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Futuro do feminismo depende dos homens

6 de setembro de 2011

Katrin Bennhold

Em 1965, minha mãe era a única estudante de engenharia em sua classe na Alemanha. Não havia banheiro feminino exceto no porão, onde as faxineiras tinham seus armários e seu professor pedia a ela que encontrasse rapidamente um marido, para que ela não fracassasse nas provas.

O feminismo naquela época era bem claro: tratava-se de mulheres cerrando fileiras para combater o sexismo flagrante, receber educação e ir trabalhar. Era “a respeito das mulheres entrarem no mundo dos homens”.

O feminismo do futuro está se transformando em atrair os homens para o universo das mulheres – como pais envolvidos, parceiros iguais no lar e embaixadores da igualdade de gênero, do gabinete à sala da diretoria.

A realidade é mais cheia de nuances. As mulheres obtêm mais doutorados, mas menos dinheiro. Elas superam em número os homens na força de trabalho, mas ainda são responsáveis por grande parte do trabalho doméstico. Elas tomam as decisões de consumo, mas dirigem apenas 3% das empresas da “Fortune 500”.

No mundo ocidental, a maternidade continua sendo uma barreira para a igualdade de gênero. Até terem filhos, as mulheres jovens atualmente ganham quase o mesmo que os homens e sobem na escada da carreira em um ritmo semelhante. Com os bebês frequentemente vêm interrupções na carreira, trabalho em meio expediente e uma existência corrida em dois turnos que significa o sacrifício dos contatos informais, como as experiências de beber cerveja e formar laços após o expediente, frequentemente cruciais no momento da promoção.

Muitos países ocidentais protegem os empregos das mulheres durante a licença maternidade e vários oferecem às mães o direito de jornadas reduzidas. No mundo corporativo, as diretoras de recursos humanos fazem lobby por horários de trabalho flexíveis e as diretoras de diversidade organizam programas de apoio às mulheres. Redes de contato de executivas, onde as mulheres podem desenvolver laços, estão crescendo. E em inúmeras conferências de mulheres, estas debatem com outras mulheres a respeito de mulheres e desenvolvem ainda mais laços.

Na melhor das hipóteses, essas iniciativas são boas para dicas e para o moral. Na pior, elas prendem as mulheres ao seu papel de protetoras primárias. O que não fazem é colocar mais mulheres em posições de liderança.

A única coisa que pode igualar o campo de jogo no trabalho é igualar o campo de jogo em casa. E isso requer uma grande mudança na política pública e na cultura corporativa.

Nos poucos países onde os pais têm licença paternidade em uma escala significativa, essa licença é altamente remunerada e não transferível à mãe. De forma previsível, os nórdicos lideram o caminho. A Islândia, que está mais próxima de atingir igualdade de gênero segundo o índice de desigualdade de gênero do Fórum Econômico Mundial, foi mais longe, reservando três meses de licença para os pais. Nove entre 10 homens islandeses tiram licença para ficar com seus bebês. Uma legisladora, Drifa Hjartardottir, descreveu a lei de 2000 como “um dos maiores e mais importantes passos voltados à igualdade de gênero desde o direito de votar das mulheres”.

Foi necessário um primeiro-ministro para vender a legislação ao país e foram necessários líderes masculinos na Suécia e Noruega para aprovação de leis semelhantes. Foi um homem que defendeu uma cota para conselho diretor na Noruega, obrigando as empresas a preencherem pelo menos 40% das cadeiras com mulheres.

Basicamente, os homens são feministas mais eficazes, porque isso aumenta a probabilidade de outros homens escutá-los.

Isso também vale para os negócios. Modelos de líderes femininas importam, disse De Anca. Mas modelos masculinos que tiram licença para ficar com seus bebês, encerram o expediente em um horário decente, promovem as mulheres e transmitem a notícia para seus colegas masculinos talvez importem ainda mais.

Mas a mensagem está sendo transmitida.

Na França, por exemplo, o Institut d’Études Politiques está transformando os estudos de gênero parte do currículo básico para todos os alunos a partir de 2011. A Deloitte France está promovendo uma iniciativa neste mês para educar os homens de seu quadro a respeito da diversidade de gênero. Um punhado de empresas, incluindo a gigante nuclear Areva (dirigida por uma mulher), colocou homens encarregados de gênero.

Dar à próxima geração fortes figuras paternas não apenas ajudaria a explodir o teto de vidro, como também seria a melhor esperança para esses meninos que fracassam na escola, que carecem de modelos masculinos.

Os homens têm muito a ganhar com a ascensão das mulheres, disse Joanne Dreyfus, uma auditora da Deloitte, em Paris, apontando que no momento três quartos dos que estão tirando proveito do esquema de horário flexível da empresa são mulheres.

Colocando de outra forma: a fronteira final da liberação das mulheres pode ser a liberação dos homens.

 Tradução: George El Khouri Andolfato

52% acham que juízes e policiais desqualificam o problema da violância contra as mulheres

6 de setembro de 2011

Pesquisa sobre violência doméstica, realizada pelo Instituto Avon e pela Ipsos, revela que 52% dos homens e mulheres acham que juízes e policiais desqualificam o problema da violência contra as mulheres.

 
Medo de ser morta paralisa a vítima 

A pesquisa “Percepções sobre a Violência Doméstica contra a Mulher no Brasil”, realizada em 70 municípios brasileiros, com 1.800 homens e mulheres, aponta que o medo de ser morta é outro dos principais motivos que leva a vítima a não romper com o agressor. Na região Centro-Oeste, esse motivo foi apontado por 21% das entrevistadas. No Sudeste, por 15%; no Sul, por 16%. O Nordeste tem o menor índice: 13%.

“É uma vergonha as mulheres não saírem de casa porque podem ser mortas. Ciúme não é paixão. É algo mais complexo. O homem acha que tem posse da mulher. E a sociedade machista é um problema porque acha que a mulher não tem direito à autoestima e nem pode falar, se manifestar”, afirmou a socióloga Fátima Jordão, conselheira do Instituto Patrícia Galvão.

Homens batem “sem motivo” 

Segundo Fátima Jordão, uma técnica sofisticada foi utilizada pela primeira vez na pesquisa com a finalidade de obter respostas mais fidedignas. “No capítulo relativo à violência vivenciada por homens e mulheres, os entrevistados preencheram o questionário em sigilo e colocaram em um envelope. Dessa forma, evitou-se que o entrevistado se sentisse inibido ou influenciado.” 

Dos homens entrevistados, 15% admitiram já terem agredido  fisicamente as mulheres, sendo que 12% afirmaram ter batido nas companheiras “sem motivo” e 38% por ciúme. 

População não confia na proteção da polícia 

O estudo mostrou ainda que a sociedade não confia na proteção jurídica e policial nos casos de violência doméstica. Essa é a percepção de 59% das mulheres e de 48% dos homens. 

“O número de denúncias feitas ainda é pequeno em relação à violência que existe. Isso acontece porque as políticas públicas, que incluem delegacias especializadas e centros de referência para que a mulher confie e vá denunciar, ainda estão aquém da necessidade”, afirma Maria da Penha Fernandes, que teve a história de vida como inspiração na criação da Lei Maria da Penha, que completará cinco anos em vigor. Em 1983, Maria da Penha ficou paraplégica após levar um tiro do marido.

Em todo o país há somente 388 delegacias especializadas no atendimento à mulher, 70 juizados de violência doméstica, 193 centros de referência de atendimento à mulher e 71 casas para abrigo temporário.

Fonte: Pesquisa Instituto Avon/Ipsos - Percepções sobre a Violência Doméstica Contra a Mulher no Brasil 2011

Lei Maria da Penha citada como exemplo em relatório da ONU

6 de setembro de 2011

A Lei Maria da Penha sobre violência contra as mulheres foi citada em relatório da ONU Mulheres como exemplo de legislação pioneira no mundo na defesa dos direitos das mulheres. A pesquisa “Progresso das Mulheres do Mundo: Em Busca da Justiça” foi realizada em 139 países para conferir o avanço de leis de proteção feminina. Segundo o estudo, apesar de alguns sucessos, mulheres em todo o mundo continuam enfrentando  injustiças, violências e desigualdades em casa e no trabalho. 

Sancionada em 2006, a Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340) aumentou o rigor nas punições aplicadas em casos de violência doméstica. O nome da lei é uma homenagem à biofarmacêutica Maria da Penha Fernandes, que ficou paraplégica depois de sofrer duas tentativas de assassinato por parte de seu marido, o economista colombiano Marco Antonio Heredia Viveros.

“Identificando falhas ou mudando leis que violam princípios constitucionais ou os direitos humanos, tais casos (como o de Maria da Penha) podem motivar ações governamentais para prover aos cidadãos, garantir direitos iguais das minorias ou acabar com a discriminação”, diz o relatório da ONU.

Delegacias da mulher

Além da Lei Maria da Penha, o relatório cita ainda a liderança do Brasil e da América Latina na criação de delegacias especiais para mulheres. O texto afirma que 13 países latinoamericanos e caribenhos possuem postos policiais especializados. “O Brasil abriu a sua primeira delegacia da mulher em 1985, em São Paulo. Hoje existem 450 delegacias da mulher em todo o país. Elas ajudaram a aumentar a conscientização e levaram a uma alta nas denúncias de violência contra mulheres”, diz o texto.

O relatório apresenta uma série de recomendações para fazer com que a Justiça funcione com mais eficiência em favor das mulheres. Entre elas, está o maior apoio às organizações femininas, a adoção de cotas para mulheres nos parlamentos, aumentar o número de mulheres na força policial e implementar programas de reparação voltadas para o gênero.

Para a diretora da ONU Mulheres e ex-presidente do Chile, Michele Bachelet, em muitos países as mulheres continuam atrás no acesso à justiça. ”(O relatório) mostra que, onde as leis e os sistemas judiciários funcionam bem, eles podem prover um mecanismo essencial para que as mulheres tenham concretizados os seus direitos humanos”, afirma Bachelet no texto.

Acesse o relatório na íntegra em pdf: http://progress.unwomen.org/

Fonte: Agência Patrícia Galvão

Dieese lança Anuário das Mulheres com dados para políticas públicas

12 de julho de 2011

Na última segunda-feira (04) a CTB participou, representada por sua secretária da Mulher Trabalhadora, Raimunda Gomes, do lançamento do 1º Anuário das Mulheres Brasileiras, construído pelo Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (Dieese) em parceria com a Secretaria de Políticas para as Mulheres (SPM).

O levantamento é uma compilação de dados sobre a participação da mulher na sociedade disponíveis em pesquisas do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Sistema Único de Saúde (Datasus), Pesquisa de Emprego e Desemprego (PED), Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) e da Relação Anual de Informações Sociais (Rais).

Unidade
Segundo Zenaide Onório, presidente do Dieese, o anuário vai servir para “elevar a discussão de políticas públicas que defendam a mulher trabalhadora e que evidenciem o problema da desiguladade social vivida pela mulher na relação do trabalho e, principalmente, no que se refere à violência doméstica”.

De acordo com ela, a violência sofrida pela mulher não aumentou, mas os dados estão aumentando porque elas “estão buscando informações e estão denunciando mais os casos de agressões. A desigualdade social enfrentada pela mulher é ainda mais evidente quando se fala da mulher negra.”

Para Angélica Fernandes, secretária de articulação institucional da SPM, o anuário mostra, em um único documento, todos os dados que atestam os problemas enfrentados pela mulher na sociedade brasileira. “Não estamos trazendo novidades aqui, mas estamos dando visibilidade à desigualdade entre homens e mulheres. É importante termos uma mulher como presidente da República, mas a pergunta que fazemos é como estão as outras mulheres no país?”, disse a secretária.

Angélica afirma que as mulheres precisam se unir para ter representatividade nas diversas esferas de poder. “Temos de desenvolver políticas públicas para a mulher, seja no âmbito federal, estadual e municipal. Precisamos de representatividade política feminina nos sindicatos e movimentos sociais.”

Contra desigualdade
A economista do Dieese e coordenadora do anuário, Patrícia Lino Costa, disse que as atividades executadas pelas mulheres atualmente podem se caracterizar como dupla jornada de trabalho. “A mulher trabalha dentro e fora de casa, mas recebe apenas pelo trabalho feito fora de casa. O mercado formal e os afazeres domésticos precisam ser pagos de maneira igual e também com equidade relativa ao mesmo trabalho feito pelos homens.”

Patrícia disse que as mulheres, como parte interessada no desenvolvimento de políticas que diminuam a desigualdade social, precisam atuar diretamente em prol deste objetivo. “Não só as mulheres, mas toda a sociedade precisa caminhar junta para identificar os problemas e buscar as soluções adequadas em busca da igualdade social, seja no trabalho, na relação com a saúde, com a família e na segurança.

Para Raimunda Gomes, a Doquinha, as desigualdades entre homens e mulheres expressas em números já são conhecidas pelo movimento sindical, no entanto a secretária da Mulher Trabalhadora parabeniza a instituição pela construção e divulgação do material. “Os dados que estão contidos nesse documento não são mais novidades para nós, mas o fato do Dieese elaborar um anuário específico com esse recorte de gênero para divulgar junta à sociedade é de grande relevância”, confirma Doquinha.

Para ela, a instituição acertou em cheio na confecção do material. “Agora, cabe a nós reproduzirmos as informações. Porque todas as nossas pautas com relação à desigulades no mundo do trabalho se sustentam através de dados. Um documento elaborado pelo Dieese, um instituto reconhecido nacionalmente, reforça a todos sindicatos a necessidade de se construir uma política de igualdade entre homens e mulheres no mundo do trabalho. Ainda mais neste ano que estamos no debate da PL da Igualdade, que tramita no Congresso Nacional”.

Fonte: Portal CTB

Abandono infantil, fenômeno com gênero

12 de julho de 2011

Helda Martinez*

Tem 20 anos e não sabe quem são seus pais nem se tem irmãos. Aos três anos, Mariana foi entregue na Colômbia a uma família camponesa da qual fugiu aos 14. Perambulou por uma semana, até que a polícia a enviou a um centro de proteção do Estado.

Agora, maior de idade, faz terapia psicológica, trabalha e estuda Administração, “porque no futuro criarei uma instituição de proteção a meninos e meninas abandonados e abusados”, afirmou, com convicção, à IPS.

Mariana, nome fictício que a jovem pediu para usar a fim de preservar sua identidade, conhece bem tudo isso, porque sofreu abuso quando criança. “Tinha sete anos. Eu contava para uma senhora que cuidava de mim, e ela não acreditava”, revelou.

Segundo contaram, ela foi abandonada devido à pobreza dos pais, naturais do departamento de Boyacá, que a deixaram em uma localidade rural perto de Bogotá.

Essa costuma ser a causa comum do abandono infantil, à qual se somam a ignorância, a falta de consciência sobre planejamento familiar e da responsabilidade que representam os filhos, a cultura machista e a violência em suas múltiplas expressões.

Séculos em guerra e quase cinco décadas do atual conflito interno também afetam de maneira especial a sociedade colombiana, vítima de deslocamentos forçados e do consequente desmembramento familiar, de mortes violentas ou de recrutamentos pelos diferentes grupos armados.

No caso das mulheres, soma-se sua utilização como arma ou recompensa de guerra, o que as leva a serem violentadas por membros de todos os grupos que participam do conflito.

Uma situação que motivou, nas duas últimas décadas, pronunciamentos do Tribunal Constitucional colombiano, acompanhamentos da Comissão Interamericana de Direitos Humanos e decisões do Tribunal Interamericano de Direitos Humanos.

Por trás do mapa de abandono há um número obtido pela organização não governamental Educação para a Saúde Reprodutiva com base em um estudo de 2007: na Colômbia, 56% das gestações são indesejadas.

A isso devem ser acrescentados mais dois: em 2009 havia no país 61 mil menores de ambos os sexos acolhidos pelo Instituto Colombiano de Bem-Estar Familiar, que calculou que, além disso, outras 30 mil crianças desamparadas estão nas ruas, em um país com 45,6 milhões de habitantes, 37% deles com menos de 18 anos, segundo dados oficiais.

A esses dois grupos devem ser somados entre seis mil e 11 mil menores, de ambos os sexos, recrutados ilegalmente, de acordo com números que variam segundo as fontes.

“É uma realidade que nos converte em um dos povos mais raivosos do mundo”, disse à IPS o psiquiatra Francisco Cobos, autor de dois livros que se converteram em referência sobre o fenômeno, “Estratégia para uma luta contra o abandono: modelo de atenção integral à criança de rua” e “Psiquiatria da criança, do adolescente e da família”.

“Por quê? Porque a raiva é um sentimento que corresponde à perda de algo que nos é importante. O abandono é perda. Causa raiva, distanciamentos e novos abandonos, em um círculo que não se rompe. Que se sustenta na falta de afeto”, explicou o especialista.

Esta situação atual se cruza, para alguns estudiosos, com a época anterior à chegada de Cristóvão Colombo e dos espanhois à América. “As sociedades indígenas davam mais valor aos meninos, futuros guerreiros”, disse o pediatra e professor de antropologia médica Hugo Sotomayor.

Recorda, nesse sentido, que na fase pré-colombiana entre os povos assentados no atual território colombiano havia “práticas como o infanticídio de meninas até o nascimento de um menino”.

“Ao confrontar o valor que os indígenas davam ao nascimento de meninos com as práticas e crenças espanholas, há semelhanças evidentes”, constata Hugo em publicações da Academia Nacional de Medicina.

“A Casa de Crianças Enjeitadas de Santa Fé de Bogotá informa que (já em 1642) mais meninas eram abandonadas”, comentou o pediatra.

Trata-se de uma história de séculos de vexames contra as mulheres, que teria começado a se romper paulatinamente e de modo silencioso desde meados do Século 20, afirmou Francisco. “É uma revolução que avança quase sem percebermos”, declarou.

“Em meio às dificuldades que continuam enfrentando, as mulheres se apoderam do mundo de uma maneira real, por sua natureza e manejo de sentimentos que nós não conseguimos”, disse.

É a razão, segundo Francisco, para que, “apesar de os maus-tratos deixarem nelas sequelas, medos e dificuldades de relacionamento, também superem as situações difíceis com mais facilidade do que os homens”.

Baseou sua apreciação no que não duvidou em definir como “vulnerabilidade masculina”, agora escondida em expressões machistas, que deixam profundas solidões. “Seres distantes, crianças adultas com pais ausentes”, afirmou.

Explicou, como exemplo, que “se um jovem perde um olho em uma briga, tem mais dificuldade de superar o trauma do que uma mulher diante de uma complexidade. Ele sente a derrota, que reduziu sua macheza”, afirmou Francisco.

É um conjunto de realidades frente às quais, enfatizou o psiquiatra, só a educação dos adultos, para promover mudanças profundas em seus comportamentos com menores, romperia os círculos de abandono e abuso, evidentes em todos os segmentos sociais e que têm muitas expressões, incluída a “dos pais que trabalham muito e deixam os filhos sozinhos”.
Francisco ressalta, ainda, que “a legislação por si só não serve” e que “os órgãos estatais de proteção, que têm sobretudo caráter político, não motivam mudanças reais”.

As opiniões do médico explicam porque Mariana se propõe a criar uma fundação como seu principal objetivo, conseguir qualificações altas na universidade e ter a certeza de sentir-se “uma mulher nova” como resultado da terapia psicológica.
Está convencida de que as meninas sofrem mais o abandono do que os meninos, embora especialistas como Francisco afirmem que “na primeira infância meninos e meninas são igualmente afetados”, e mais adiante processem a situação de maneira diferenciada.

Depois do que viu e viveu, Mariana acredita que “nós somos mais delicadas”. E acrescentou, como que para si mesma: “é triste não ter uma mãe que nos ensine o que fazer quando chega a menstruação, ou como nos proteger de homens que abusam”.

*IPS/Envolverde

Diversidade: a parede de pedras

30 de março de 2011

por Samuel de Freitas Júnior*

A valorização da pluralidade torna a empresa mais preparada a enfrentar as mudanças.

A palavra diversidade, dentre outros significados, representa idéia de pluralidade, multiplicidade, diferentes ângulos de visão ou de abordagem, heterogeneidade, variedade, tolerância e convivência mútua. Tal significado também pode ser transcrito para o mundo corporativo.

Embora o tema a primeira vista pareça ser uma necessidade decorrente da responsabilidade social, mais do que ser eticamente correta, para a empresa, a valorização da pluralidade da força de trabalho a torna mais preparada a enfrentar a variedade de situações impostas pelas rápidas mudanças no comportamento de seus consumidores, da contínua renovação do mercado e das oscilações econômicas do mundo atual.

A fim de dar significância ao tema, trago uma metáfora, que em minha opinião é uma das melhores traduções do tema diversidade para o mercado profissional, extraída do um livro Made in Japan, de 1986, escrito pelo então presidente Akio Morita, que em compara a gestão de pessoas nas empresas japonesas e as americanas daquela época.

Segundo o autor, as companhias americanas parecem estruturas do tipo paredes de tijolos, ao passo que as japonesas são de pedra. As primeiras, que podem ser comparadas a muitas firmas brasileiras de hoje em dia, a partir de um plano de negócios traçado, após definirem os limites para cada operação iniciam a procura para pessoas que se ajustem ao modelo. Caso um determinado candidato seja super ou pouco qualificado para a posição, automaticamente é descartado, de modo que, diz o autor, “essa estrutura é como uma parede de tijolos: a forma de cada empregado deve se ajustar perfeitamente ao conjunto, do contrário, não serve”.

Já no Japão, continua Morita, os candidatos talentosos são contratados, e, à medida que suas habilidades são identificadas, as empresas encontram a melhor forma de aproveitá-los. As pessoas são consideradas pedras brutas, e os gerentes têm a missão de observá-las e “construir uma parede que combine todos os elementos da melhor maneira possível, da mesma forma que um pedreiro constrói uma parede de pedras. As pedras, às vezes, são redondas, quadradas, longas, grandes ou pequenas, mas, de alguma maneira, a gerência tem que encaixá-las bem”.

Como é do conhecimento popular, uma parede de pedras, além de ser mais resistente que uma parede de tijolos, é de melhor adaptabilidade a qualquer tipo de terreno. Por este motivo, seguindo a comparação do ex-presidente da Sony, à medida que os negócios mudam, as pedras são recolocadas em posições diferentes, tanto que o grau dos gerentes e trabalhadores se tornou uma marca registrada nas empresas japonesas.

As empresas devem sempre buscar os melhores profissionais, e encontrar a melhor forma de aproveitá-los, sem, no entanto, simplificar seus objetivos em prol da diversidade. No mundo corporativo de hoje, diversidade, antes de tudo, é sinônimo de qualidade, produtividade e sustentabilidade.

* Mestre em economia pela Universidade Católica de Brasília e gerente de Produto da Área Internacional da Caixa Econômica Federal

Fonte: HSM Online

A arte de seduzir

30 de março de 2011

por Frei Betto*

Toda ditadura é megalômana. E a que governou o Brasil sob botas e fuzis, de 1964 a 1985, não foi diferente. A construção da rodovia Transamazônica simboliza a arrogância do regime militar.

Rasgou-se a selva de leste a oeste. Abriu-se a estrada em paralelo a caudalosas vias fluviais. Em vez de aprimorar o sistema de navegação pelo rio Amazonas e seus afluentes, a ditadura preferiu obrigar a floresta a ajoelhar-se a seus pés. Possantes máquinas puseram abaixo árvores milenares encorpadas de madeiras nobres, destruíram ecossistemas preciosos, alteraram o equilíbrio ecológico da região.

Tudo em nome de uma palavra tão propalada e, no entanto, vazia de significado: desenvolvimento. Leia-se: exploração predatória da maior floresta tropical do mundo, aberta à voracidade de mineradoras, madeireiras e, sobretudo, do latifúndio predador, quase sempre movido a trabalho escravo.

“No meio do caminho havia uma pedra”, repetiria Drummond. Povos indígenas. Como impedir que oferecessem resistência? Simples: através da arte de seduzir. A Funai ergueu tapini (cabanas de folhas). Dentro, utensílios de caça e cozinha, ferramentas etc. Os índios, encantados com os objetos, acolhiam gentilmente os caras-pálidas. E ingenuamente eram cooptados pelas relações mercantilistas. Em troca de bugigangas perdiam saúde, terras, liberdade e vida.

Detalhe: o mato, não o gato, comeu a Transamazônica, fonte de riqueza e poder de umas tantas empreiteiras.

Hoje, os índios somos todos nós. Os tapini, os shopping, a publicidade, as veneráveis bugigangas que nos agregam valor. O inumano imprime sentido ao humano, como faziam os deuses de ouro denunciados pelos profetas bíblicos: tinham boca, mas não falavam; olhos, mas não viam; ouvidos, mas não escutavam; pés, mas não andavam…

Estamos todos somos sob o efeito hipnótico do consumismo. Não importa se o produto é frágil ou de má qualidade. Seu design nos cativa. Sua publicidade nos faz acreditar que estamos comprando a oitava maravilha do mundo! E, ingenuamente, que se trata de um produto durável, mesmo conscientes de que o capitalismo não se importa com o direito do consumidor, e sim com a margem de lucro do produtor.

Como se livrar do labirinto consumista que, na verdade, se consuma nos consumindo? Não vejo outra porta de saída fora da espiritualidade, somada a uma nova visão do mundo. Sem espiritualidade corremos o risco – sobretudo os mais jovens – de dar importância àquilo que não tem. Imbuídos da baixa autoestima que nos incute a publicidade (“você não é ninguém porque não possui este carro, não veste esta roupa, não faz esta viagem…”) encaramos a mercadoria como algo que nos agrega valor. Não basta a camisa, a bolsa ou o tênis. Têm que ser de grife, com a etiqueta exibida do lado de fora. Assim, todos à nossa volta haverão de reconhecer o nosso status. E quiçá invejar-nos. E aquele ser humano que, ao lado, carece de produtos refinados, é visto como não tendo nenhuma importância. Pois não se enquadra no atual princípio pós-cartesiano: “Consumo, logo existo.”

É espiritualizada toda pessoa cujo sentido de vida deita raízes em sua subjetividade e cujas opções são movidas por ideais altruístas. Ela não faz do que possui -conta bancária, títulos, casa, carro etc.- seu fator de autoestima. Sabe que tem valor em si, que não é nutrido pela posse de bens e sim por sua capacidade de fazer o bem aos outros. Sua autoestima se funda na generosidade, solidariedade e compaixão. Ela é feliz porque sabe fazer outras pessoas felizes.

O mercado tudo oferece. Todos os seus produtos nos chegam embrulhados em papel de presente: se compramos este carro, seremos felizes; se bebemos aquela cerveja, nos sentiremos alegres; se adquirimos tal roupa, ficaremos joviais. O único bem que o mercado jamais oferta é justamente este que mais buscamos: a felicidade. No máximo, o mercado tenta nos convencer de que a felicidade é o resultado da soma de prazeres.

Ora, a felicidade é um bem do espírito, jamais dos sentidos, da cobiça ou da arrogância. É feliz quem ousa destampar o próprio ego e conectar-se com o Transcendente, o próximo e a natureza. Esse irromper para fora de si mesmo tem nome: amor. E se manifesta nas dimensões pessoal, no dom de si ao outro, e na social, no empenho de construir um mundo melhor.

* Escritor e assessor de movimentos sociais
Fonte: Adital

Mulheres sujeitos da comunicação em redes, e não meras usuárias

30 de março de 2011

por Mônica Aguiar

Em 2010, das 19.678 solicitações iniciais de apoio à pesquisa apresentada à Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), 42% foram apresentadas por mulheres. O percentual tem crescido continuamente desde 1992, quando foi de 30%. (Folha de S.Paulo) Graciela Natansohn e Karla Brunet estudam cibercultura e feminismo na Universidade Federal da Bahia (labdebug.net).

O desafio, de acordo com artigo escrito pelas estudiosas, é “fazer das mulheres sujeitos da comunicação em redes, e não meras usuárias”. Isso para que os portais dirigidos à mulher deixem de “repetir estereótipos sexistas tradicionais, que remetem a mulher ao lar, às compras, à beleza, à saúde e ao consumo”. Leia trechos do artigo:

“Recentemente, surgiram notícias de que as mulheres lideram no uso de redes sociais como Facebook, Twitter e Orkut. Um dado relevante, que mostra a familiaridade delas com o uso das redes sociais. Ao mesmo tempo, nos questionamos: onde estão as mulheres na liderança nesses serviços de internet?”

“Mesmo um olhar leigo perceberá que a relação entre mulheres e internet não é muito diferente da entre mulheres e mídias tradicionais: a imagem delas é superexplorada para a pornografia e, na maioria das vezes, com viés preconceituoso”. “Do outro lado, portais dirigidos à mulher repetem estereótipos sexistas tradicionais, que remetem a mulher ao lar, às compras, à beleza, à saúde e ao consumo”. “O acesso ao computador é afetado pela pouca inserção feminina em postos de decisão técnica, no desenvolvimento de tecnologias úteis para elas e na produção de conteúdo”.

Tecnologia como aliada

“Há temas mais prioritários na agenda das mulheres, dizem uns: perante a violência, o assédio moral e sexual, os problemas de saúde e moradia, a tecnologia é menor.

Nada mais falso: a Internet é uma excelente ferramenta para que elas possam se defender e se informar”.

“O desafio é fazer das mulheres sujeitos da comunicação em redes, e não meras usuárias. Devem ser agentes ativas nos processos de desenho, aplicação, recepção e avaliação de projetos em rede. E fazer da tecnologia a sua aliada. “

“No bojo da luta pela democratização da comunicação, é preciso – e urgente – que as usuárias de Internet percebam as tecnologias da informação e comunicação com um olhar estratégico, como ferramentas de criação, expressão, produção e fortalecimento individual e das organizações de mulheres.”

FONTE: BLOG MULHER NEGRA

A escravidão feminina

11 de março de 2011

por Maria Berenice Dias*

Para justificar a discriminação contra a mulher Aristóteles chegou a dizer que ela não tinha alma. Assim, como um objeto, não merecia sequer respeito. Era considerada uma mercadoria. Não só para compra, mas também para venda. Basta lembrar o regime dotal, ainda vigorante em alguns países, e que estava previsto na legislação brasileira até o ano de 2003, quando do advento do novo Código Civil. O dote nada mais é do que o pagamento feito pelo pai para alguém casar com sua filha.

Foi árdua a luta para mudar este estado de coisas. A mulher só atingiu a condição de cidadã, em 1932, ao adquirir o direito ao voto. Ainda assim, foram necessários mais 30 anos para que, ao casar, não perdesse a sua plena capacidade. Esta posição degradante, que submetia a vontade da esposa à autorização marital, foi eliminada em 1962, pelo chamado Estatuto da Mulher Casada. Mas ainda continuava o homem sendo o cabeça do casal e o chefe da sociedade conjugal, status que perdeu com a Constituição Federal, que consagrou a igualdade entre homens e mulheres, e isso no ano de 1988.

O acesso da mulher à educação e o seu ingresso no mercado de trabalho – conquistas alcançadas graças ao movimento feminista – não lhe garantiu igualdade nem de salário e nem de oportunidades. Continua percebendo menos do que o homem, ainda que desempenhe igual labor, sendo rarefeita sua presença nos postos de poder.

Os avanços, ainda que significativos no mundo público, não tiveram a mesma repercussão no ambiente doméstico. Nas relações familiares persiste a mulher subjugada ao homem, que se arvora o direito de puni-la toda a vez que ela não corresponde ao modelo de comportamento por ele imposto. A maior prova são os surpreendentes números da violência doméstica que somente foram contabilizados com o advento da Lei Maria da Penha.

Apesar de todos esses ganhos – que não são poucos – o poder de sedução continua sendo o atributo mais valorizado pela mulher. Não é por outro motivo que, quando nasce uma menina, todos passam a torcer que seja bonita. Furam suas orelhas e colam laços de fita em sua cabeça. Ela cresce com o dever de agradar os prováveis candidatos a marido. Nessa luta desenfreada tudo vale. Que o digam as academias de ginástica, as clínicas estéticas e os cirurgiões plásticos.

O físico perfeito é o que corresponde a uma magreza absoluta, com excessos somente em lugares determinados, de modo a tornar as mulheres apetitosas. Daí as inúmeras analogias feitas com frutas: pera, melão, melancia. Uma verdadeira salada de fruta com a única finalidade de serem admiradas por sua performance.

Os programas que se intitulam de humor, sempre trazem mulheres lindas, seminuas, curvilíneas e alvo da cobiça de todos. Ou isso ou mulheres feias e gordas contra as quais todas as agressões são admitidas.

Mas talvez o mais paradoxal sejam os concursos de beleza, que exigem estrita obediência a medidas definidas como ideais. O padrão é tão uniforme que é até difícil distinguir as candidatas que têm a única preocupação de serem reconhecidas mais bela do que as demais.

A erotização feminina é cada vez mais precoce. Já existem concursos de miss para crianças e a moda agora é as meninas comemorarem o aniversário em salões de beleza, sendo as participantes brindadas com sofisticadas produções de penteado e maquiagem.

Ou seja, se de um lado as mulheres avançam na conquista da igualdade, por outo lado querem marcar a diferença por uma competição sem limites com a só finalidade de impressionar e seduzir. Uma verdadeira guerra sem qualquer preocupação em preservar a própria dignidade.

Mas, enquanto as mulheres buscarem conquistar os homens por sua beleza e sexualidade ainda serão suas escravas.

*Advogada

Baile de máscaras

11 de março de 2011

por Rosiska Darcy de Oliveira*

E já que é Carnaval, é tempo de escolher máscaras. Oscar Wilde dizia que a máscara escolhida diz mais sobre alguém que qualquer autobiografia. Percebeu que as autobiografias não são mais que uma sucessão de máscaras que ilustram nossos muitos carnavais.

As máscaras seduzem pelo mistério que desafia a imaginação.
Milenares, por quanto tempo ainda sobreviverão em tempos de Facebook, onde todos mostram a cara, instalando o reino do banal e uma suposta e duvidosa transparência, que tudo revela em tempo real ? Se não aproxima, pelo menos embaralha gente que não se conhece e vai tropeçando nos passos uns dos outros.

Não será o Facebook um baile de máscaras invisíveis? Paradoxal, esse mundo novíssimo e intrigante, instrumento de revoluções libertárias e de enlouquecimento dos ditadores, convive com velhíssimos sentimentos: Pierrôs inconfessos perseguem, na rede, esquivas Colombinas.

A máscara de Colombina que buscava encontrar sua calma dando a Arlequim o seu corpo e a Pierrô sua alma caiu no ostracismo. Quem hoje assumiria o papel do apaixonado, que vivia só cantando e, por causa de uma Colombina, acabou chorando? Ninguém.

O paradigma amoroso em tempos de Facebook é o do Arlequim, seus losangos coloridos que evocam a astúcia de ser múltiplo, sua identidade flex, seu caráter inconstante e enganador, sumindo e reaparecendo onde menos se espera. Sem compromisso ou permanência, regido pelo instante, o mundo virtual tem uma natureza arlequinal. Faltam-lhe, entretanto, a elegância e a galanteria, gestos do Arlequim que foram ficando pelo caminho como confete pisoteado.

A trama virtual inscreve suas leis nas relações de carne e osso. O meio é a mensagem. Me beija que eu não sou Pierrô. Amores deletáveis.

Na concreção das ruas os foliões também descartaram os emblemáticos heróis da Commedia dell’Arte. A máscara feminina mais vendida esse ano foi a de Dilma Roussef. Ex-Colombinas transformadas em Presidentes da República formam um insólito bloco, herdeiro das ruidosas passeatas feministas que, trinta anos atrás, instalaram um inesperado carnaval na ordem amorosa. De lá para cá o bloco esquentou. Haverá folia em Brasília já que, neste ano, o Dia Internacional da Mulher cai na terça-feira gorda. Fantasias, no sentido do desejo, nessa época sempre foram de praxe. Na quarta-feira de cinzas, volta às ruas, como sempre, o bloco ‘Quem sustenta a casa sou eu’.

Esse vem sempre no fim do desfile, sem esplendores nem adereços, envergando uma camiseta modesta e o indefectível blue jeans, Empurra o carro alegórico do País Emergente que Chegou Lá, faz uma força sobre-humana e, no entanto, ninguém aplaude. A concentração é nas filas dos ônibus, nas estações do metrô, na porta das fábricas e escritórios. Tornou-se imenso, incorporou uma importante ala da classe média e vai desfilar ao longo de todo o mandato da Presidente, entoando o refrão do ‘Abre alas que eu quero passar’.

Em todo o Brasil haverá milhões de máscaras de Dilma olhando para Dilma. Pode ser o sonho da popularidade ou o pesadelo de esbarrar em todo canto com o próprio rosto, em outro corpo, metáfora de milhões de vidas que, para bem governar, terá que assumir como suas. Entrar na pele das mulheres brasileiras assim como elas assumem o seu rosto. Nesse pesadelo não há porta de saída, é um eterno confrontar-se a si mesma, um olhar de mil olhos que nunca adormecem.

No teatro grego, as máscaras não eram apenas disfarces, eram caixas de ressonância para melhor fazer ouvir os sentimentos, tragédia ou comédia. As modestas máscaras de papel, que o mulherio pobre compra nos camelôs, não tem ressonância nenhuma mas dizem alguma coisa que, até hoje, ninguém ouviu e caiu no vazio. Agora, elas esperam da presidente o papel de porta estandarte.

O enredo que Dilma anuncia desde que envergou a faixa verde e amarela é o da erradicação da miséria extrema. Essa tem o rosto de uma mulher negra que leva pela mão seus muitos filhos. As pesquisas e estatísticas são taxativas. É o bloco do ‘Lata d’água na cabeça’, das que sobem o morro e não se cansam e pela mão levam a criança.

“Lata d água na cabeça “ foi a marchinha campeã de 1952, cantada por Marlene, então Rainha do Carnaval. Contava a história de Maria que subia o morro, lutando pelo pão de cada dia, sonhando com a vida do asfalto que acaba onde o morro principia. É ela que, há quase sessenta anos, povoa as estatísticas da miséria extrema. Ou a Presidente tira o atraso e dissolve esse bloco ou perde o passo e deixa cair o estandarte.

* Escritora