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Repulsa ao sexo

20 de setembro de 2010

por Maria Rita Kehl

Entre os três candidatos à Presidência mais bem colocados nas pesquisas, não sabemos a verdadeira posição de Dilma e de Serra. Declaram-se contrários para não mexer num vespeiro que pode lhes custar votos. Marina, evangélica, talvez diga a verdade. Sua posição é tão conservadora nesse aspecto quanto em relação às pesquisas com transgênicos ou células-tronco.

Mas o debate sobre a descriminalização do aborto não pode ser pautado pela corrida eleitoral.

Algumas considerações desinteressadas são necessárias, ainda que dolorosas. A começar pelo óbvio: não se trata de ser a favor do aborto. Ninguém é. O aborto é sempre a última saída para uma gravidez indesejada. Não é política de controle de natalidade. Não é curtição de adolescentes irresponsáveis, embora algumas vezes possa resultar disso. É uma escolha dramática para a mulher que engravida e se vê sem condições, psíquicas ou materiais, de assumir a maternidade. Se nenhuma mulher passa impune por uma decisão dessas, a culpa e a dor que ela sente com certeza são agravadas pela criminalização do procedimento.

O tom acusador dos que se opõem à legalização impede que a sociedade brasileira crie alternativas éticas para que os casais possam ponderar melhor antes, e conviver depois, da decisão de interromper uma gestação indesejada ou impossível de ser levada a termo. Além da perda à qual mulher nenhuma é indiferente, além do luto inevitável, as jovens grávidas que pensam em abortar são levadas a arcar com a pesada acusação de assassinato. O drama da gravidez indesejada é agravado pela ilegalidade, a maldade dos moralistas e a incompreensão geral. Ora, as razões que as levam a cogitar, ou praticar, um aborto, raramente são levianas. São situações de abandono por parte de um namorado, marido ou amante, que às vezes desaparecem sem nem saber que a moça engravidou. Situações de pobreza e falta de perspectivas para constituir uma família ou aumentar ainda mais a prole já numerosa. O debate envolve políticas de saúde pública para as classes pobres. Da classe média para cima, as moças pagam caro para abortar em clínicas particulares, sem que seu drama seja discutido pelo padre e o juiz nas páginas dos jornais.

O ponto, então, não é ser a favor do aborto. É ser contra sua criminalização. Por pressões da CNBB, o ministro Paulo Vannuchi precisou excluir o direito ao aborto do recente Plano Nacional de Direitos Humanos. Mas mesmo entre católicos não há pleno consenso. O corajoso grupo das “Católicas pelo direito de decidir” reflete e discute a sério as questões éticas que o aborto envolve.

O argumento da Igreja é a defesa intransigente da vida humana. Pois bem: ninguém nega que o feto, desde a concepção, seja uma forma de vida. Mas a partir de quantos meses passa a ser considerado uma vida humana? Se não existe um critério científico decisivo, sugiro que examinemos as práticas correntes nas sociedades modernas. Afinal, o conceito de humano mudou muitas vezes ao longo da história. Data de 1537 a bula papal que declarava que os índios do Novo Continente eram humanos, não bestas; o debate, que versava sobre o direito a escravizar-se índios e negros, estendeu-se até o século 17.

A modernidade ampliou enormemente os direitos da vida humana, ao declarar que todos devem ter as mesmas chances e os mesmos direitos de pertencer à comunidade desigual, mas universal, dos homens.

No entanto, as práticas que confirmam o direito a ser reconhecido como humano nunca incluíram o feto. Sua humanidade não tem sido contemplada por nenhum dos rituais simbólicos que identificam a vida biológica à espécie. Vejamos: os fetos perdidos por abortos espontâneos não são batizados. A Igreja não exige isso. Também não são enterrados. Sua curta existência não é imortalizada numa sepultura – modo como quase todas as culturas humanas atestam a passagem de seus semelhantes pelo reino desse mundo. Os fetos não são incluídos em nenhum dos rituais, religiosos ou leigos, que registram a existência de mais uma vida humana entre os vivos.

A ambiguidade da Igreja que se diz defensora da vida se revela na condenação ao uso da camisinha mesmo diante do risco de contágio pelo HIV, que ainda mata milhões de pessoas no mundo. A África, último continente de maioria católica, paupérrimo (et pour cause…), tem 60% de sua população infectada pelo HIV. O que diz o papa? Que não façam sexo. A favor da vida e contra o sexo – pena de morte para os pecadores contaminados.

Ou talvez esta não seja uma condenação ao sexo: só à recente liberdade sexual das mulheres.

Enquanto a dupla moral favoreceu a libertinagem dos bons cavalheiros cristãos, tudo bem. Mas a liberdade sexual das mulheres, pior, das mães – este é o ponto! – é inadmissível. Em mais de um debate público escutei o argumento de conservadores linha-dura, de que a mulher que faz sexo sem planejar filhos tem que aguentar as consequências. Eis a face cruel da criminalização do aborto: trata-se de fazer, do filho, o castigo da mãe pecadora. Cai a máscara que escondia a repulsa ao sexo: não se está brigando em defesa da vida, ou da criança (que, em caso de fetos com malformações graves, não chegarão a viver poucas semanas). A obrigação de levar a termo a gravidez indesejada não é mais que um modo de castigar a mulher que desnaturalizou o sexo, ao separar seu prazer sexual da missão de procriar.

Fonte: Jornal O Estado de São Paulo

Organização de Mulheres querem discutir qualquer alteração no Plano Nacional dos Direitos Humanos

31 de março de 2010

Em nota dirigida à Imprensa a Organização de Mulheres fizeram uma retificação da informação sobre o diálogo do Ministro Paulo Vannuchi com movimentos de mulheres. Elas discordam da alteração do III PNDH porque não teria havido suficiente discussão entre os segmentos da luta pelo livre aborto.

A afirmativa decorre do fato de o Governo ter anunciado a decisão de alterar diversos pontos do Terceiro Plano Nacional de Direitos Humanos, assinado por ministros/as e por Lula, isto em dezembro do ano passado. Tais alterações no texto significam, na visão da OM, ceder a pressões de setores posicionados na alta hierarquia da estrutura de poder vigente: ruralistas, grandes empresas da área de comunicações e episcopado. Para tratar da alteração do programa, Paulo Vannuchi se reuniu com os ministros da Saúde, José Gomes Temporão e do Desenvolvimento Agrário, Guilherme Cassol; com o ouvidor agrário nacional, Gercino José da Silva Filho; com a Confederação dos Bispos do Brasil (CNBB) e com 11 organizações do movimento feminista.

O esclarecimento prossegue com a Organização das Mulheres reconhecendo que o ministro Vannuchi recebeu em audiência, dia 24 de fevereiro, representantes de 14 – e não 11 organizações. Compuseram este grupo as feministas, organizações dos movimentos de mulheres, ONGs com trabalho no campo dos direitos reprodutivos e lideranças do movimento pelos direitos humanos.

Nesta ocasião o Ministro teria insistido para que os movimento que defendem a legalização do aborto participassem do esforço conciliatório de revisão do texto do Plano Nacional dos Direitos Humanos. O que a Organização de Mulheres contesta é a informação de que as modificações tenham sido feitas com o seu aval, elas afirmam que não houve acordo com relação a qualquer modificação no texto do III PNDB, e muito menos com relação a abrir mão do texto que justifica a autonomia das mulheres sobre o próprio corpo e na revisão da lei que pune o aborto.

A recusa em aceitar a proposta do Ministro Vannuchi foi via carta eletrônica a ele enviada em 15 de março, contendo assinatura de 66 organizações e contem a afirmativa de esperarem que o texto do III PNDH seja aprovado em sua integralidade.

A justificativa da posição da OM é o ponto do texto que trata do abortamento saudado como expressão da vontade política das mulheres organizadas, e reflete o posicionamento e ansiedades da sociedade civil organizada.

O III PNDH não é um documento isolado construído pela SEDH, porque quaisquer alterações em seu texto devam ser discutidas coletivamente com os movimentos de direitos humanos e os setores do governo que participaram de sua construção e redação, sob pena de ser ilegítima e antidemocrática.

A autonomia e a liberdade sexual e reprodutiva das mulheres é fator fundamental para a construção da democracia, que tem nos espaços das conferências um canal de participação da sociedade civil, inclusive de representações da Igreja Católica; não é democrático que o Governo recepcione e atenda às demandas de um segmento que corre por fora deste processo. Isso significaria deslegitimar os instrumentos instituídos em seu próprio governo, como as conferências de políticas públicas que reúnem milhares de representantes da população brasileira organizada.

A organização de mulheres querem é que o Brasil passe a liderar na questão do respeito aos Direitos Humanos das Mulheres e nas Jornadas pelo Direito ao Aborto Legal e Seguro.

Legalização do aborto será revista pelo governo brasileiro

21 de março de 2010

Nada como ano de eleição para rever conceitos e mudar direções assumidas em tempos em não ocorrem pleitos eletivos, ou mesmo depois deles terem sido realizados. O governo federal se rendeu às críticas de entidades sociais com o anuncio de que vai alterar os pontos polêmicos do decreto que instituiu no final de 2009 o Programa Nacional de Direitos Humanos.

Isso inclui artigos como o que prevê a legalidade do aborto, uma das bandeiras de movimentos feministas no Brasil e em outros países do mundo inteiro. O que as mulheres reivindicam é a liberdade de deliberar sobre o seu próprio corpo. Em matéria neste site podemos ver o protesto das mulheres espanholas de Barcelona, que, exibindo os seios, saíram pelas ruas da cidade catalã reivindicando o direito de liberdade quanto ao aborto.

O ministro Paulo Vannucchi, da Secretaria Especial dos Direitos Humanos fez o anuncio no dia 16 de março atendendo determinação do presidente Luis Inácio Lula da Silva e que foi reforçada recentemente pela Comissão de Ética do Planalto. “Estamos dispostos a promover as correções necessárias. O programa não é lei, nem invade competências do Judiciário ou do Legislativo, apenas arrola propostas”, afirmou Vannucchi.

Ele assegurou também que uma nova etapa de negociações com as partes insatisfeitas e que o novo texto será publicado até o final deste semestre.

Além da legalização do aborto, também serão eliminadas do texto a proibição de símbolos religiosos em locais públicos e a necessidade de ouvir invasores de terras no cumprimento de decisões judiciais sobre conflitos agrários, como reintegração de posse.

Feministas espanholas lutam pelo aborto livre e gratuito e atacam Igreja Católica

18 de março de 2010

O dia 7 de março ficou marcado por uma manifestação das feministas da Espanha, que saíram às ruas para protestar contra setores da oposição que pregam a Marcha pela Vida. Elas se referem aos controles patriarcais, dentre eles as hierarquias da Igreja, que buscam privar as mulheres do direito de decidir autonomamente sobre o próprio corpo. A principal reivindicação é o aborto livre e gratuito, medida capaz de impedir a morte de milhares de mulheres em abortos inseguros em muitos países. No mundo, todo ano morrem mais de 70 mil mulheres em abortos clandestinos, numa chacina visível aos olhos negligentes e insensíveis das autoridades constituídas.

Publicado originalmente em http://fotograccion.org

Segundo as feministas espanholas, estes setores, alinhados à Igreja Católica, pretendem impor seus padrões morais e religiosos como políticas públicas. O movimento saiu às ruas para defender o direito de decidir livremente sobre o próprio corpo ao mesmo tempo em que refutam toda autoridade médica, jurídica, estatal ou religiosa de tomar decisões sobre a vida delas. O protesto se tornou mais eloqüente pela mostra dos seios como um ato de irreverência, escapando das formas de regulação e de controle a que foram submetidos, modelados, ampliados, mostrados, sujeitados e escondidos. “Hoje nossos peitos são resistência política, tornar visível um corpo que historicamente tem sido expropriado, aprisionado, seqüestrado, controlado e dominado. Peitos que se atrevem a dizer basta, que rompem cadeias, que se mostram placidamente decididos a ser seios que condenam a privatização, a coisificação, que negam, resistem e escapam, seios que reclamam justiça, seios que desejam a liberdade, seios da subversão, que demandam direitos”, disseram a feministas.
Elas reivindicam o direito fundamental ao aborto livre e gratuito na saúde pública.

Espanha legaliza o aborto inclusive para adolescentes

6 de março de 2010

Foi legalizada pelo Senado espanhol no dia 24 de fevereiro de 2010, em definitivo, a lei que libera o aborto até a 14ª semana de gestação e permite as adolescentes entre 16 e 18 anos interromper a gravidez mesmo sem o consentimento de seus pais.
A chamada Lei de Saúde Sexual e Reprodutiva e da Interrupção Voluntária da Gravidez, ratificada pela Câmara dos Deputados em dezembro de 2009, entrará em vigor quatro meses depois da sua publicação no diário oficial, o que deve ocorrer até o final do mês de fevereiro.
A aprovação da medida dá sequência à agenda liberal patrocinada pelo governo socialista de José Luis Rodríguez Zapatero, que contraria segmentos conservadores da sociedade e a Igreja Católica. Desde 2004 já aprovou o casamento entre homossexuais e abrandou regras para o divórcio.
Pelo texto apresentado pelos apoiadores do governo diz que a interrupção da gravidez é livre até a 14ª semana gestação e, até a 22ª, condicionada ao risco à vida ou à saúde da gestante com parecer de um segundo médico, que não realizará a intervenção, ou malformação no feto certificada por dois médicos.
Após esse período, a interrupção da gravidez só poderá ser realizada diante de anomalia fetal “incompatível com a vida” ou quando o feto sofrer de doença grave e incurável, segundo uma relação reconhecida pelos médicos.
Adolescentes dos 16 aos 18 anos poderão interromper a gestação após comunicar a intenção a pelo menos um dos pais ou responsáveis, mas não precisarão de sua autorização. A exigência, no entanto, deverá ser desconsiderada nos casos em que se julgar que pode resultar em ameaça de violência, perigo ou coerção à grávida.
Segundo dados do governo espanhol, cerca de 116 mil mulheres praticaram o aborto no ano passado no país (de 45 milhões de habitantes), aumento de 3,27% sobre 2008. Destas, estima-se que mais de 10 mil tivessem até 18 anos de idade.
A aprovação da lei do aborto foi acompanhada nas galerias do plenário por grupos de defesa dos direitos das mulheres, que aplaudiam as intervenções em favor da nova legislação.
Do lado de fora do Parlamento era ouvidos protestos de grupos antiaborto, que apresentaram mais de um milhão de assinaturas contra a lei.
Acompanhada dos ministros da Igualdade, da Justiça e da Habitação, a senadora socialista Leire Pajín disse que a proposta aprovada era “madura”, elaborada após dois anos de “reflexão e pontos de encontro” e “põe fim à dívida pendente” do país com as mulheres. “As mulheres que não concordarem com a lei não precisam usá-la, mas não podemos impedir as que quiserem”, afirmou.
A porta-voz do Partido Popular no Senado, Carmen Dueñas, acusou o governo de “impor o aborto livre” contra a vontade da sociedade e tentar “acabar com um dos pilares da Espanha: a família”.