade de gênero nas instâncias de poder é um problema internacional. Em 1995, aconteceu em Pequim, China, a IV Conferência Mundial da Mulher, um verdadeiro marco no avanço dos direitos femininos. No entanto, muitas das recomendações feitas às delegações oficiais dos países participantes não foram implementadas. As propostas legislativas que visavam à garantia dos direitos das mulheres ao patrimônio, à saúde e à liberdade sexual não se realizaram em sua plenitude. Com a população feminina sub-representada nas áreas de comando e compondo apenas 20% dos legisladores em todo o mundo, segundo dados da ONU, estamos muito distantes das metas fixadas em Pequim.

Nesse compasso, serão ainda necessárias muitas décadas para haver paridade de gênero nos cargos políticos de relevância.

Mulheres já foram eleitas para presidente ou primeira-ministra na Índia, Alemanha, Noruega, Inglaterra, Chile e Argentina, para citar alguns exemplos, mas uma andorinha só não faz verão. A emancipação efetiva será realidade apenas quando atingir todas as mulheres, em todas as classes sociais. Enquanto houver violência doméstica, discriminação no trabalho fora do lar e abusos sexuais nenhuma sociedade poderá dizer que a igualdade de gênero foi alcançada. Por essa razão, fortalecer e proteger a população feminina deve ser um projeto de governo.

Um exemplo de divisão justa do poder foi adotado por Michelle Bachelet, no Chile, e por José Luiz Zapatero, na Espanha, que decidiram nomear um ministério paritário (metade homens e metade mulheres). Essa medida, na esfera do poder executivo, é fundamental para promover o respeito a uma parcela da população até hoje subjugada e menosprezada pelos padrões patriarcais. Se as mulheres não estiverem no poder, suas reivindicações não serão concretizadas, os projetos que as beneficiam estarão fadados ao esquecimento.

No Brasil, foi aprovada uma nova lei eleitoral, a Lei n. 12.034/2009 que determina a obrigatoriedade dos partidos políticos de destinar 5% do fundo partidário à formação política de mulheres, prevendo punição para o descumprimento da regra, e determinando a obrigatoriedade do preenchimento dos 30% de vagas de candidaturas femininas; além disso, reserva 10% do tempo de propaganda partidária em anos não-eleitorais para promover a participação da mulher.

Democracia se aprende, se constrói, se exerce. No caso das mulheres e de outros segmentos excluídos, a verdadeira democracia requer o acesso ao poder político. O Brasil cidadão precisa ser mais feminino, mais tolerante, mais igualitário, mais atento à preservação ambiental, em suma, mais responsável pelo seu próprio futuro, nos exatos termos consignados em nossa Constituição.

* Procuradora de Justiça do Ministério Público de São Paulo. É autora de vários livros, dentre os quais “A Paixão no Banco dos Réus” e “Matar ou Morrer, o Caso Euclides da Cunha”. www.luizaeluf.com.br

Violência doméstica tem relação direta com dependência econômica na América Latina

20 de agosto de 2010

por Cristóvão Feil

As mulheres vítimas de violência doméstica na América Latina se submetem aos maus-tratos porque não dispõem de condições financeiras para sobreviver sem a ajuda dos companheiros, maridos e namorados. No Brasil, 24% das entrevistadas disseram que, apesar das agressões que sofrem, não se separam porque não têm como se sustentar. Uma em cada quatro brasileiras sofre com a violência doméstica. A cada 15 segundos, uma mulher é atacada no Brasil.

A conclusão é de um estudo da organização não-governamental (ONG) Centro pelo Direito à Moradia contra Despejos (Cohre), intitulado “Um Lugar no Mundo”. A ONG tem sede em Genebra, na Suíça. O estudo, divulgado semana passada, mostra que na América Latina, os índices de violência doméstica são elevados. A pesquisa informa que, na região, de 30% a 60% das mulheres sofreram agressões.

O relatório analisa a questão da violência contra a mulher no Brasil, na Argentina e na Colômbia.

Nesses países, o estudo informa que a “falta de acesso a uma moradia adequada, incluindo refúgios para mulheres que sofrem maus-tratos, impede que as vítimas possam escapar de seus agressores”. Segundo o documento, “a dependência econômica aparece como a primeira causa mencionada pelas mulheres dos três países como o principal obstáculo para romper uma relação violenta”.

No Brasil, 70% das vítimas de violência foram agredidas dentro de casa e, em 40% dos casos, houve lesões graves. Das mulheres assassinadas no país, 70% sofreram agressões domésticas. A ONG informa ainda que esses problemas afetam, principalmente, as mulheres pobres que vivem em comunidades carentes.

A maior parte das vítimas não exerce atividades profissionais fora de casa. No Brasil, 27% das entrevistadas disseram que se dedicam ao lar. Na Argentina e na Colômbia, 25% das mulheres se declararam como donas de casa. Algumas delas afirmaram que não têm outras atividades profissionais por desejo dos maridos, companheiros e namorados.

O relatório, de 50 páginas, não especifica a quantidade de mulheres entrevistadas, mas informa ter conversado com dezenas de mulheres, vítimas de violência doméstica, nas cidades de Porto Alegre (Brasil), Buenos Aires (Argentina) e Bogotá (Colômbia).

“O direito à moradia adequada ultrapassa o direito de ter um teto sobre sua cabeça. É o direito de viver em segurança, em paz e com dignidade. É obrigação do governo assegurar esse direito às vítimas de violência doméstica”, disse a responsável pelo setor de Peritos sobre as Mulheres da ONG Cohre, Mayra Gomez. “Por muito tempo, a relação entre violência doméstica e direito à habitação tem sido negligenciada pelos políticos. É tempo de os governos da América Latina corrigirem este erro”.

Rio é o estado com maior índice de mulheres na disputa eleitoral

2 de agosto de 2010

Os estados onde as mulheres mais se interessam na disputa por um cargo nas eleições de outubro são o Rio de Janeiro, com 27,95% de candidatas, seguido por Santa Catarina, com 27,9%, e pelo Rio Grande do Sul, com 26,9%. Os estados que, proporcionalmente, terão menos mulheres no pleito são Espírito Santo (12,9%), Pernambuco (13,6%) e Minas Gerais (14,8%).

Apesar de serem a maioria entre os eleitores (52%), as mulheres ainda são minoria na disputa das eleições deste ano. Segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), dos 21.760 candidatos registrados até o momento, apenas 21,5 % são mulheres. O cargo em que o registro de mulheres é maior é de deputado distrital: 220 dos 885 candidatos, o que representa um índice de 25,7%.

O cargo menos pleiteado pelas mulheres é o de governador – somente 10,7% dos 168 candidatos são do sexo feminino, totalizando 18 candidatas.

A Lei Eleitoral determina que 30% das vagas sejam destinadas ao sexo que se apresente como minoritário entre os inscritos para concorrer aos cargos de deputado federal, estadual e distrital. Apesar de não citar as mulheres, o artigo foi incluído para incentivar a participação feminina na política brasileira.

Agência Brasil

Assembleia Geral das Nações Unidas cria a ONU Mulheres

2 de agosto de 2010

A criação da Entidade das Nações Unidas para a Igualdade de Gênero e o Empoderamento das Mulheres é resultado de anos de negociação.

No dia 2 de julho, a Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) aprovou, por unanimidade, a criação de uma nova entidade que visa a atender as demandas de mulheres e meninas de todos os continentes. A entidade das Nações Unidas para a igualdade de gênero e o empoderamento das mulheres, denominada ONU Mulheres, é resultado de anos de negociações entre Estados-membros e movimentos de defesa das mulheres no mundo.

Em comunicado, o secretário-geral Ban Ki-moon afirmou que a criação da nova agência “vai aumentar significativamente os esforços da ONU para promover a igualdade de gênero, expandir as oportunidades e combater a discriminação em todo o mundo”.

A ONU Mulheres vai unificar o trabalho já desenvolvido pelos quatro organismos das Nações Unidas dedicados às mulheres: Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para a Mulher (Unifem); Escritório de Assessoria Especial em Questões de Gênero (OSAGI); Divisão para o Avanço das Mulheres (DAW); e Instituto Internacional de Pesquisas e Capacitação para a Promoção da Mulher (INSTRAW).

Ban Ki-moon nomeará uma subsecretária-geral para dirigir a nova agência, a partir de sugestões dos Estados-membros e parceiros da sociedade civil. A subsecretária-geral integrará todas as instâncias decisórias superiores da ONU e apresentará relatórios ao secretário-geral.

A ONU Mulheres deve estar em pleno funcionamento operacional em janeiro de 2011, com duas funções principais: apoiar os organismos intergovernamentais na formulação de políticas, padrões e normas globais, e auxiliar os Estados-membros a implementá-los, fornecendo apoio técnico e financeiro e estabelecendo parcerias com a sociedade civil.

Uma mulher assume a presidência da GM no Brasil

7 de julho de 2010

por Eloá Muniz

Desta vez foi o setor automobilístico que rompeu paradigmas. A General Motors do Brasil, uma das maiores fabricantes de carros do mundo, indica para presidente a engenheira mecânica Denise Johnson. Com larga experiência e formação nos quadros da GM, ocupou nos último anos a vice-presidência de relações trabalhistas da General Motors Corporation. Denise agora terá o desafio de ser a primeira mulher a ocupar o cargo de maior importância na estrutura de poder da empresa multinacional.

Ela assumirá, entre outras atribuições, o projeto de ampliação do Complexo Automotivo de Gravataí. Denise Johnson substituiu Jaime Ardilla, promovido para a recém-criada GM América do Sul, que comandará a partir de São Paulo.

Denise tem em seu currículo o programa Líderes de Produção (Leaders for Global Operations) e quando ainda estava na alta direção da montadora de Detroit. Sobre esta experiência no centro de excelência comentou: “o programa reforça o desenvolvimento de um estilo de liderança que abriga trabalho em equipe e avaliação de soluções diferentes para obter resultados”, afirmou.

Na realidade Denise Johnson é a primeira mulher a assumir a presidência no Brasil, cargo que agora foi criado, mas isto não significa que ela seja uma exceção, pois outras executivas ocuparam posições similares, como Maureen Kempston Darkes, que presidiu a divisão América Latina, África e Oriente Médio. Nos Estados Unidos, várias fábricas são dirigidas por mulheres, o que no entender de André Beer, consultor do setor automotivo, que passou 38 anos na GM, 18 dos quais como vice-presidente, é um sinal de não existir na empresa uma cultura machista.

A GM do Brasil é altamente rentável e não foi atingida pela grande crise desencadeada na empresa, conseguindo manter a produção em alta. Isso propiciou a criação da GM América do Sul, um grande mercado consumidor da marca Chevrolet, atrás apenas de EUA e da China. A nova General Company provocou a mudança do comando das atividades fora dos Estados Unidos para a Divisão de Operações Internacionais, a partir da China. O Brasil e o país asiático são as principais operações internacionais da empresa atualmente e que recebem maiores investimentos.

A criação da GM América do Sul, com sede em São Paulo, dará maior autonomia aos negócios nos 10 países onde atua, e seu presidente Jaime Ardilla terá ligação em linha direta com o principal executivo da GMC, Ed Whitacre.

Com maior proximidade do board, será possível ganhar agilidade nas decisões, além de acompanhar on line as características, exigências e tendências dos mercados sul-americanos, benefícios para todos, principalmente para o consumidor.