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Relacionamento de uma pessoa com outra

10 de janeiro de 2012

Marco Antonio Fetter*

Nem o amor, e muito menos o casamento, surgiram assim sem mais nem menos. Foi criado, estruturado, se fez para atender algumas necessidades, ou melhor, o sentimento do amor e a instituição do casamento nasceram para atender as nossas melhores necessidades. Da alma e da vida. De uma vida com alma.

… é de se perguntar, então: onde e como começou o casamento? Por mais que alguns queiram acreditar, a caricatura do homem da caverna arrastando sua noiva pelos cabelos para a sua caverna não foi…com toda a certeza, o modo pelo qual o casamento começou. 

Outros entusiastas teóricos românticos podem especular que o homem começou em bandos de laços frouxos partilhando sexo, companheiras e filhos, juntamente com sua comida. Mas, embora tal opinião de vida comunal promíscua seja intrigante, os antropólogos não encontram provas para sustentar essas idéias propostas por antigos antropólogos e filósofos.

Mesmo os nossos parentes mais próximos entre os primatas não vivem em bandos promíscuos – podem ser mais ecléticos em sua vida sexual do que gostamos de pensar que somos, mas eles também seguem certas normas de relacionamento.

Simplesmente não sabemos quais foram às primeiras normas do homem no casamento embora se especule que o “vínculo do par” foi à unidade fundamental do homem em suas fases iniciais de desenvolvimento humano.  

Mas isso é apenas uma teoria, e, como as pesquisas da história humana e antropológica nos mostram, o modo de vinculação do homem no casamento tem sido espantosamente diverso, variando desde a monogamia até a poligamia. Entretanto, naquelas sociedades em que se preferem outras formas de casamento, a monogamia também existe, é uma norma universal em todas as sociedades do mundo.

Esse tipo de união da mulher e do homem pode não ser sexualmente exclusivo ou durar a vida inteira, mas sua presença em toda parte confirma o fato de que o relacionamento de uma pessoa com outra é uma norma humana básica.

O relacionamento de uma pessoa com outra satisfaz as necessidades profundamente humanas do indivíduo, as necessidades desenvolvimentistas e psicológicas da intimidade, confiança, afeição, associação e validação da experiência. Não precisa ser permanente, exclusivo ou dependente, mas o relacionamento de duas pessoas – de uma com a outra – permite uma aproximação e intimidade psicológica que nenhuma outra espécie de relacionamento oferece.

Na teoria, o casamento não deve ser necessário para haver um relacionamento de uma pessoa com outra. Na verdade, nem é preciso haver casamento para se legitimar um filho. Num mundo de verdadeira compreensão humana, o filho deve ser legítimo porque nasceu. Todos os requisitos para cuidá-lo – cuidado maternal, garantia de interdependência e cooperação com os outros, podem ser atendidos sem o casamento legal.

O amor e o companheirismo existentes entre um casal não necessitam de documento nenhum para fazê-los atuar ou assegurar sua existência. Ou precisam?

O compromisso com outra pessoa não pode ser legislado ou registrado. O “verdadeiro compromisso vem de dentro, não de fora de um relacionamento”. A assinatura de um contrato não pode garantir a ninguém o compromisso de outra pessoa no sentido emocional; porque a ausência de tal contrato deve significar falta de compromisso? Não deve, é claro. Mas, infelizmente, às vezes significa, e bastantes vezes para permitir que aqueles que acreditam no compromisso da companheira (ou companheiro) pensem duas vezes. Não precisaríamos do contrato de casamento, na realidade, se todos nós tivéssemos alcançado uma etapa de desenvolvimento humano que assegurasse responsabilidade e confiança mútuas entre todas as pessoas.

*Doutor em Sociologia da Família – www.rebraf.com.br

Curso: oficina de poesia na Academia Literária Feminina RS-2012

5 de janeiro de 2012

Ampliando o repertório 2: diálogos sobre poetas e poéticas com Ronald Augusto

Duração: 04 encontros-aulas, no mês de janeiro.

Local: Academia Literária Feminina/RS – Rua Sarmento Leite, 933 – quase esquina Rua Lima e Silva, Cidade Baixa, Porto Alegre, RS.

Datas: 12, 19 e 26/01 quintas-feiras e 17/01 terça-feira.

Horário: das 16h às 18h.

Inscrições pelos telefones: 9991 9292 ou 9676 2730 ou e-mail: alf.rs@terra.com.br 

Sobre a oficina

Um diálogo dinâmico sobre alguns poetas fundamentais da tradição poética de língua inglesa, seja em termos de fundação da linguagem moderna, seja em termos de perspectivas para a contemporaneidade. Através da apresentação e análise de obras chaves de determinados poetas, os participantes do curso se familiarizarão com as questões essenciais da função estética da linguagem e desse modo ampliarão sua capacidade de leitura e criação de poemas.

Os encontros serão dedicados aos seguintes autores: Walt Whitman, Ezra Pound, T. S. Eliot e, finalmente, William Carlos Williams e E. E. Cummings. Dentro deste quadro se discutirá desde a dicção versicular do utópico Whitman até a fratura sem-versista de Cummings, passando pela épica sem enredo de Pound, o imagismo de Williams e as 3 vozes poéticas de Eliot.

Em paralelo os participantes exercitarão a escritura de poemas que serão comentados e debatidos em grupo. O curso, portanto, também se voltará para o aspecto da criação verbal de cada interessado.

Em seus objetivos gerais a oficina pretende

Reforçar o valor da literatura como forma de ampliar a subjetividade do indivíduo — objetivo por si só pertinente, haja vista o panorama sociocultural cada vez menos voltado ao pensamento e à interpretação.

Divulgar e, na medida do possível, ampliar a riqueza da produção poética universal.

Estimular a produção de poemas no sentido de acréscimo criativo (qualitativo) à nossa tradição literária.

E em seus objetivos específicos

Identificar e explorar no interior do texto a função poética da linguagem, de modo a potencializar os elementos já iniciados ou prefigurados racional ou intuitivamente nos escritos dos candidatos.

Ler, em cada poema apresentado, o que está de fato escrito/inscrito desde um ponto de vista de forma-e-fundo, e não aquilo que gostaríamos que estivesse escrito.

Trabalhar elementos/insumos essenciais como sonoridade, rima, ritmo, imagem, e outras figuras de linguagem. Perceber que forma e conteúdo são inseparáveis.

Tomar consciência de que a poesia não é uma janela para o real. A arte da poesia propõe quando muito um sentido provável para o real.

Sobre Ronald Augusto

Ronald Augusto é um escritor que atua em inúmeras áreas: é poeta, músico (integra a banda os poETs), letrista (parcerias com Marcelo Delacroix), ensaísta e possui ainda um trabalho significativo no âmbito da literatura. Como poeta alcançou expressividade no cenário nacional e até mesmo mundial, de tal forma que suas produções foram publicadas em revistas literárias, bem como em antologias, dentre elas destacamos: A razão da Chama, organizada por Oswaldo de Camargo (1986), a revista americana Callaloo: African Brasilian Literature: a special issue, EUA (1995 e 2007), a revista alemã Dichtungsring Zeitschrift für Literatur, e outras.

As principais temáticas presentes no repertório intelectual de Ronald Augusto referem-se à poesia contemporânea e à literatura negra no Brasil. Entre essas publicações um estudo referente à obra de Cruz e Sousa mereceu destaque e por este trabalho o escritor recebeu a Medalha de Mérito conferida pela Comissão Estadual para Celebração do Centenário de Morte de Cruz e Sousa. Além dessa premiação, o poeta recebeu ainda o Troféu Vasco Prado conferido pela 9ª Jornada Nacional de Literatura de Passo Fundo, em agosto de 2001 e o Prêmio Apesul Revelação Literária em 1979.

Atualmente Ronald Augusto realiza palestras e oficinas/cursos abordando assuntos como música, poesia contemporânea e visual. Em 2007 criou ao lado do poeta Ronaldo Machado a Editora Éblis, voltada para a poesia. É diretor associado do website WWW.sibila.com.br. Colaborador do caderno Cultura do Diário Catarinense.

Entre suas principais publicações destacamos Homem ao rubro, de 1983, Puya, com a primeira edição em 1987; e ainda um dos seus mais recentes trabalhos, que recebeu o nome de Confissões Aplicadas, publicado em 2004. Recentemente publicou pela editora Éblis o livro de poemas No assoalho Duro (2007).

Escritura

11 de janeiro de 2011

Berenice Sica Lamas*

acadêmicas estudiosas
dizem a escrita feminina
é da ordem do impossível
(como o desejo?)
não é fácil, concordo
todavia não me sinto incapaz
às vezes desanimo desinspirada
até enclausuro encontro tempos
nunca impossibilitada

teimosamente
na orla do amarelo horizonte
há um sempre possível
dizendo

vem!

* Escritora e acadêmica da Academia Literária Feminina RS

Aposentadoria

17 de outubro de 2010

por Ana Mello

Essa semana um colega com 48 anos de trabalho resolveu parar de trabalhar, aposentado, optou por desligar-se do quadro de funcionário e curtir a vida a sua maneira. Ficamos todos fazendo contas e vendo quanto tempo mais trabalharíamos, discutindo o que faríamos depois de aposentados.

Em seguida vieram relatos de experiências de amigos de amigos quando se aposentaram. Muitas experiências tristes de pessoas que envelheceram rapidamente, que passavam o dia em casa de pijama só assistindo televisão. Algumas felizes, daqueles que resolveram
aproveitar para viajar ou fazer um curso que desejavam e não tinham tempo, para ler, ficar com os netos, fazer caminhadas diárias ou apenas curtir a vida fazendo o que estavam mesmo com vontade de fazer a cada momento.

Meu colega disse temer pelo seu casamento, pois a esposa poderá não agüentá-lo todos os dias em casa. É possível! Todas as coisas novas precisam de uma fase de adaptação, sem dúvida, mas depois tudo se acomoda, assim espero. Cada um sabe o que é melhor para si, contudo, quem sempre trabalhou a vida toda como dizem, deve se ocupar com alguma
coisas, ter uma rotina de atividades, nada muito estressante. Programar coisas para fazer como um cinema, café com os amigos, compras, visitas, atividade física. É o que pretendo fazer quando decidir me aposentar e escrever muito, ler muito, planos, muitos planos.

Seguidamente no shopping vejo um grupo de aposentados em um bom papo, dando risadas, fazendo lanchinho. No parque também é comum vê-los reunidos na maior farra. Todos homens, as mulheres não tem este hábito, pelo menos eu não tenho visto. Será que elas fazem outras coisas? Cuidam dos netos, quem sabe? Conheço umas que viajam, não param quietas em casa nunca.

Bate uma nostalgia em quem pára de trabalhar e nos que seguem trabalhando, afinal conviver com alguém durante muitos anos e interromper, é um pouco triste. Bom é saber que ele está vivo e com saúde e pode nos visitar sempre que quiser. É inevitável também ficar pensando em como mudamos neste tempo, namoros, casamentos, filhos, problemas compartilhados
e brigas, algumas brigas, passamos mais tempo no trabalho do que em casa e entramos na intimidade das pessoas próximas mesmo sem querer.

Sabemos das cirurgias uns dos outros, das doenças, dos aniversários, do colégio dos filhos, dos namoros, dos parentes. Já houve um tempo que eu achava chato saber de coisas que não me diziam respeito, depois amadureci também e fico feliz quando alguém quer me contar
algo pessoal, demonstrar sua alegria por alguma conquista ou algo assim.

Meu pai tinha uma dica ótima para aposentados e idosos, ele dizia que depois de certa idade temos absoluta obrigação de ficar bonitos e cheirosos e com um sorriso no rosto. Pois velho é que nem bebê, de fralda suja, ninguém quer dar colinho. Uma boa comparação para dizer que quem tem suas chatices e manhas, deve no mínimo tentar causar boa impressão. Certo ou errado eu não sei, mas ele sempre foi muito simpático e querido por todos e é isso que dá sabor a vida, percorrer caminhos, aprender, ser feliz.

Ciclos

14 de outubro de 2010

por Berenice Sica Lamas

sob olhos maternos
solstícios equinócios
pétalas pérolas pinceladas
menina de cinco anos

luz e sombra, pistilo
repletos de bolas balões
seus meninos
mãe aos trinta

ferro química fogo, estilo
raro encontro, correnteza
mulher de sessenta
inconsumada

Escritora e acadêmica da Academia Literária Feminina RS

Orquestra

15 de julho de 2010

por Berenice Sica Lamas

No domingo à tarde, em casa, Laura abre o álbum de fotografias. Ali estava toda a orquestra, os violinos, os violoncelos, o pianista, a cabeleira do maestro num fragmento de foto, as partituras, as roupas pretas e brancas. Excelentes fotos. A tristeza e o espanto de todos ali estavam. Desde seus onze anos preparara-se para brilhar com a orquestra na capital e agora, após vinte anos de duro estudo e aperfeiçoamento, desempregada. Uma violinista sem emprego não era qualquer mulher desempregada. Malditos deputados, sem sensibilidade suficiente em manter verbas para uma orquestra. Um suspiro fundo escapa e enxuga uma lágrima inútil, o peito pleno de mágoa. Tadzio entra e afaga seu rosto, mãe, o teu quebrou? Te compro outro violino. Laura vira as páginas do álbum, sem mais atençao.

Na última página, a foto do grupo para o folder do concerto na capital entra em combustão espontânea, chamuscando seus perplexos dedos. Arde a arte pela sobrevivência.

do livro Falsas Ficções, 2001.

Marcha – a – ré

10 de julho de 2010

Hilda Simões Lopes

A chuva se estilhaça, o limpador de parabrisa vai e vem, a mão de Pedro na alavanca engrena segunda, a navalha de borracha varre as gotas e o gosto acre queima a boca, a garganta, ameaça os miolos. Maria Aparecida endurece o corpo, aperta os dedos e se abraça, as unhas apunhalando as carnes. Caem confetes de água negra e imagens que o limpador leva, iguais a fala de Pedro, “Cida, não dá pra entender, com tudo pra seres feliz”, igual a conversa da tia Natália, “E essa cara, Cida? aceita a vida como ela é, marido bom a gente agrada”. A chuva é mais forte, desaba um rio pelos contornos, a visão é difícil, mas ela só vê, nítida, a própria dilaceração e os avessos e os gestos de Pedro, cheios de serras, lesmas, escorpiões. A mão de Pedro volta a mudar a marcha, a chuva ameaça romper o carro, as unhas de Maria Aparecida batem nos ossos, “Estás doente, não tens motivo pra não seres feliz”. Ela se lembra dos couros dos animais mortos, estaqueados, pregos nas extremidades, e se percebe tão esticada que já começa a se partir. E a voz, “Para mulher de homem rico que não tem amante, separação não tem cabimento”. O carro tropeça, a cabeça de Maria Aparecida sacode e ela pisca demorado, quando abre os olhos está envolvida pela perna da caranguejeira que sai da boca de Pedro, “ Cida, o que mais tu queres?” A caranguejeira se enrola mais, as trovoadas estouram o mundo e Maria Aparecida esfrega as mãos no rosto limpando-se da imundície, relaxando braços e pernas. E se entrega à chuva, morrerá limpa, igual à sua casa, filhos, armários, cozinha, tudo impecável, no lugar, cumprindo as funções com a perfeição das existências que não pensam. Estouram novas trovoadas, relâmpagos rasgam as trevas, ela se enxerga casando, embrulhada em nuvens brancas e pergunta se a alvura não será mais perigosa que o negrume. Volta a se ver noiva e as vozes, “A gente vê, são duas metades que se encontraram”. Metade, o que é uma metade? o outro lado, a base, o tempo de ser suporte, as garras descendo pelos avessos, igual beliscão fininho de menina malvada em tempo de colégio, ninguém via, o mais doloroso. Sente a aspereza do couro do acento na pele dos dedos, o barulho cadenciado da chuva, lembra o conto de Garcia Marquez, a mulher sangrando pelo dedo da aliança, hemorragia incontrolável, morte. A trovoada reconduz a voz, “Deves estar doente, com a vida que tens, separação, idéia de mulher desvairada”. O carro mergulha, a gosma acre enche-lhe a boca, o nariz, os ouvidos, ela entope. Imagens do casamento da filha, do filho saindo de casa, ela escondendo de Pedro ser por causa dele, cumprindo os desígnios, “Mulher tem que acomodar as arestas, deve servir de algodão entre marido e filhos”. Vê a casa sendo construída, feita de mata-borrão, prometendo absorver infelicidade. Fizeram a planta com cuidado, havia pontos com aspiradores gigantes: as lareiras, a piscina, a churrasqueira, onde todos os males seriam tragados. A voz de Pedro: “Estás proibida de voltar a este assunto cretino”. Estás, estás, sim, estás acostumada à tortura mental, dias e dias em silêncios guardados por tanques de guerra camuflados, era culpada, e não sabia de quê, mas estava proibida de ser infeliz, e os tanques trepidavam, e ela afundava na taquicardia, tremedeira, pressão caindo até o desmaio. Estoura o raio, abre os olhos, é mulher ruim, é culpada de tudo e não tinha feito nada, é infeliz e não podia ser. Uma voz a deixa cega, “A mulher é a responsável pela felicidade de uma família”. Caem pedras, a capota e o parabrisa ameaçam se partir, o temporal urra. Os negócios de Pedro, os dinheiros de Pedro, os desamigos de Pedro, a culpada é ela, os tanques de guerra encostam, casamento era avalizar a felicidade de um outro, era ser taipa de açude, o aguaceiro é tanto que o carro quase pára. A voz da mãe, “Como podes estar assim? casamento é isso mesmo”. Sacode o rosto, ergue os cabelos, respira fundo, pensa que o temporal é violento, então haverá dia de sol, entende avessos, há muito observa as gentes de veludo com avessos de punhais. Ergue-se a voz da amiga, ”Quando a gente tem marido como o teu e não agüenta mais, pede jóia, viagem, nova decoração para a casa”. O carro avança, já é madrugada e ainda chove pingos recheados. Outra amiga: “Cida, arruma um amante, homem casado e importante, o caso será secretíssimo, a gente fica mais bonita e se sente culpada, aí consegue levar o casamento adiante.” A perna da caranguejeira se ampliou e agora enrola-se em sua cintura, ouve gritos de que é culpada de tudo, pergunta o que fez de errado e os tanques rodopiam sobre seu corpo, algum lugar sangra, a navalha vai e vem no parabrisa, o carro estaciona e ela vê os pingos negros, é prisioneira da morte. Destrava a porta, quase se joga ao chão, Pedro já desceu e avança pelo avarandado. Ela permanece de pé, estática, inundando-se de chuva. “Cida, estás louca, sai da chuva”, ele fala gesticulando, chaves na mão. Ela olha as águas, a sangüeira a seus pés, ouve o fio da própria fala, “Pedro, eu não vou entrar”. Ele grita, “Estás louca, anda logo, olha os raios”. Arrebenta-se nova trovoada e faíscam raios, as pedras do caminho tremem. “Cida, não me ouves, Cida!” Maria Aparecida ensaia os primeiros passos, descobre-se firme, ergue a cabeça, esboça um sorriso. Enxerga festival de luzes em seu caminho, o rugido das trovoadas se transmuta na marcha triunfal de Aída, águas dançam à sua frente. Alguém grita, “Estás ensopada, corre, vem”. Ela abre a bolsa, pega a chave do próprio carro e se dirige a ele. Entra. Engrena a marcha-a-ré.

De livros e vinhos

10 de julho de 2010

Berenice Sica Lamas

Atravesso o pátio com cuidado. Circulo a ameixeira, abro a porta. Não quero derramar uma só gota do copo de leite de papai. Me atrai sua ampla peça isolada da casa em meio à parreira e ao arvoredo – misto de ateliê biblioteca oficina gabinete. Cavaletes, telas, tintas, pinceis, livros, revistas, torno com lixeira e serra circular, formão, goiva, cinzel, bigorna onde improvisa ferramentas, lamparina para aquecê-las e moldar a cera, martelo, madeiras, sarrafos, cheiro de serragem, plaina elétrica, esmeril, réguas e lápis de carpinteiro grafite plano. A coleção de serrotes de diversos tamanhos me fascina. Ele diz ser o local de suas transmutações… para mim, ambiente mágico de sua risada solta, lenços gitanos e réstias de sol que trespassam a vidraça, reluzindo os metais, o punhal, o espelho, o chapéu.

Papai saboreia o leite em pequenos goles, molhando o bigode. O caixote com os vinhos portugueses Ramos Pinto chegara e eu, constante contente, cumpro o ritual: abro-o, apanho o pequeno volume de capa vermelha, o raro brinde do “grande Camilo” como diz papai, “do castelo que precisa cor” completo eu – e coloco na estante ao lado dos demais. Chamo-a prateleira dos vinhos e papai sorri com ternura.

Na cadeira giratória de madeira e palhinha, volteio até tontear. Mamãe não serve o leite quando papai pinta as moças e então, não entrando na oficina, fico espiando através da janela. Ele se aproxima com a mão em concha, cheirando à água de toilette.

Um de cada cor, filhota?

Bem coloridinho, papai.

Ouvindo meus gritos, mamãe acorre em pânico, papai estrebucha com ataque.
Ardo em febre. Uma grande poça de lagrimas e xixi manchada de tinta escorre pela desordem do chão. Nadam preguinhos e parafusos, que chovem pelas minhas pernas.

(do livro Falsas Ficções, 2001)

Gloriosa infância

10 de julho de 2010

Ivanise Mantovani

Ivanise Mantovani

Gloriosos invernos da infância,
brincar com a neve bonita
de interiorana distância.
Grande portão de ferro.
De crochê eram as cortinas.
Assim vivi com meus avós
plantando e colhendo boninas.

Gloriosos verões da infância,
dormir sob o jardim coberto,
num pijama azul-piscina.
Acordar com a passarada,
galinhas, coelhos e patos.
Comer do pão feito em casa
coberto de marmelada.

Problema de homens

30 de junho de 2010

por José Saramago

Vejo nas sondagens que a violência contra as mulheres é o assunto número catorze nas preocupações dos espanhóis, apesar de que todos os meses se contem pelos dedos, e desgraçadamente faltam dedos, as mulheres assassinadas por aqueles que crêem ser seus donos. Vejo também que a sociedade, na publicidade institucional e em distintas iniciativas cívicas, assume, é certo que só pouco a pouco, que esta violência é um problema dos homens e que os homens têm de resolver. De Sevilha e da Estremadura espanhola chegaram-nos, há tempos, notícias de um bom exemplo: manifestações de homens contra a violência. Até agora eram somente as mulheres quem saía à praça pública a protestar contra os contínuos maus tratos sofridos às mãos dos maridos e companheiros (companheiros, triste ironia esta), e que, a par de em muitíssimos casos tomarem aspectos de fria e deliberada tortura, não recuam perante o assassínio, o estrangulamento, a punhalada, a degolação, o ácido, o fogo. A violência desde sempre exercida sobre a mulher encontrou no cárcere em que se transformou o lugar de coabitação (neguemo-nos a chamar-lhe lar) o espaço por excelência para a humilhação diária, para o espancamento habitual, para a crueldade psicológica como instrumento de domínio. É o problema das mulheres, diz-se, e isso não é verdade. O problema é dos homens, do egoísmo dos homens, do doentio sentimento possessivo dos homens, da poltronaria dos homens, essa miserável cobardia que os autoriza a usar a força contra um ser fisicamente mais débil e a quem foi reduzida sistematicamente a capacidade de resistência psíquica. Há poucos dias, em Huelva, cumprindo as regras habituais dos mais velhos, vários adolescentes de treze e catorze anos violaram uma rapariga da mesma idade e com uma deficiência psíquica, talvez por pensarem que tinham direito ao crime e à violência. Direito a usar o que consideravam seu. Este novo acto de violência de género, mais os que se produziram neste fim-de-semana, em Madrid uma menina assassinada, em Toledo uma mulher de 33 anos morta diante da sua filha de seis, deveriam ter feito sair os homens à rua. Talvez 100 mil homens, só homens, nada mais que homens, manifestando-se nas ruas, enquanto as mulheres, nos passeios, lhes lançariam flores, este poderia ser o sinal de que a sociedade necessita para combater, desde o seu próprio interior e sem demora, esta vergonha insuportável. E para que a violência de género, com resultado de morte ou não, passe a ser uma das primeiras dores e preocupações dos cidadãos. É um sonho, é um dever. Pode não ser uma utopia.
Publicado em O Caderno de Saramago | Comments Off – Julho 27, 2009