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A arte de seduzir

30 de março de 2011

por Frei Betto*

Toda ditadura é megalômana. E a que governou o Brasil sob botas e fuzis, de 1964 a 1985, não foi diferente. A construção da rodovia Transamazônica simboliza a arrogância do regime militar.

Rasgou-se a selva de leste a oeste. Abriu-se a estrada em paralelo a caudalosas vias fluviais. Em vez de aprimorar o sistema de navegação pelo rio Amazonas e seus afluentes, a ditadura preferiu obrigar a floresta a ajoelhar-se a seus pés. Possantes máquinas puseram abaixo árvores milenares encorpadas de madeiras nobres, destruíram ecossistemas preciosos, alteraram o equilíbrio ecológico da região.

Tudo em nome de uma palavra tão propalada e, no entanto, vazia de significado: desenvolvimento. Leia-se: exploração predatória da maior floresta tropical do mundo, aberta à voracidade de mineradoras, madeireiras e, sobretudo, do latifúndio predador, quase sempre movido a trabalho escravo.

“No meio do caminho havia uma pedra”, repetiria Drummond. Povos indígenas. Como impedir que oferecessem resistência? Simples: através da arte de seduzir. A Funai ergueu tapini (cabanas de folhas). Dentro, utensílios de caça e cozinha, ferramentas etc. Os índios, encantados com os objetos, acolhiam gentilmente os caras-pálidas. E ingenuamente eram cooptados pelas relações mercantilistas. Em troca de bugigangas perdiam saúde, terras, liberdade e vida.

Detalhe: o mato, não o gato, comeu a Transamazônica, fonte de riqueza e poder de umas tantas empreiteiras.

Hoje, os índios somos todos nós. Os tapini, os shopping, a publicidade, as veneráveis bugigangas que nos agregam valor. O inumano imprime sentido ao humano, como faziam os deuses de ouro denunciados pelos profetas bíblicos: tinham boca, mas não falavam; olhos, mas não viam; ouvidos, mas não escutavam; pés, mas não andavam…

Estamos todos somos sob o efeito hipnótico do consumismo. Não importa se o produto é frágil ou de má qualidade. Seu design nos cativa. Sua publicidade nos faz acreditar que estamos comprando a oitava maravilha do mundo! E, ingenuamente, que se trata de um produto durável, mesmo conscientes de que o capitalismo não se importa com o direito do consumidor, e sim com a margem de lucro do produtor.

Como se livrar do labirinto consumista que, na verdade, se consuma nos consumindo? Não vejo outra porta de saída fora da espiritualidade, somada a uma nova visão do mundo. Sem espiritualidade corremos o risco – sobretudo os mais jovens – de dar importância àquilo que não tem. Imbuídos da baixa autoestima que nos incute a publicidade (“você não é ninguém porque não possui este carro, não veste esta roupa, não faz esta viagem…”) encaramos a mercadoria como algo que nos agrega valor. Não basta a camisa, a bolsa ou o tênis. Têm que ser de grife, com a etiqueta exibida do lado de fora. Assim, todos à nossa volta haverão de reconhecer o nosso status. E quiçá invejar-nos. E aquele ser humano que, ao lado, carece de produtos refinados, é visto como não tendo nenhuma importância. Pois não se enquadra no atual princípio pós-cartesiano: “Consumo, logo existo.”

É espiritualizada toda pessoa cujo sentido de vida deita raízes em sua subjetividade e cujas opções são movidas por ideais altruístas. Ela não faz do que possui -conta bancária, títulos, casa, carro etc.- seu fator de autoestima. Sabe que tem valor em si, que não é nutrido pela posse de bens e sim por sua capacidade de fazer o bem aos outros. Sua autoestima se funda na generosidade, solidariedade e compaixão. Ela é feliz porque sabe fazer outras pessoas felizes.

O mercado tudo oferece. Todos os seus produtos nos chegam embrulhados em papel de presente: se compramos este carro, seremos felizes; se bebemos aquela cerveja, nos sentiremos alegres; se adquirimos tal roupa, ficaremos joviais. O único bem que o mercado jamais oferta é justamente este que mais buscamos: a felicidade. No máximo, o mercado tenta nos convencer de que a felicidade é o resultado da soma de prazeres.

Ora, a felicidade é um bem do espírito, jamais dos sentidos, da cobiça ou da arrogância. É feliz quem ousa destampar o próprio ego e conectar-se com o Transcendente, o próximo e a natureza. Esse irromper para fora de si mesmo tem nome: amor. E se manifesta nas dimensões pessoal, no dom de si ao outro, e na social, no empenho de construir um mundo melhor.

* Escritor e assessor de movimentos sociais
Fonte: Adital

Mulheres sujeitos da comunicação em redes, e não meras usuárias

30 de março de 2011

por Mônica Aguiar

Em 2010, das 19.678 solicitações iniciais de apoio à pesquisa apresentada à Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), 42% foram apresentadas por mulheres. O percentual tem crescido continuamente desde 1992, quando foi de 30%. (Folha de S.Paulo) Graciela Natansohn e Karla Brunet estudam cibercultura e feminismo na Universidade Federal da Bahia (labdebug.net).

O desafio, de acordo com artigo escrito pelas estudiosas, é “fazer das mulheres sujeitos da comunicação em redes, e não meras usuárias”. Isso para que os portais dirigidos à mulher deixem de “repetir estereótipos sexistas tradicionais, que remetem a mulher ao lar, às compras, à beleza, à saúde e ao consumo”. Leia trechos do artigo:

“Recentemente, surgiram notícias de que as mulheres lideram no uso de redes sociais como Facebook, Twitter e Orkut. Um dado relevante, que mostra a familiaridade delas com o uso das redes sociais. Ao mesmo tempo, nos questionamos: onde estão as mulheres na liderança nesses serviços de internet?”

“Mesmo um olhar leigo perceberá que a relação entre mulheres e internet não é muito diferente da entre mulheres e mídias tradicionais: a imagem delas é superexplorada para a pornografia e, na maioria das vezes, com viés preconceituoso”. “Do outro lado, portais dirigidos à mulher repetem estereótipos sexistas tradicionais, que remetem a mulher ao lar, às compras, à beleza, à saúde e ao consumo”. “O acesso ao computador é afetado pela pouca inserção feminina em postos de decisão técnica, no desenvolvimento de tecnologias úteis para elas e na produção de conteúdo”.

Tecnologia como aliada

“Há temas mais prioritários na agenda das mulheres, dizem uns: perante a violência, o assédio moral e sexual, os problemas de saúde e moradia, a tecnologia é menor.

Nada mais falso: a Internet é uma excelente ferramenta para que elas possam se defender e se informar”.

“O desafio é fazer das mulheres sujeitos da comunicação em redes, e não meras usuárias. Devem ser agentes ativas nos processos de desenho, aplicação, recepção e avaliação de projetos em rede. E fazer da tecnologia a sua aliada. “

“No bojo da luta pela democratização da comunicação, é preciso – e urgente – que as usuárias de Internet percebam as tecnologias da informação e comunicação com um olhar estratégico, como ferramentas de criação, expressão, produção e fortalecimento individual e das organizações de mulheres.”

FONTE: BLOG MULHER NEGRA

Baile de máscaras

11 de março de 2011

por Rosiska Darcy de Oliveira*

E já que é Carnaval, é tempo de escolher máscaras. Oscar Wilde dizia que a máscara escolhida diz mais sobre alguém que qualquer autobiografia. Percebeu que as autobiografias não são mais que uma sucessão de máscaras que ilustram nossos muitos carnavais.

As máscaras seduzem pelo mistério que desafia a imaginação.
Milenares, por quanto tempo ainda sobreviverão em tempos de Facebook, onde todos mostram a cara, instalando o reino do banal e uma suposta e duvidosa transparência, que tudo revela em tempo real ? Se não aproxima, pelo menos embaralha gente que não se conhece e vai tropeçando nos passos uns dos outros.

Não será o Facebook um baile de máscaras invisíveis? Paradoxal, esse mundo novíssimo e intrigante, instrumento de revoluções libertárias e de enlouquecimento dos ditadores, convive com velhíssimos sentimentos: Pierrôs inconfessos perseguem, na rede, esquivas Colombinas.

A máscara de Colombina que buscava encontrar sua calma dando a Arlequim o seu corpo e a Pierrô sua alma caiu no ostracismo. Quem hoje assumiria o papel do apaixonado, que vivia só cantando e, por causa de uma Colombina, acabou chorando? Ninguém.

O paradigma amoroso em tempos de Facebook é o do Arlequim, seus losangos coloridos que evocam a astúcia de ser múltiplo, sua identidade flex, seu caráter inconstante e enganador, sumindo e reaparecendo onde menos se espera. Sem compromisso ou permanência, regido pelo instante, o mundo virtual tem uma natureza arlequinal. Faltam-lhe, entretanto, a elegância e a galanteria, gestos do Arlequim que foram ficando pelo caminho como confete pisoteado.

A trama virtual inscreve suas leis nas relações de carne e osso. O meio é a mensagem. Me beija que eu não sou Pierrô. Amores deletáveis.

Na concreção das ruas os foliões também descartaram os emblemáticos heróis da Commedia dell’Arte. A máscara feminina mais vendida esse ano foi a de Dilma Roussef. Ex-Colombinas transformadas em Presidentes da República formam um insólito bloco, herdeiro das ruidosas passeatas feministas que, trinta anos atrás, instalaram um inesperado carnaval na ordem amorosa. De lá para cá o bloco esquentou. Haverá folia em Brasília já que, neste ano, o Dia Internacional da Mulher cai na terça-feira gorda. Fantasias, no sentido do desejo, nessa época sempre foram de praxe. Na quarta-feira de cinzas, volta às ruas, como sempre, o bloco ‘Quem sustenta a casa sou eu’.

Esse vem sempre no fim do desfile, sem esplendores nem adereços, envergando uma camiseta modesta e o indefectível blue jeans, Empurra o carro alegórico do País Emergente que Chegou Lá, faz uma força sobre-humana e, no entanto, ninguém aplaude. A concentração é nas filas dos ônibus, nas estações do metrô, na porta das fábricas e escritórios. Tornou-se imenso, incorporou uma importante ala da classe média e vai desfilar ao longo de todo o mandato da Presidente, entoando o refrão do ‘Abre alas que eu quero passar’.

Em todo o Brasil haverá milhões de máscaras de Dilma olhando para Dilma. Pode ser o sonho da popularidade ou o pesadelo de esbarrar em todo canto com o próprio rosto, em outro corpo, metáfora de milhões de vidas que, para bem governar, terá que assumir como suas. Entrar na pele das mulheres brasileiras assim como elas assumem o seu rosto. Nesse pesadelo não há porta de saída, é um eterno confrontar-se a si mesma, um olhar de mil olhos que nunca adormecem.

No teatro grego, as máscaras não eram apenas disfarces, eram caixas de ressonância para melhor fazer ouvir os sentimentos, tragédia ou comédia. As modestas máscaras de papel, que o mulherio pobre compra nos camelôs, não tem ressonância nenhuma mas dizem alguma coisa que, até hoje, ninguém ouviu e caiu no vazio. Agora, elas esperam da presidente o papel de porta estandarte.

O enredo que Dilma anuncia desde que envergou a faixa verde e amarela é o da erradicação da miséria extrema. Essa tem o rosto de uma mulher negra que leva pela mão seus muitos filhos. As pesquisas e estatísticas são taxativas. É o bloco do ‘Lata d’água na cabeça’, das que sobem o morro e não se cansam e pela mão levam a criança.

“Lata d água na cabeça “ foi a marchinha campeã de 1952, cantada por Marlene, então Rainha do Carnaval. Contava a história de Maria que subia o morro, lutando pelo pão de cada dia, sonhando com a vida do asfalto que acaba onde o morro principia. É ela que, há quase sessenta anos, povoa as estatísticas da miséria extrema. Ou a Presidente tira o atraso e dissolve esse bloco ou perde o passo e deixa cair o estandarte.

* Escritora

Nações Unidas celebram lançamento histórico da nova organização ONU Mulheres

1 de março de 2011

A ONU celebrou, a 24 de Fevereiro, o lançamento histórico da sua organização mais recente, a ONU Mulheres, num evento na Assembleia Geral da ONU, em que participaram políticos e destacadas personalidades da comunidade empresarial e do mundo dos meios de comunicação, da música e do cinema.

A ONU Mulheres, formalmente denominada Entidade para a a Igualdade de Género e o Empoderamento das Mulheres, representa a fusão de quatro órgãos anteriores e constitui esforço mais ambicioso de sempre das Nações Unidas para acelarar as acções em prol da igualdade do género. Em todo o mundo, os defensores dos direitos das mulheres anunciaram o seu lançamento.

“Com o nascimento da ONU Mulheres, saudamos um novo agente poderoso de progressos no domínio da igualdade de género e do empoderamento das mulheres”, afirmou o Secretário-Geral Ban Ki-moon. “Os desafios são grandes, mas estou convencido de que, com a nova energia, a nova dinâmica e a nova autoridade da ONU Mulheres, os venceremos. A verdadeira igualdade de género será o nosso legado comum ao século XXI”.

O Secretário-Geral nomeou a antiga presidente chilena Michelle Bachelet para o cargo de Directora Executiva da ONU Mulheres. Considerando que o lançamento era a primeira de várias etapas decisivas na procura mundial da igualdade de género, Michelle Bachelet, sublinhou que a decisão de criar a nova entidade revela a frustração geral em relação à lentidão das mudanças. Os Estados-membros da ONU acordaram, por unanimidade, em criar a nova organização, na sequência da mobilização de longa data dos militantes a favor das mulheres.

“Pensem no que será possível fazer quando as mulheres estiverem plenamente autonomizadas como agentes activos de mudança e de progresso no seio das suas comunidades”, explicou Michelle Bachelet. “Historicamente, estamos num período de grande potencial e grandes mudanças para as mulheres. É agora que devemos aproveitar a oportunidade para agir”.

“A minha experiência ensinou-me que não existem limites ao que a mulher é capaz de fazer”, acrescentou.

A ONU Mulheres irá ajudar os países a avançarem na direcção da igualdade de género nos planos económico e político e a pôr termo ao fenómeno mundial da violência contra as mulheres. Ajudará a definir normas internacionais e a orientar os esforços coordenados das Nações Unidas para colocar as questões das mulheres e das crianças no cerne de todos os seus programas a favor do desenvolvimento e da paz.

Nicole Kidman, Embaixadora da Boa Vontade da ONU Mulheres e laureada com um Prémio da Academia, descreve a sua experiência pessoal de ter visto mulheres mudarem o mundo. “Há testemunhos incríveis de resistência, força e dignidade e, em última análise, de esperança”, afirma. “É por isso que digo que as mulheres e as crianças que conheci são as minhas heroínas. É com prazer e orgulho que estou ao lado da ONU Mulheres, o novo porta-voz das mulheres em todo o mundo.”

Sua Alteza Real a Infanta Dona Cristina de Espanha, como Presidente do Instituto de Saúde de Barcelona, considera que é urgente compreender que investir nas mulheres é investir nas famílias, nas comunidades e nas nações. Citando os progressos desiguais em certos Objectivos de Desenvolvimento do Milénio (ODM), como a redução da mortalidade materna, apela a “todas as partes interessadas e responsáveis – governos, fundações, sector privado, sociedade, instituições académicas, e indivíduos – para que invistam no empoderamento das mulheres como instrumento estratégico para atingir os ODM.”

A apresentadora Christiane Amanpour será a Mestre de Cerimónias. Participarão como oradores Joseph Deiss, Presidente da Assembleia Geral da ONU; a Embaixadora Joy Ogwu, Presidente do Conselho Directivo da ONU Mulheres e antiga Ministra dos Negócios Estrangeiros da Nigéria, a activista nepalesa Bandana Rana e Rakhi Sahi, ex- Comandante da Unidade de Polícia Libéria formada unicamente por mulheres.

Ted Turner, fundador da CNN e Presidente da Fundação das Nações Unidas, pede aos homens e ao sector privado que se envovam na realização da igualdade de género. A actriz Geena Davis destaca a importância do papel dos meios de comunicação na promoção de imagens positivas. A cantora Shakira dirige uma mensagem em que salienta a importância da educação.

O programa terminou com a interpretação da música “One Woman” (Uma Mulher), que foi escrita para esta ocasião, com letra de Beth Blatt e música da autoria de Graham Lyle e Clay.

Fonte: ONU Mulheres comunicado de imprensa difundido em 24/02/2011

ONU pede ação afirmativa pró-mulher árabe

23 de fevereiro de 2011

Estudo do PNUD sugere que mundo árabe adote temporariamente medidas que ajudem as mulheres a superar a discriminação.

Os países árabes devem implementar temporariamente ações afirmativas que ajudem as mulheres a atingir condições de vida semelhantes às dos homens, defende o Relatório de Desenvolvimento Humano Árabe, lançado na quinta-feira pelo PNUD. O documento, que aponta a discriminação contra a mulher como o maior desafio para o desenvolvimento da região, mostra que a população feminina árabe tem menor acesso à educação, emprego, saúde e direitos civis. O estudo ainda diz que não é o islamismo a causa do problema, mas sim a inflexibilidade política, a dominação masculina e a guerra.

O relatório, intitulado Rumo à Ascensão das Mulheres no Mundo Árabe, afirma que a taxa de mortalidade materna na região chegou a um nível “inaceitável”. Atualmente, os Estados árabes registram 270 mortes de mães para cada 100 mil bebês nascidos, mas esse número chega a 1 mil mortes por 100 mil bebês nos países mais pobres. No Brasil, o indicador mais recente (de 2003) aponta taxa de 51,74. O estudo ainda destaca que menos de 80% das garotas não chegam ao ensino médio e que metade das mulheres são analfabetas. Mas existem exceções: na Tunísia, na Jordânia e nos territórios palestinos há mais meninas que meninos nas escolas.

No que se refere à representação política, o relatório destaca que o sistema de cotas nas eleições adotado por alguns países árabes ajudou a aumentar a participação da população feminina no governo. No Iraque, por exemplo, a participação de mulheres no parlamento atingiu 25% nas eleições de 2005. No Marrocos, essa proporção subiu de 1%, em 1995, para 11%, em 2003. Mas ainda existem países onde as mulheres não têm vez nas decisões políticas. Na Arábia Saudita e nos Emirados Árabes Unidos, apenas os homens votam.

Mudar esse quadro e implementar políticas para colocar as mulheres no mesmo patamar de desenvolvimento dos homens é fundamental para garantir o avanço dos países árabes, de acordo com o administrador do PNUD, Kemal Dervis. “Desenvolvimento humano requer mais que crescimento econômico sozinho. A luta contra a pobreza não é uma campanha de caridade — é uma missão de empoderamento. Isso é especialmente verdade para as mulheres, já que, do 1 bilhão de pessoas mais pobres do mundo, três quintos são mulheres e meninas”, declarou.

Além desvencilhar os movimentos islâmicos da forte opressão exercida sobre as mulheres árabes, o relatório destaca que esses movimentos têm se transformado significativamente e que, em muitos casos, eles estão na vanguarda do empoderamento das mulheres.

Fonte: www.pnud.org.br

Curso treina juiz do Iraque a julgar mulher

23 de fevereiro de 2011

Com apoio do PNUD, governo do país asiático desenvolve programa de capacitação para sensibilizar magistrados sobre os direitos femininos
O PNUD já treinou, neste ano, mais de 400 juízes do Iraque num programa que busca sensibilizá-los sobre as normas nacionais e internacionais relativas aos direitos da mulher. Foram 23 cursos em janeiro, estruturados com o objetivo de promover a Justiça e melhorar a eficiência das investigações em geral no país.

Pesquisas realizadas entre 2006 e 2009 por agências da ONU em parceria com o governo iraquiano apontam que uma em cada cinco mulheres de 15 a 49 anos já foi agredida fisicamente por seus maridos, 14% delas durante a gravidez. Os números, no entanto, podem ser mais altos, pois a quantidade de denúncias contra esse tipo de violência costuma ser baixa devido ao temor das iraquianas de ficarem estigmatizadas socialmente e de que as reclamações não sejam investigadas pelas autoridades.

“A situação da segurança no Iraque afetou em maior grau os grupos vulneráveis. No que se refere à situação da mulher, tememos que, em vez de melhorar, as condições tenham piorado desde 2003 [quando houve a invasão das tropas lideradas pelos Estados Unidos, que culminou na queda do presidente Saddam Hussein]”, afirma Helen Olafsdottir, assessora do PNUD para recuperação e prevenção de crises no país asiático.

Os cursos idealizados pelo PNUD em conjunto com o governo iraquiano são realizados em Bagdá, Erbil (norte) e Basra (sul) e não tratam somente de violência de gênero. Abordam também a igualdade entre homens e mulheres, mediações de conflitos, direito processual, investigações imparciais e justas, luta anticorrupção e direitos humanos e familiares, entre outros temas.

Fonte: www.pnud.org.br

Grande Brasil: veredas

12 de janeiro de 2011

Rosiska Darcy de Oliveira*

“O que a vida quer da gente é coragem“. Guimarães Rosa, que sabia que viver é muito perigoso, escreveu que a vida aperta e afrouxa, esquenta e esfria. A presidenta do Brasil escolheu citar essa passagem como uma espécie de resumo da sua trajetória. Das mãos dos torturadores ao Palácio da Alvorada a presidenta sabe bem do que fala.

Que bálsamo encontrar Rosa em um discurso de posse! Ele veio no fim, depois da travessia do grande sertão que é o programa de governo, os conflitos não ditos e os enfáticos compromissos, confirmando o renome de competência técnica.

Pequenas frases terão passado despercebidas, relegadas à retórica impertinente. Não são. Pertencem a uma outra esfera, imaterial, metapolítica. São elas que me interessam aqui, essas veredas que indicam uma direção inesperada e que deram à fala da presidenta, em alguns momentos, um élan que provem menos das sugestões de uma boa assessoria do que de algum recôndito lugar, talvez da memória, onde foi buscar o que de fato lhe pertence.

“Mulher não é só coragem, é carinho também“. Coragem e carinho sustentando a fala de quem anuncia a intenção de honrar as mulheres. Boa notícia para a gente brasileira que já conheceu tanta covardia e maus tratos.

A dimensão do sonho no discurso da presidenta, conhecida por seu senso prático e resolutivo, tampouco é irrelevante. Sonhar uma democracia moderna, garantidas as liberdades políticas, de expressão e de imprensa, já seria auspicioso. Melhor se vivida na clave da cultura brasileira, a generosidade, a criatividade e a tolerância, apostando na ousadia e invenção, para além da “cautela racional”. A vida é sonho, disse o grande Calderón. Quem não é capaz de sonhar não merece o poder. Quem só é capaz disso, também não.

Reconhecer nos traços da identidade cultural brasileira instrumentos para a construção do futuro pode facilitar e muito sua tarefa. Porque não é só com o mensurável, com os números da economia – essenciais, é certo – que se constrói um país. Não se trata de ingenuidade, mas de considerar outras variáveis. Pertencimento e participação são a liga do bom governo.

Governar é muito perigoso. Governar não é coisa só para o governo. Foi bom ouvir que o destino do Brasil – o nosso, afinal – será o que fizermos todos e não apenas os funcionários de Brasília ou os crentes de um só partido.

O Brasil no mundo, se de fato se compromete com direitos humanos – “bandeira sagrada de todos os povos” – deixa para trás os tempos de afagos no companheiro Ahmadinejad. Se não espera pelos outros e se perde em picuinhas para dotar-se de uma política efetiva de preservação ambiental, mas o faz porque é compromisso universal, ganha liderança na mais aguda e significativa crise global. Valores, mais que realpolitik, podem ser bons conselheiros.

Dilma despertou esperanças. Esperança não é um sentimento passivo, é parte ativa da realidade que se quer construir, desse acervo imaterial que é tão decisivo na história das nações. Um discurso não faz milagres. As esperanças que despertou estavam latentes.

Fica a perplexidade: como cumprir essa coragem e exercer o carinho pelo povo com o ministério que escolheu ou que lhe impuseram goela abaixo? Entre a limpidez do discurso e a mediocridade da foto oficial, salpicada de carcomidos, cai-se no abismo da dúvida. Sua democracia moderna já vem com cheiro de mofo. ”Daí, de repente, quem mandava em mim já eram os meus avessos”.

A história é bem conhecida. A vitória tem o preço da composição partidária e a conta costuma ser salgada. Há quem veja nisto a fatalidade do jogo da política. Um outro olhar enxerga aí um beco sem saída em que a democracia é assaltada. Literalmente. Postos e nomeações são o butim. “A gente quer passar um rio a nado, e passa, mas vai dar na outra banda em um ponto mais embaixo, do que em primeiro se pensou. Viver nem não é muito perigoso?”

Para honrar sua palavra de mulher, Dilma vai ter que enfrentar este paradoxo da vitória que ameaça derrotá-la. Coragem não lhe falta. Tomara que não falte a inventividade que prometeu, aplicando-a para escapar desse impasse. “O mais importante e bonito do mundo é isso: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas, mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam”.

Desejo-lhe, neste início de mandato, que vá sempre mudando e não desafine. Que continue lendo e relendo o Grande Sertão e continue a falar em carinho porque ”qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura”. Que Rosa a acompanhe.

*Escritora – rosiska.darcy@uol.com.br

Presidenta, sim!

12 de janeiro de 2011

Marcos Bagno*

Dilma Rousseff adotou a forma PRESIDENTA, oficializou essa forma em todas as instâncias do governo e deixou claro que é assim que deseja ser chamada.

Se uma mulher e seu cachorro estão atravessando a rua e um motorista embriagado atinge essa senhora e seu cão, o que vamos encontrar no noticiário é o seguinte: “Mulher e cachorro são atropelados por motorista bêbado”. Não é impressionante? Basta um cachorro para fazer sumir a especificidade feminina de uma mulher e jogá-la dentro da forma supostamente “neutra” do masculino. Se alguém tem um filho e oito filhas, vai dizer que tem nove filhos. Quer dizer que a língua é machista? Não, a língua não é machista, porque a língua não existe: o que existe são falantes da língua, gente de carne e osso que determina os destinos do idioma. E como os destinos do idioma, e da sociedade, têm sido determinados desde a pré-história pelos homens, não admira que a marca desse predomínio masculino tenha sido inscrustada na gramática das línguas.

Somente no século XX as mulheres puderam começar a lutar por seus direitos e a exigir, inclusive, que fossem adotadas formas novas em diferentes línguas para acabar com a discriminação multimilenar. Em francês, as profissões, que sempre tiveram forma exclusivamente masculina, passaram a ter seu correspondente feminino, principalmente no francês do Canadá, país incomparavelmente mais democrático e moderno do que a França. Em muitas sociedades desapareceu a distinção entre “senhorita” e “senhora”, já que nunca houve forma específica para o homem não casado, como se o casamento fosse o destino único e possível para todas as mulheres. É claro que isso não aconteceu em todo o mundo, e muitos judeus continuam hoje em dia a rezar a oração que diz “obrigado, Senhor, por eu não ter nascido mulher”.

Agora que temos uma mulher na presidência da República, e não o tucano com cara de vampiro que se tornou o apóstolo da direita mais conservadora, vemos que o Brasil ainda está longe da feminização da língua ocorrida em outros lugares. Dilma Rousseff adotou a forma presidenta, oficializou essa forma em todas as instâncias do governo e deixou claro que é assim que deseja ser chamada. Mas o que faz a nossa “grande imprensa”? Por decisão própria, com raríssimas exceções, como Carta Capital, decide usar única e exclusivamente presidente. E chovem as perguntas das pessoas que têm preguiça de abrir um dicionário ou uma boa gramática: é certo ou é errado? Os dicionários e as gramáticas trazem, preto no branco, a forma presidenta. Mas ainda que não trouxessem, ela estaria perfeitamente de acordo com as regras de formação de palavras da língua.

Assim procederam os chilenos com a presidenta Bachelet, os nicaraguenses com a presidenta Violeta Chamorro, assim procedem os argentinos com a presidenta Cristina K. e os costarricenses com a presidenta Laura Chinchilla Miranda. Mas aqui no Brasil, a “grande mídia” se recusa terminantemente a reconhecer que uma mulher na presidência é um fato extraordinário e que, justamente por isso, merece ser designado por uma forma marcadamente distinta, que é presidenta. O bobo-alegre que desorienta a Folha de S.Paulo em questões de língua declarou que a forma presidenta ia causar “estranheza nos leitores”. Desde quando ele conhece a opinião de todos os leitores do jornal? E por que causaria estranheza aos leitores se aos eleitores não causou estranheza votar na presidenta?

Como diria nosso herói Macunaíma: “Ai, que preguiça…” Mas de uma coisa eu tenho sérias desconfianças: se fosse uma candidata do PSDB que tivesse sido eleita e pedisse para ser chamada de presidenta, a nossa “grande mídia” conservadora decerto não hesitaria em atender a essa solicitação. Ou quem sabe até mesmo a candidata verde por fora e azul por dentro, defensora de tantas ideias retrógradas, seria agraciada com esse obséquio se o pedisse. Estranheza? Nenhuma, diante do que essa mesma imprensa fez durante a campanha. É a exasperação da mídia, umbilicalmente ligada às camadas dominantes, que tenta, nem que seja por um simples -e no lugar de um -a, continuar sua torpe missão de desinformação e distorção da opinião pública.

* Professor de Linguística na Universidade de Brasília

Violência contra as mulheres

11 de janeiro de 2011

Rodrigo Puggina*

Recentemente, a Organização das Nações Unidas – ONU alertou mundialmente para o alto índice de mulheres que são constantemente surradas, abusadas ou forçadas a manter relações sexuais por algum companheiro ou membro da família. O número apresentado pelo vice-presidente do Comitê para a Eliminação da Discriminação Contra as Mulheres – ONU é de que um terço de todas as mulheres no mundo já passaram ou passam por isso. Sim, um terço de toda a população feminina. Uma a cada três mulheres passa ou já passou por isso.

Como homem, fico envergonhado de saber que isso possa continuar acontecendo em pleno século XXI, e que tenham tantos homens que coagem mulheres desta forma (se é que podemos chamar alguém que faz isso de homem) O alerta da ONU informa que a violência sexual tem aumentado em todo o planeta, apesar das campanhas e organizações que combatem esse tipo de violência.

A permissividade com que alguns países tratam esta questão, ou mesmo a impunidade, tem sido um dos grandes motivos para não auxiliar no combate à violência contra mulheres, em especial a violência sexual. Temos situações que nos fazem pensar se vivemos, realmente, em países de um mesmo planeta. Para que tenhamos idéia de uma dessas situações, em algumas partes do mundo, caso o agressor aceite casar com a vítima, as acusações de estupro podem simplesmente ser invalidadas. Isso sem falar na constante exploração sexual de crianças e adolescentes, com milhões sendo vendidas para o mercado sexual. Meninas de 5 a 15 anos vendidas para algo que não pode ser mais odioso.

Apesar de termos mecanismo contra isso, continuamos a conviver diariamente com situações como essas. A Convenção para a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Contra a Mulher, datada de 1979, ainda não foi assinada por somente três países (Irã, Sudão e Estados Unidos). Apesar disso, são poucos os governos que, de fato, adotam políticas e programam medidas para que isso não continue a acontecer e a diminuir ainda mais os índices de violência contra a mulher. Até quando a humanidade vai continuar permitindo isto?

*Advogado

Mulher, democracia e desenvolvimento

10 de janeiro de 2011

Flavia Piovesan* e Silvia Pimentel**

Que a eleição de Dilma, nossa primeira presidente, e a composição de seu ministério tragam o empoderamento das mulheres brasileiras

“Pela decisão soberana do povo, hoje será a primeira vez que a faixa presidencial cingirá no ombro de uma mulher. (…) A valorização da mulher melhora a nossa sociedade e valoriza nossa democracia.”

Assim a presidente Dilma inaugurou o seu discurso de posse, enfatizando que sua luta mais obstinada será pela erradicação da pobreza. A presidente brasileira soma-se às 11 mulheres chefes de governo, considerando 192 países.

O Brasil situa-se no 81º lugar no ranking de desigualdade entre homens e mulheres de 134 países, tendo como indicadores o acesso à educação e à saúde e a participação econômica e política das mulheres (relatório Global Gender Gap).

O estudo conclui que nenhum país do mundo trata de forma absolutamente igualitária homens e mulheres. Os países nórdicos revelam a menor desigualdade de gênero -despontando Noruega, Suécia e Finlândia nos primeiros lugares do ranking-, enquanto os países árabes têm os piores indicadores.

Se comparada com outros países latino-americanos, como a Argentina (24º lugar) e o Peru (44º lugar), preocupante mostra-se a performance brasileira, explicada, sobretudo, pela reduzida participação política de mulheres.

Ainda que no acesso à educação e à saúde o Brasil ostente um dos melhores indicadores de nossa região, quanto à participação política atingimos a constrangedora 114ª posição, muito distante das posições argentina (14ª), chilena (26ª) ou mesmo peruana (33ª).

Ao longo da história, atribuiu-se às mulheres a esfera privada -os cuidados com o marido, com os filhos e com os afazeres domésticos -, enquanto aos homens foi confiada a esfera pública.

Nas últimas três décadas, no entanto, houve a crescente democratização do domínio público, com a significativa participação de mulheres, ainda remanescendo o desafio de democratizar o domínio privado -o que não só permitiria o maior envolvimento de homens na vivência familiar, com um grande ganho aos filhos(as), mas também possibilitaria a maior participação política de mulheres.

No mercado de trabalho, para as mesmas profissões e níveis educacionais, as mulheres brasileiras ganham cerca de 30% a menos do que os homens. Para José Pastore, “além das diferenças de renda, as mulheres enfrentam uma situação desfavorável na divisão das tarefas domésticas. Os maridos brasileiros dedicam, em média, apenas 0,7 hora de seu dia ao trabalho do lar. As mulheres que trabalham fora põem quatro horas diárias”.

Se hoje há no mundo 1 bilhão de analfabetos adultos, dois terços são mulheres. Consequentemente, 70% das pessoas que vivem na pobreza também o são -daí a feminização da pobreza. Garantir o empoderamento de mulheres é condição essencial para avançar no desenvolvimento. Os países que apresentam a menor desigualdade de gênero são justamente os mesmos que ostentam o maior índice de desenvolvimento humano.

Que a eleição de nossa primeira presidente e a composição de seu ministério (com um terço integrado por mulheres) tenham força catalizadora de impulsionar o empoderamento das mulheres brasileiras.
Afinal, como lembra Amartya Sen, “nada atualmente é tão importante ao desenvolvimento quanto o reconhecimento adequado da participação e da liderança política, econômica e social das mulheres.
Esse é um aspecto crucial do desenvolvimento como liberdade”.

*FLAVIA PIOVESAN, professora doutora da PUC/SP, é membro da Força-Tarefa da ONU para a Implementação do Direito ao Desenvolvimento.

**SILVIA PIMENTEL, professora doutora da PUC/SP, é presidente do Comitê da ONU sobre a Eliminação da Discriminação contra a Mulher.