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Precisamos falar sobre estupro

30 de maio de 2016

por Lícia Peres

Há meses a atenção nacional se concentra na política onde acompanhamos atentamente a enxurrada de notícias envolvendo a ação da Polícia Federal, as delações premiadas e, mais recentemente, o afastamento da presidente Dilma.

Procurei deixar, desde sempre, muito clara minha posição contrária ao impeachment da presidenta eleita e favorável à Operação Lava-Jato na sua ação moralizadora de combate à corrupção, separando as estações.

Agora com o vergonhoso caso do estupro coletivo sofrido por uma adolescente de 16 anos, no Rio de Janeiro, precisamos envidar todos os esforços para estancar a vergonha dessas violações, cujas estatísticas já ganham manchetes internacionais.

As imagens do crime ganharam a internet por postagem dos próprios agressores, que expuseram covardemente sua vítima nua e desacordada, vitimando-a e revitimando-a.

As estatísticas são assustadoras e contabilizam 11 estupros por dia no Brasil. O Rio de Janeiro registra três casos diários.

Por que, mesmo enquadrado como crime hediondo, os violadores sentem-se confortáveis para agir e não temer punições?

Dados oficiais registram, em 2014, 47.646 estupros; 67,1% da população nas grandes cidades tem medo de ser agredida sexualmente. Mais de 90% das mulheres jovens (de 16 a 24 anos)) temem sofrer tal barbárie.

Trata-se de um medo justificado. Nossa cultura é machista e o corpo feminino ainda é visto como objeto.

Busca-se amenizar estas violações culpabilizando a vítima (roupas provocantes, horário impróprio de estar na rua, provocação etc.), quando o único responsável é exclusivamente o estuprador. Ninguém merece ser estuprada.

Felizmente, a reação da sociedade já se faz sentir, por campanhas como a de #EstuproNuncaMais e outras, que buscam estancar essas ocorrências. Os homens estão aderindo, o que é altamente positivo. Mobilizações de rua já estão marcadas em várias capitais.

Muito precisa ser feito. A humanidade no acolhimento da vítima deve ensejar que mais mulheres se animem a denunciar, evitando, assim, as subnotificações.

E o mais importante: a Justiça precisa alcançar e punir severamente os culpados.

A Polêmica do Shortinho

18 de março de 2016

Lícia Peres, socióloga

Ocorrem algumas campanhas e mobilizações, como a polêmica do uso do shortinho nas escolas, que considero irrelevantes. Mas nem por isso deixam de merecer algumas considerações, face aos seus desdobramentos.

Não acredito que o motivo básico da reivindicação sejam as altas temperaturas. A vestimenta serve para proteger o corpo humano do frio e do calor. Em áreas desérticas as roupas cobrem toda a superfície da pele, justamente para evitar os raios solares. Tudo indica que as razões do protesto são de outra natureza: a vontade de afirmação, compreensível na adolescência, o desejo de seguir a moda, uma insatisfação difusa e a busca de uma causa. Não é à toa que existe a expressão “rebelde sem causa”. E permito-me afirmar que o shortinho está longe de ser uma boa causa. As instituições de ensino estão no direito de estabelecer algumas normas para o vestuário e o comportamento.

Por outro lado, as meninas –de 13 a 17 anos- responderam, de forma madura, aos argumentos inaceitáveis de que a maneira de vestir pode provocar agressões sexuais, ou seja, caso ocorressem, elas seriam as causadoras e não as vítimas. Afirmaram ,justamente, que não cabe à mulheres a prevenção do assédio e conclamam que os ensinamentos ditem o respeito. Contestaram o machismo com bons argumentos, embora, em sala de aula, nunca tivessem discutido o feminismo e outros temas importantes.

Quanto a impedir que os homens sexualizem partes normais do corpo feminino, a questão não é essa, até porque não é possível impedir as fantasias alheias ,eles só não podem avançar o sinal, ou serem desrespeitosos ou abusados. O convívio entre os sexos precisa ser civilizado, caso contrário voltaríamos para a árvore, a caverna e o tacape. Como regra: a mulher pode dizer sim quando quiser, quando disser não, é não.

Tem modas masculinas que desgosto profundamente: as calças de fundilho caído com a cueca à mostra, por exemplo. Acho horrível .Isso não significa que os usuários devam sofrer qualquer tipo de deboche ou perseguição.

O umbigo à mostra do ex-presidente da Câmara Severino Cavalcanti eu considerava quase uma ofensa pessoal. Mas, nunca escrevi uma palavra sobre. Era questão privada.

Mas voltando ao tema , creio que a instituição de ensino que reafirmo,tem atribuição de ditar normas de vestuário, tem a oportunidade de praticar o convívio democrático, buscando entre alunas, pais e direção um consenso para maior flexibilização. Na discussão do shortinho vieram à tona coisas muito importantes e espero que sejam aprofundadas.

A travessia da felicidade

6 de janeiro de 2016

Marisa Faermann Eizirik *

“E existe a trajetória… em matéria de viver nunca se pode chegar.” (Clarice Lispector)

Falar sobre o que é a felicidade é refletir sobre o que é importante na vida, com a clareza de que não será o mesmo para todas as pessoas, que as prioridades e os caminhos, os gostos e as necessidades são diferentes.

Há questões que ocupam a empreitada humana em todas as épocas e, tal como o amor e a amizade, a felicidade é uma delas. É um tema recorrente e fundamental em toda a história do pensamento. As duas principais correntes filosóficas helenísticas, o epicurismo e o estoicismo, se ocuparam dela. Epicuro, em sua famosa Carta sobre a Felicidade (sec. 4 a.C.), define-a como a ausência de dor física e de turbulência do espírito, pregando uma distensão. Em contraponto, Sêneca (sec. 1 d.C), em Da Vida Feliz, acredita que a felicidade implica tensão, busca da virtude, da sabedoria, algo que precisa ser trabalhado, investido, como um ideal que não é da ordem da posse, mas da procura. Localizada no plano da ética, a questão da felicidade – como aquilo que o homem é capaz de criar por si mesmo – ocupou os filósofos em todos os tempos, de Platão, Aristóteles, Spinoza, Kant e Nietzsche, para citar alguns, aos nossos dias, em que os filósofos da liberdade (como Sartre) ou da diferença (como Derrida) concordam em que não há a possibilidade de uma ideia geral de felicidade, como um fim a ser atingido, mas escolha existenciais, movidas por desejos e expectativas extremamente diversificadas, individual e socioculturalmente.

Falar sobre o que é a felicidade é refletir sobre o que é importante na vida, com a clareza de que não será o mesmo para todas as pessoas, que as prioridades e os caminhos, os gostos e as necessidades, são diferentes, sem a expectativa de esgotar as questões e chegar a uma ideia definitiva que satisfaça todas as exigências. Assim, não podemos falar em felicidade abstrata. Como a vida, a felicidade é “minha”, pois afeta o núcleo íntimo da vida. Ela é particular e intransferível. Está em conexão com o que eu sou e desejo, e, mais ainda, com o que desejo ser, necessito ser.

A felicidade, segundo Gianetti, “não é algo que se compra, embrulha e leva para casa”. Não é algo ligado ao ter, mas ao fazer. “Ela não é um humor ou um estado de ânimo, por mais exaltados e duradouros que sejam, mas o resultado de uma vida bem conduzida, ou seja, das escolhas e valores que definem nosso percurso. Jamais será um estado final, que se possa adquirir e tomar posse de uma vez por todas”. Como uma atividade, a felicidade se cultiva e constrói e, por alguns momentos, se conquista e desfruta. É fonte de alegria, mas está sempre a exigir de nós empenho, amor, e contínuo recomeço.

Acentuando a característica humana de ser e já não ser, não ser e talvez não poder vir a ser, Marias define a felicidade como “o impossível necessário”, aquilo que pode ser uma realidade desejada e nunca alcançada, ou concluída: é o esforço para atingir porções, ilhas ou momentos de felicidade, o que já é uma forma de vivê-la. Felicidade é apaixonar-se pela possibilidade de viver. Enquanto algo ideal, feito nirvana ou paraíso a ser encontrado e possuído, sabemos que é uma miragem. Porém enquanto busca, é sempre instigante o movimento de valorização e aceitação de si e, ao mesmo tempo, de batalha para não permanecer o mesmo. Viver a felicidade enquanto travessia, desfrutando dos prazeres possíveis, das conquistas concretas, em nossos diferentes momentos de vida.

Existem as contingências às realidades, e a elas não é necessário se submeter de forma passiva e resignada. É preciso “escolher a si mesmo”, considerando as possibilidades pessoais e os constrangimentos objetivos do mundo. Mas o que significa “escolher a si mesmo”? É no teatro do cotidiano, na experiência do dia a dia, na escolha de si que podemos encontrar beleza, harmonia, inventividade, oposição à moral corrente, insubmissão, coragem, ética. A escolha de si como autor do próprio futuro pode consistir na construção de uma vida simples. A simplicidade do projeto não desmerece ou nega a autenticidade de quem a fez. Ao contrário, mostra que a potência humana se manifesta na e pela decência com que nos mantemos leais a nós mesmos. Viver segundo aquilo em que se crê é uma empreitada transitória, mundana e humana, com a crença de que todos temos o direito de pensar e agir sobre nossas vidas. Tudo que podemos fazer – e persistimos fazendo – é confiar em nossa capacidade natural de preferir viver a morrer. É ter um compromisso com a vida, dar um salto existencial, fazer escolhas e responsabilizar-nos por elas.

Escolher-se a si mesmo, em termos de uma ética e de uma estética de si, significa que não se escolhe apenas seu amado, mas toma-se a si mesmo como amante. O salto significa destinar a si mesmo e não determinar (ou se deixar determinar) a si mesmo. Ser determinado é ser “empurrado” pelo passado e pelas circunstâncias; autodesligar-se é ser “puxado” pelo que se escolhe como compromisso para toda a vida. Entretanto, autodesligar-se, dar o salto, não ocorre apenas através de uma escolha racional do sujeito. A consciência da escolha feita está presente ao se fazer a opção. Mas é a continuidade da vida – a sequência dos compromissos assumidos – que qualificará a escolha como decisão. A aposta se dá na vida como potência, como devir, como expansão das dores e das alegrias.

Isso nos remete a Foucault que, desde uma outra perspectiva, também encara a ética como a relação consigo mesmo. Não se encontra, todavia, em sua obra ênfase na palavra felicidade, e sim uma acentuação nas expressões estilo, ética e estética da existência. Para Foucault, estilo de existência significava um trabalho de si sobre si, como um artista de si mesmo: um melhoramento de si, na dimensão da existência humana, concebida como uma prática, um agir onde o homem é o autor que delibera, deseja, age e justifica suas ações. Tornar-se si mesmo, criar um modo de viver segundo valores que se escolha e se responsabilize, renunciando a outros e respeitando as escolhas existenciais dos outros, por meio de ações que expandam nossa imaginação e criatividade. Esse trabalho sobre si próprio não é uma atividade difusa, mas todo um conjunto de ocupações; implica sempre um trabalho que demanda tempo e um tempo que não se dá no vazio; ele é povoado por exercícios, tarefas práticas, atividades diversas, permanentes, ao longo de toda a vida. Trabalho que não se dá apenas individualmente, mas se sustenta na relação com os outros.

A vida, sempre em processo, não para a fim de que mudanças possam ser feitas. Não há um tempo para a reflexão e um tempo para a transformação. O mistério da vida é que tudo está acontecendo, o medo e o prazer, o sofrimento e a alegria, basta não estar fechado ao real. As transformações acontecem ao ar livre, sempre agitado, do conflito, do afrontamento, da luta, da resistência. O indivíduo contemporâneo é em primeiro lugar um passageiro metropolitano: em permanente movimento, cada vez mais longe, cada vez mais rápido. Com o movimento, sob o impacto da velocidade, perde-se a espessura. Com a generalização, há falha no próprio princípio da representação – as imagens passam a constituir a realidade, banalizam-se. O olhar enfrenta um espaço aberto, fragmentado; fratura e rompe a superfície lisa, foge à totalização, dá lugar ao lusco-fusco das zonas claras e escuras. O impulso inquiridor do olho nasce justamente da descontinuidade, desse inacabamento do mundo.

Conceber o pensamento sob o signo da viagem, aconselhava Nietzsche, e não sob o signo da parada, seria fugir do imobilismo. Pensar é mudar. Trocar de pele, olhar diferentemente para o que se conhece, exercitar um olhar viajante, um olhar estrangeiro, como sinaliza Cardoso. Há os acomodados, caseiros e sedentários. Transitam num espaço ordenado, compacto e pouco acidentado, que tudo acomoda; desdobramento cerrado e contínuo. “Ofuscamento dos cortes do horizonte, neutralização dos relevos”. Há os inquietos – curiosos ou insatisfeitos – aos quais “o ponto cego do horizonte obseda, fustiga e desafia. Desdenham o homogêneo e o contínuo; são sensíveis às diferenças e atentos aos limites. Afrontam obstáculos e vazios, são impelidos para o espaço aberto”. Porém, as direções e os sentidos também podem tornar-se indiferentes quando se dilui o desejo. Viagem supõe distância (proximidade), tempo, espaço, inclusões e exclusões, extensões – potência de estar em algum lugar – um entre/passagem. Supõe também saltos e rupturas, supõe riscos, desassossego, vertigem.

Nem todos querem fugir da ordem, do já programado e conhecido, errar e se dissipar em meio a aventuras, que podem ser dispersas e fragmentadas, e, por isso mesmo, constituir viagens em intensidade, que abrem passagem para olhar mais além, mais profundamente, as brechas e fissuras, os desníveis, as indeterminações, inesgotáveis experiências de sentido e de tempo. Viagens assim sempre tem um preço, que é nossa própria transformação. Um projeto pode ser, portanto, um modo de existência.

*Psicóloga, Professora, Doutora em Educação pela UFRGS, Coordenadora do Comitê de Pesquisa da Sociedade de Psicologia do Rio Grande do Sul.
Notas bibliográficas

CARDOSO, Sérgio O Olhar viajante (do etnólogo) IN: NOVAES, ª et al. O Olhar. São Paulo: Companhia das Letras, 1988: 347-60.
FOUCAULT, M. An Aesthetics of Existence . N. York: Routledge, 1988;
EIZIRIK, M. F. Michel Foucault, um pensador do presente. Ijuí: Unijuí, 2005.
MARÍAS, J. La Felicidad Humana. Madrid, Alianza Editorial, 1988.

História do Outubro Rosa

8 de outubro de 2014

Outubro é o mês da conscientização sobre o câncer de mama. Enquanto a maioria das pessoas tem consciência da doença, muitos se esquecem de tomar as simples medidas para detectá-la em seu estágio inicial. Hoje muito se fala sobre o assunto na mídia – o que é, de fato, um grande progresso – mas, ainda é preciso fazer mais.

Segundo o Instituto Nacional do Câncer (INCA), o câncer de mama é o segundo tipo mais frequente no mundo, sendo mais comum entre as mulheres e respondendo por 22% dos casos novos a cada ano. Se diagnosticado e tratado oportunamente, o prognóstico é relativamente bom.

No Brasil, as taxas de mortalidade por câncer de mama continuam elevadas, muito provavelmente porque a doença ainda é diagnosticada em estádios avançados. Na população mundial, a sobrevida média após cinco anos é de 61%. Relativamente raro antes dos 35 anos, acima desta faixa etária sua incidência cresce rápida e progressivamente.

Estatísticas indicam aumento de sua incidência tanto nos países desenvolvidos quanto nos em desenvolvimento. Em 2010 o número de mortes no Brasil causadas pela doença chegou 12.852, sendo 147 homens e 12.705 mulheres. Para 2012 a estimativa de novos casos é de 52.680!

Para lembrar a população que o câncer de mama é coisa séria e que tem muito mais chances de ser tratado e curado em seus estágios iniciais foi criado o National Breast Cancer Awareness Month (NBCAM) nos Estados Unidos. O NBCAM é uma campanha anual de saúde internacional que acontece todo mês de outubro com o intuito de aumentar a conscientização sobre a doença e levantar fundos para a investigação de sua causa, prevenção, diagnóstico, tratamento e cura.

O NBCAM foi criado em 1985 como uma parceria entre a Sociedade Americana do Câncer e a divisão farmacêutica da Imperial Chemical Industries (fabricante de vários remédios anticâncer de mama).

Seu objetivo desde o início tem sido a de promover a mamografia como a arma mais eficaz na luta contra a doença. A ideia de usar o laço rosa na luta pela conscientização surgiu só em 1991, quando a fundação Susan G. Komen for Cure distribuiu o símbolo aos participantes em sua corrida em Nova York para sobreviventes de câncer de mama.

Em 1993, Evelyn Lauder, vice-presidente sênior das empresas Estée Lauder fundou a Breast Cancer Research Foundation e estabeleceu a fita cor-de-rosa como sua marca.

Mas só em 1997 entidades das cidades de Yuba e Lodi nos Estados Unidos, começaram efetivamente a comemorar e fomentar ações voltadas a prevenção do câncer de mama, e chamando de Outubro Rosa. Para sensibilizar a população inicialmente as cidades se enfeitavam com os laços rosas, principalmente nos locais públicos. Depois surgiram eventos como eventos de moda (com modelos sobreviventes do câncer), corridas, pink oktoberfest, concertos, peças de teatro e muitas outras ações.

Hoje uma das ações mais legais é a iluminação de monumentos públicos de grande visibilidade.

Fonte: www.outubrorosa.org.br

IBGE Informa que o Brasil já tem 202 milhões de habitantes, e Rio Grande do Sul alcança 11,2 milhões

7 de outubro de 2014

Vitor Vieira

28.08.2014. O Brasil tem uma população de 202.768.562 habitantes, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) publicados nesta quinta-feira no Diário Oficial da União. São Paulo é Estado mais populoso, com 44,03 milhões de habitantes. Já no Estado menos populoso, Roraima, vivem 496,9 mil pessoas. O Rio Grande do Sul tem 11,2 milhões de habitantes. Além de São Paulo, cinco Estados têm mais de 10 milhões de habitantes: Minas Gerais (20,73 milhões), Rio de Janeiro (16,46 milhões), Bahia (15,13 milhões), Rio Grande do Sul (11,21 milhões) e Paraná (11,08 milhões).

Fonte: Vide Versu

Indústria cinematográfica global perpetua a discriminação das mulheres, aponta estudo da ONU Mulheres, Geena Davis Institute e Fundação Rockefeller

24 de setembro de 2014

O Geena Davis Institute on Gender in Media, a ONU Mulheres e a Rockefeller Foundation apresentam o primeiro estudo internacional sobre imagens de gênero no cinema internacional. O estudo foi conduzido pela Dra. Stacy L. Smith, Marc Choueit e Dra. Katherine Pieper da Iniciativa de Mídia, Diversidade e Mudança Social da Annenberg School for Communication and Journalism, da University of Southern California, EUA.

NOVA YORK, 22 de setembro de 2014 – O primeiro estudo global sobre personagens femininos em filmes populares, lançado hoje, revela uma profunda discriminação e uma estereotipagem generalizada de mulheres e meninas na indústria cinematográfica internacional. O estudo foi solicitado pelo Geena Davis Institute on Gender in Media, com o apoio da ONU Mulheres e da Rockefeller Foundation, e conduzido pela Dra. Stacy L. Smith e sua equipe de pesquisa da Annenberg School for Communication and Journalism da University of Southern California. A investigação analisa filmes populares nos países e territórios mais lucrativos do mundo, incluindo Austrália, Brasil, China, França, Alemanha, Índia, Japão, Rússia, Coreia do Sul, Estados Unidos e Reino Unido, bem como colaborações entre os Estados Unidos e o Reino Unido.

Embora as mulheres representem metade da população mundial, menos de um terço de todos os personagens com fala nos filmes são mulheres. Menos de um quarto da força de trabalho fictícia no cinema é composta de mulheres (22,5%). Quando têm empregos, as mulheres normalmente estão ausentes das posições de poder. As mulheres representam menos de 15% dos empresários, políticos e funcionários de ciências, tecnologia, engenharia e/ou matemática.

“A verdade é que as mulheres são seriamente sub-representadas em quase todos os setores da sociedade no mundo todo, não apenas na tela. Entretanto, na maioria dos casos, simplesmente não estamos cientes do alcance disso, e as imagens na mídia exercem uma influência poderosa na criação e perpetuação dos nossos preconceitos inconscientes”, explicou Geena Davis, fundadora e presidente do Geena Davis Institute on Gender in Media.

“Contudo, as imagens da mídia podem também ter um impacto muito positivo nas nossas percepções. No tempo que dura fazer um filme, podemos mudar como será o nosso futuro. Lamentavelmente, há poucas mulheres na posição de CEO ao redor do mundo, mas podemos ter várias nos filmes. Como incentivamos mais meninas a buscarem carreiras em ciências, tecnologia e engenharia? Criando hoje várias personagens em filmes que trabalham em ciências, tecnologia, engenharia, matemática, política, direito e outras profissões”, acrescentou.

Os estereótipos também discriminam as mulheres em posições profissionais de prestígio. Há mais personagens do sexo masculino do que feminino como advogados e juízes (13 para 1), professores universitários (16 para 1) e médicos (5 para 1). Em contraposição, quando o assunto é hiperssexualização, os índices são em favor das mulheres. A probabilidade de mulheres e meninas serem representadas em roupas sexy, nuas ou magras é duas vezes maior do que entre meninos e homens. “As mulheres contribuem mais para a sociedade do que apenas com a sua aparência”, disse a Dra. Stacy L. Smith, investigadora-chefe. “Esses resultados indicam que globalmente temos mais do que um problema cinematográfico no que diz respeito à valorização de meninas e mulheres. Temos um problema humano”.

Ao mesmo tempo que o relatório mostra como as atitudes discriminatórias que afetam mulheres e meninas estão refletidas em filmes globalmente, também aponta diferenças consideráveis entre os países. Os mercados na dianteira (Reino Unido, Brasil e Coreia do Sul) têm 38-35,9% de personagens femininos entre todos os papéis com fala no cinema. As colaborações entre o Reino Unido e os Estados Unidos e os filmes indianos vêm por último no grupo, com 23,6% e 24,9% de personagens femininos respectivamente. Metade dos filmes sul-coreanos têm uma mulher no papel principal ou em papéis secundários importantes, assim como 40% dos filmes analisados na China, Japão e Austrália.

“Há vinte anos, 189 governos adotaram a Plataforma de Ação de Pequim, uma diretriz internacional pela igualdade de gênero pedindo à mídia que evitasse a representação estereotipada e degradante de mulheres. Duas décadas depois, este estudo é um alerta para mostrar que a indústria cinematográfica global ainda tem um longo caminho a percorrer”, disse a Diretora Executiva da ONU Mulheres Phumzile Mlambo-Ngcuka. “Com uma influência poderosa em moldar as percepções de grandes audiências, a mídia exerce um papel fundamental na luta pela igualdade de gênero”. Com essa influência vêm responsabilidades. A indústria não pode esperar mais vinte anos para tomar as decisões certas”, acrescentou.

Entre os filmes avaliados, apenas cerca de um em quatro cineastas são mulheres por trás das câmeras (diretoras, autoras e produtoras). No entanto, quando o filme conta com uma diretora ou autora, o número de personagens femininos na tela aumenta consideravelmente. Uma solução óbvia para a disparidade de gênero no cinema é contratar mais cineastas do sexo feminino. Outra abordagem é exigir que os executivos da indústria cinematográfica tenham uma maior sensibilidade em relação ao desequilíbrio entre gêneros e os estereótipos nos seus filmes.

“A evidência é ainda mais clara agora que vimos tão bem como a realidade da vida das mulheres fora das telas é refletida nas telas”, disse Sundaa Bridgett-Jones, Diretora Associada da Rockefeller Foundation. “Olhando para o futuro, a Rockefeller Foundation está comprometida com a expansão de oportunidades para uma prosperidade compartilhada de forma mais abrangente. Para que isso aconteça, precisamos deixar para trás os estereótipos que impedem que mulheres e homens alcancem o seu potencial humano máximo”.

As principais conclusões do estudo incluem:

Apenas 30,9% de todos os personagens com fala são do sexo feminino. • Alguns países são melhores do que a norma global: Reino Unido (37,9%), Brasil (37,1%) e Coreia do Sul (35,9%). No entanto, essas porcentagens estão abaixo das normais populacionais de 50%. Dois exemplos ficam atrás: os filmes de colaborações entre o Reino Unido e os Estados Unidos (23,6%) e os filmes indianos (24,9%) mostram personagens femininos em menos de um quarto de todos os papéis com fala.

Mulheres estão faltando em filmes de ação/aventura. Apenas 23% dos personagens com fala nos filmes desse gênero são do sexo feminino. • De um total de 1.452 cineastas de gênero identificável, 20,5% são mulheres e 79,5% são homens. As mulheres compõem 7% dos diretores, 19,7% dos autores e 22,7% dos produtores dessa amostra.

Os filmes com diretoras ou autoras envolvidas mostram um número consideravelmente maior de meninas e mulheres na tela do que aqueles sem uma diretora ou autora envolvida.

A sexualização é o padrão para personagens femininos globalmente: a probabilidade de meninas e mulheres serem representadas em roupas sexualmente reveladoras, parcialmente ou totalmente nuas ou magras é duas vezes maior do que entre meninos e homens, e a probabilidade de serem tratadas como atraentes é cinco vezes maior. A sexualização de personagens femininos é menos provável em filmes para públicos mais jovens do que nos filmes para públicos mais velhos.

Adolescentes do sexo feminino (13-20 anos) são tão suscetíveis à sexualização quanto as mulheres jovens (21-39 anos).

Personagens femininos apenas compõem 22,5% da força de trabalho global no cinema, enquanto os personagens masculinos compõem 77,5%.

As posições de liderança são masculinas; apenas 13,9% dos executivos e apenas 9,5% dos políticos de alto escalão são mulheres.

Há um maior número de personagens masculinos com profissões de prestígio, por exemplo, advogados e juízes (13 para 1), professores universitários (16 para 1), profissionais médicos (5 para 1) e profissionais das áreas de ciências, tecnologia, engenharia e matemática (7 para 1).

O relatório completo está disponível aqui: www.seejane.org

Sobre a ONU Mulheres: A ONU Mulheres é uma organização da ONU dedicada à igualdade de gênero e à capacitação de mulheres. Como defensora global de meninas e mulheres, a ONU Mulheres foi fundada para acelerar o progresso em atender as suas necessidades globalmente. Para mais informações, visite: www.unwomen.org.

Sobre o Geena Davis Institute on Gender in Media: Fundado por Geena Davis, atriz ganhadora do Oscar, o Geena Davis Institute on Gender in Media, da Mt. St. Mary’s College, é a única organização de pesquisa trabalhando com empresas da mídia e do entretenimento por meio de programas avançados de pesquisa, educação e defesa de direitos para melhorar significativamente como meninas e mulheres são representadas na mídia voltada para crianças com 11 anos ou menos. Para mais informações, visite: www.seejane.org

Sobre a Annenberg School for Communications and Journalism da USC: A Iniciativa de Mídia, Diversidade e Mudança Social (MDSC) é um grupo de reflexão líder dedicado a questões de desigualdade no campo do entretenimento. A MDSC é parte da Annenberg School for Communication and Journalism, da USC. A USC Annenberg é líder nacional em educação e bolsas de estudo nas áreas de comunicação, jornalismo, diplomacia e relações públicas. A escola e a MDSC enfatizam liderança, inovação, serviço e empreendedorismo e usufruem dos recursos de uma universidade em rede localizada na capital mundial da mídia. Visite-nos em http://annenberg.usc.edu/MDSCI.

Mulheres e crianças são 98% das vítimas de tráfico de seres humanos

24 de setembro de 2014

O dia 23 de setembro é lembrado como o Dia Internacional contra a Exploração Sexual e o Tráfico de Mulheres e Crianças, chamando a atenção do mundo sobre um problema que já afetou, só no Brasil, cerca de 70 mil pessoas

Mulheres e crianças estão entre os grupos mais vulneráveis ao tráfico de seres humanos, sendo cerca de 98% das vítimas. Para promover ações contra isso, o próximo dia 23 de setembro é lembrado como o Dia Internacional contra a Exploração Sexual e o Tráfico de Mulheres e Crianças, chamando a atenção do mundo sobre um problema que já afetou, só no Brasil, cerca de 70 mil pessoas, que foram levadas para o exterior. A data, criada na Argentina, existe há 95 anos e busca incentivar a punição dos criminosos e a proteção dos grupos afetados contra crimes como prostituição e corrupção de menores de idade.

Segundo relatório do Escritório das Nações Unidas para o Combate às Drogas e ao Crime (UNODC), o tráfico de seres humanos gera 32 milhões de dólares por ano. A maior parte das vítimas são afrodescendentes, com idade entre 15 e 25 anos, de baixa renda, sem acesso à educação e com dificuldades para encontrar emprego.

De acordo com as Nações Unidas, o Brasil é hoje o maior “exportador” de mulheres escravas da América do Sul. Segundo o governo brasileiro, estas mulheres vão para o exterior em busca de trabalho e acabam sendo vítimas de quadrilhas organizadas. A adoção ilegal de crianças, a escravidão e o trabalho forçado também figuram entre os motivadores dos crimes.

A impunidade agrava ainda mais a situação.  Entre 2005 e 2011, a Polícia Federal registrou 157 inquéritos por tráfico internacional de pessoas para fins de exploração sexual, enquanto que o  Poder Judiciário, segundo o Conselho Nacional de Justiça, teve apenas 91 processos distribuídos. Foram indiciados 381 suspeitos, desses, menos da metade, 158, foram presos.

Para prevenir, reprimir e atender as vítimas destes crimes, o Brasil aprovou, em 2006, o Plano Nacional de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas (Decreto nº 5.948).  A participação do maior número de pessoas e organizações no combate ao tráfico e a exploração sexual de mulheres e crianças também é importante. Para denunciar, basta ligar no Disque 100, na Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República.  A ligação é gratuita.

Fundo Brasil

Para celebrar neste ano o Dia Dia Internacional contra a Exploração Sexual e o Tráfico de Mulheres e Crianças, a fundação privada sem fins lucrativos “Fundo Brasil”, criada em 2007,  está promovendo uma campanha em apoio as ações de combate à exploração sexual e ao tráfico de mulheres e crianças no Norte do País, região que concentra 31% das rotas do tráfico de pessoas mapeadas.

São iniciativas como o projeto “Amanajara”, da Sociedade da Defesa dos Direitos Sexuais da Amazônia (Sodireitos) e “Conexão Manaós: Articulação da rede de enfrentamento à exploração sexual e tráfico de meninas, adolescentes e mulheres”, do Fórum Permanente de Mulheres de Manaus (FMM).

Fonte: O Tempo Brasil (Redação)

O rolezinho e os ensinamentos de Brizola

24 de setembro de 2014

Lícia Peres*

A estátua de Brizola colocada em frente à Praça da Matriz lembrando o Movimento da Legalidade , de onde comandou, em 1961, a resistência que impediu o golpe contra o então presidente João Goulart nos remete, também, aos seus valiosos ensinamentos.

Brizola formulava um grande destino para o nosso país, em sua preocupação com as crianças, com a situação de discriminação das mulheres e dos negros, com os trabalhadores brasileiros e a defesa de um modelo de desenvolvimento capaz de incorporar a grande massa de excluídos.

Uma questão atual é a dos rolezinhos, em que jovens da periferia se reúnem nos shoppings em busca, até prova em contrário, de diversão e lazer. Sabemos da atração, estimulada pelo próprio comércio, que esses espaços exercem na juventude, independente de sua condição social.

Cogita-se agora em proibir a presença dos grupos cuja aparência sinalize baixo poder aquisitivo. A avaliação é preconceituosa e baseada em pura subjetividade. E daí, se não puderem adquirir produtos, estão impedidos também de frequentar o local? Consagra-se o apartheid social?

Lembro das dificuldades enfrentadas pelo governador Leonel Brizola para democratizar o espaço urbano no Rio de Janeiro.

Herdeiro de uma herança, de décadas, em que o Rio de Janeiro era concebido como “cartão-postal” do Brasil, Brizola não cedeu nos seus princípios. A exclusividade dos espaços “nobres” da cidade para a população abastada significava manter os moradores dos morros afastados dessas áreas. Estes deveriam descer à cidade apenas para realizar seu trabalho, sendo-lhes vedada a fruição dos parques, das praias, dos belos logradouros.

Para tal, havia a determinação arbitrária da prisão por vadiagem, ou seja, uma pessoa “suspeita” pela aparência de pobreza era logo abordada pela polícia para intimidá-la, desestimulando-a a descer do morro para qualquer atividade de lazer. Na prática era o confinamento.

Ao vencer as eleições em 1982 e assumir o governo do Rio de Janeiro, uma das mais importantes determinações de Brizola foi a de que ninguém poderia ser preso, a não ser em flagrante delito. Democratizava-se, assim, o espaço urbano, garantido o direito de ir e vir.

Cabe lembrar que a violência policial, no Estado autoritário, antes da promulgação da Constituição de 1988, a chamada Constituição Cidadã, tinha como prática sistemática a violência contra os pobres. A polícia subia ao morro a qualquer hora. Brizola proibiu a invasão de domicílio sem autorização. E ele foi mais além. Tomou medidas para que as praias, apropriadas exclusivamente pelas classes de maior poder aquisitivo, fossem também acessíveis aos mais pobres, providenciando linhas de ônibus que transportassem os moradores das favelas às praias, para possibilitar a todos, independentemente de classe, a fruição dos bens da natureza. Houve muitas reações contrárias daqueles que não aceitavam sequer compartilhar o mesmo espaço com a pobreza, adjetivada como “feia” e “sem modos”.

Brizola, entre tantas realizações, deixa uma marca que, mais do que nunca, merece ser lembrada: a do defensor da justiça social e dos direitos humanos.

* Socióloga

Mulheres reduzem diferença salarial

24 de setembro de 2014

Eleonora Menicucci

A crise econômica mundial de 2008 deixou sequelas mundiais como desemprego e menores taxas de crescimento.

E a perversidade do impacto sobre as mulheres foi ainda maior. O desemprego aumenta o tempo de trabalho não remunerado (de âmbitos doméstico e assistencial) e a busca de trabalhos sem proteção social (economia informal).

Os países responderam de formas distintas à crise. No geral, as medidas adotadas não levaram em conta a situação específica das mulheres. Muitos deram importância capital ao tema do emprego, como foi o caso do Brasil. Aqui, promoveu-se, por exemplo, a redução de impostos em setores industriais estratégicos, para a preservação de milhares de empregos.

Nesse contexto, o país registrou importantes conquistas das mulheres no mundo do trabalho: maior participação no mercado de trabalho produtivo, mais qualidade nessa inserção e a busca de maior autonomia em suas vidas.

Ademais, foram desenvolvidas políticas voltadas para as necessidades dos segmentos econômicos mais vulneráveis, incluindo as mulheres. Os resultados podem ser vistos na Relação Anual de Informações Sociais (RAIS) sobre o mercado de trabalho formal, referentes a 2013, divulgados recentemente pelo Ministério do Trabalho e Emprego.

A RAIS mostra progresso no combate às desigualdades de gênero no tocante a salários.

O rendimento real médio cresceu 3,18% em 2013, alcançando R$ 2.265,71 em dezembro daquele ano, contra R$ 2.195,78 no mesmomês de 2012. A boa novidade é que o crescimento dos salários femininos superou o dos masculinos.

Enquanto o rendimento dos homens cresceu 3,18%, de R$ 2.375,58 (2012) para R$2.451,20(2013), o delas aumentou 3,34%, passando de R$ 1.953,19 para R$ 2.018,48.

Em outras palavras, as mulheres estão contribuindo relativamente mais do que os homens para a massa global de salários no país.

A mudança de mentalidade diante da questão de gênero é outra conquista fundamental da mulher brasileira. Pesquisa do Instituto Patrícia Galvão/Data Popular reflete essa transformação. Segundo o estudo, 73% das mulheres brasileiras já não acham o trabalho do homem mais importante do que o da mulher. E 91% consideram fundamental o trabalho remunerado em suas vidas.

A pesquisa informa também que o número de mulheres no mercado de trabalho produtivo (formal e informal) cresceu fortemente nos últimos anos. Atualmente, 58% das brasileiras entre 18 e 59 anos estão nesse mercado. Dessas, 39% possuem carteira assinada; 15% são autônomas, 11%, funcionárias públicas; e 3%, empregadoras.Um dado de peso bate de frente contra a mentalidade antiga: 72%das mulheres que trabalham não gostariam de parar para ser sustentadas.

Apesar dos progressos, a igualdade ainda não foi alcançada no quesito salários, trabalho reprodutivo e qualidade. A desigualdade salarial aumenta à medida que a mulher vai galgando postos na hierarquia empresarial e nos empregos mais qualificados.

A mobilidade dentro da organização continua sendo um desafio.

Há pouco tempo, presenciei um fato que atesta isso. Participei de um encontro de uma empresa que prestava contas sobreum programa de promoção de equidade de gênero e raça. Os avanços eram incontestáveis, o que muito me alegrou e estimulou.

Porém, olhando a audiência-composta pela alta gerência, diretoria e vice-presidências- contei nos dedos o número de mulheres.

Oque foi confirmado pelo vice-presidente que dirigia a reunião, ao anunciar com orgulho que uma das duas únicas superintendentes seria nomeada a primeira diretora de toda a história da organização.

Por isso, é imprescindível-não só para as mulheres, mas para o próprio desenvolvimento do país-que não somente no setor público, mas também no privado, as mulheres e os movimentos sociais continuem trabalhando em parceria para o desenvolvimento de políticas mais inclusivas, com vistas a se alcançar uma sociedade mais justa e igualitária.

É necessário que as políticas salariais sejam sensíveis às questões de gênero. Isto é, devem promover uma redistribuição progressiva e efetiva da renda e da riqueza entre mulheres e homens. As empresas devem ser estimuladas a promover equidade de gênero também quando se trata de políticas de progressão na carreira.

Afinal, o fundamento óbvio, mas ainda não exercido em sua plenitude no nosso país, é que uma nação justa deve basear-se em fundamentos éticos sólidos, que reconheçam e assegurem a igualdade de direitos econômicos, políticos, sociais e culturais entre todas as mulheres e homens.

Ministra da Secretaria de Políticas para as mulheres da Presidência da República

Mulheres dedicam o dobro do tempo dos homens no cuidado com os idosos da família, revela estudo da Universidade de Princeton

23 de setembro de 2014

Antonella Zugliani

(O Globo, 22/08/2014) Regina Sardenderg, de 60 anos, mora na mesma rua que a mãe. Todos os dias, à tarde, ela caminha um quarteirão para encontrar Odila Ribas Costa, de 88 anos, portadora de Alzheimer. Apesar de Odila ter a ajuda de duas cuidadoras, uma empregada e de eventuais visitas de um médico, sua filha afirma que toma conta “da casa e da vida” da mãe. Ela é apenas um caso que ilustra o novo estudo da Universidade de Princeton, em Nova Jersey, segundo o qual as mulheres cuidam bem melhor de seus pais idosos do que os homens.

A pesquisa revelou que as filhas parecem dar bastante atenção aos pais na terceira idade, enquanto os filhos contribuem o mínimo possível. Por mês, as mulheres dedicam 12,3 horas para cuidar dos pais idosos, em comparação às 5,6 horas dos filhos, de acordo com o levantamento. Ou seja, o dobro do tempo ou quase sete horas a mais a cada mês.

O estudo revelou uma diferença impressionante de tempo dispensado por homens e mulheres aos pais idosos em comparação com outras formas de trabalho doméstico, como arrumar a casa ou cuidar de uma criança – afirmou a responsável pelo estudo, Angelina Grigoryeva.

Filhos reduzem esforços

Os dados coletados são baseados no Estudo de Saúde e Aposentadoria de 2004 da Universidade de Michigan, uma amostra nacional realizada a cada dois anos com 26 mil americanos acima de 50 anos. O estudo foi replicado no levantamento de 2010 e o resultado foi bem similar, segundo Angelina.

Em famílias compostas por irmãos de ambos os sexos, a pesquisa indicou que os filhos reduzem seus esforços de cuidados com os pais quando têm uma irmã, enquanto as filhas aumentam os seus quando têm um irmão.

Aposentada há cinco anos, Regina realiza junto com o marido Hugo tarefas como fazer as compras para a casa de sua mãe, apesar de ter um irmão.

– Ele mora longe, fica mais difícil vir visitar – conta.

Comentando a pesquisa, Regina diz que a tendência ocorre por uma questão cultural, já que as mulheres são, desde pequenas, induzidas a cuidar dos outros – com as bonecas, por exemplo.

– Tenho uma filha de 25 anos que ainda mora comigo. Acredito, sim, que ela vá cuidar de mim quando eu for mais velhinha – brincou.

Para Marcus von Seehausen, secretário estadual de Envelhecimento Saudável e Qualidade de Vida, o que acontece em linhas gerais é que cuida do idoso aquele que está mais disponível.

– Assim, vemos muitas filhas, muitas noras, muitas tias, muitas primas indo com os idosos nos bailes da terceira idade que promovemos, por exemplo – diz.

Angelina relata, ainda, que as pessoas que se dispõem a cuidar de seus parentes idosos muitas vezes têm que equilibrar essa responsabilidade com seus empregos, o que potencialmente resulta em sacrifícios de carreira e salários mais baixos. Por isso, a psicóloga e mestre em geriatria e gerontologia Simone Burmeister considera que cuidar dos pais deve ser uma tarefa em que ambos os sexos se envolvam igualmente.

É necessário paciência; então, dividir as funções é extremamente importante para não haver uma sobrecarga. A mulher acaba tendo que cuidar dos filhos, dos netos, dos maridos e de seus pais – pondera.

A psicóloga lembrou que outras pesquisas já apontaram que mulheres estão sofrendo mais de depressão, além de estarem sendo cada vez mais diagnosticadas com problemas cardíacos.