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Feminismo cultural: uma reflexão necessária

29 de novembro de 2016

Eloá Muniz*

A existência de uma sociedade patriarcal ainda é a realidade no mundo contemporâneo, embora se tenha a ilusão de conquistas da equidade e igualdade de gênero. A sociedade patriarcal se caracteriza fundamentalmente pela imposição institucional da autoridade dos homens sobre as mulheres, tanto no âmbito familiar como no corporativo. Hoje a sociedade tem novas maneiras de submissão feminina, fortalecendo sempre a supremacia do homem nas elações sociais. O funk é um exemplo desse comportamento.

Evidentemente o mundo moderno apresenta grandes e rápidas transformações. A modernidade líquida traz mudanças conceituais, paradigmáticas, valores, sentimentos perspectivas de realização que acabam por envolver a pessoa por inteiro. Estas mudanças acontecem principalmente, por que há uma necessidade intrínseca de transformação do mundo e, em ato contínuo, transformar o mundo transformado.

Nesse processo de transformação o feminismo tem influenciado a cultura no que tange a identidade de gênero, feminina e masculina, determinando o agir, o sentir e o pensar de cada um, que vinculado à crença de ser mulher e homem, portanto, diferentes, são valorizados na sociedade de forma desigual. Considerando que as únicas diferenças reais entre mulheres e homens são as biológicas, as demais diferenças atribuídas às mulheres e homens como sensibilidade, candura, submissão, dependência, rebeldia, violência, fortaleza e independência são culturais, portanto, aprendidas. Chama-se então construção cultural de gênero.

O gênero, então, é identificado como atributos simbólicos, sociais, políticos, econômicos, jurídicos e culturais, atribuídos às mulheres e aos homens ao longo do desenvolvimento do pensamento humano. Este processo de socialização de gênero é transmitido pelos diferentes agentes sociais como família, escola, mídia e linguagem, além de outras formas de relações sociais entre as pessoas, reforçando e legitimando ideologias patriarcais milenares através da família e das religiões inseridas no sistema de poder político das sociedades contemporâneas.

Assim, pela linguagem as pessoas aprendem a hierarquização, proveniente das diferenças em função do sexo – menina e menino. Para a linguagem só existe o que nomeia, portanto, usar a língua como reflexo de uma sociedade, propaga a ideologia imanente, refletem e legitimam as desigualdades oriundas das discriminações contra as mulheres pelo androcentrismo – visão do mundo onde se valoriza o masculino –; do sexismo – termo que se refere ao conjunto de ações e ideias que privilegiam determinado gênero ou orientação sexual em detrimento de outro gênero ou orientação sexual.

Dessa maneira, muito antes de nascer o bebê já está classificado: menino é azul e menina é rosa. Menino brinca com carrinhos e é educado para as atividades laborais remuneradas no público e menina brinca de boneca e é educada para atividades laborais não remuneradas no privado. Meninas são belas, recatadas e do lar e meninos são brutos, conquistadores e do mundo.

Nessa sociedade dualizada pelo conceito preestabelecido de feminino e masculino e, portanto, de relações heterossexuais é difícil pensar em tirar a sociedade dessa zona de conforto para jogá-la em uma perspectiva de reflexão, aceitação e, principalmente, de aprendizagem e reconhecimento de uma nova relação onde os conceitos religiosos de sexualidade somente para a procriação dariam lugar às relações afetivas e de prazer puramente. Por exemplo: Muito prazer! Sou heterossexual. Muito prazer! Sou homossexual. Muito prazer! sou mulher hetero e não quero ser mãe. Muito prazer! Sou mulher hetero e não quero casar. Muito prazer! Sou homem homo e quero ser pai, quero adotar. Muito prazer! Sou mulher homo e quero ser mãe. Vou escolher um doador. Muito prazer! Somos um casal hetero e adotamos uma menina negra.

Esse é o momento que a sociedade moderna patriarcal vive. Esses movimentos de avanços dificilmente se converterão em retrocesso, pois está desvelado. Não há por que não revelar. Mas os avanços poderão ser em menor velocidade.

O necessário é manter o diálogo e a educação do respeito pela diversidade em toda a sua complexidade, pois cada pessoa – menina ou menino – precisa ter assegurado o direito na busca pela felicidade com respeito e dignidade.

• Publicitária e Psicanalista

Hospital Fêmina será referência em atendimento a mulheres vítimas de violência

24 de setembro de 2014

AurélioRuas

Para garantir uma assistência acolhedora e especializada às mulheres vítimas de violência física ou sexual, o Hospital Fêmina promoveu, durante esta terça-feira, a capacitação de uma equipe multiprofissional da instituição, no intuito de ser um Centro de Referência em casos desta natureza.

Ao longo do dia, os profissionais acompanharão palestras de assistentes sociais, enfermeiras, médicos e da delegada Viviane Nery Viegas, da Delegacia de Atendimento à Mulher da Capital. A delegada destacou a abordagem humanizada em casos de abusos sexuais. “É necessário ter sensibilidade com quem passa por uma situação deste gênero”, afirmou.

A iniciativa segue orientação do Ministério da Saúde, e como Centro de Referência, o hospital disponibilizará espaços para acolhimento, atenção médica e de enfermagem, além de assistência psicossocial e de orientação sobre acesso à justiça.

De acordo com o gerente da Unidade de Internação do Hospital Fêmina, Lauro Luis Hagemann, através da capacitação os profissionais estarão mais habilitados para abordarem vítimas da violência física ou sexual, visando a exteriorização da queixa. “O atendimento será mais sistematizado. Há muitas informações que são irrecuperáveis após uma semana, então vamos realizar um acolhimento mais rápido das vítimas para que possamos colher evidências laboratoriais e documentais de forma mais ágil”, revelou.

Segundo a enfermeira e membro da Comissão de Assistência a Mulher Vítima de Violência da instituição, Elizabete Teles, a mudança representa uma melhora na qualidade do atendimento. “Diversas perguntas que eram respondidas a polícia, posteriormente, estarão no prontuário da paciente”, salientou.

O plano integrado de ações multiprofissionais de saúde do Hospital Fêmina contempla métodos anticoncepcionais reversíveis, a implementação da Notificação Compulsória, a garantia do abortamento legal e a prevenção de doenças sexualmente transmissíveis.
Fonte: Correio do Povo

Cerimônia de Adeus

15 de setembro de 2014

Berenice Sica Lamas*

Coimbra, 27 de Abril de 1956 – Pareço uma rês enfragada, a que ninguém pode acudir. Gemo no fundo do abismo, com a alma partida, e só no desespero encontro conforto. É um desamparo     irremediável que sinto, uma velhice súbita que me dobra, uma solidão absoluta que me acobarda (A morte do pai – Miguel Torga).

Repentinamente viajo ao Brasil devido ao agravamento da doença do pai – ainda o vejo na UTI de um hospital com alguma lucidez e ele me reconhece – falece alguns dias depois. Ainda acompanho a mãe e os irmãos alguns dias e regresso em seguida. A viagem em si não foi fácil: pouco tempo e longa distância; ao todo, sete aviões entre ida e volta, em nove dias. Sentimentos contraditórios: rever amigas e familiares nesta situação – o pessoal todo de Pelotas novamente em Porto Alegre, as duas famílias de origem, como nas festa de suas bodas, impossibilidade de conversar, tempo escasso, situação familiar em luto.

Te olhar, pai, com o físico tão depauperado, teu corpo frágil sob o lençol, solto aos caprichos das trevas que talvez não demorem, cheio de aparelhos que não permitem que fales, durante minutos controlados pelo relógio em rodízio de familiares. Tu que sentes tanto frio, aqui exposto com roupas neutras e toscas tão exíguas. A vulnerabilidade. A fragilidade. A solidão. A terrível solidão da morte, sem teus queridos, sem o aconchego de teu ninho, atravessado pela parafernália hospitalar que sabemos não adiantar mais nada.

Te sinto tão perto entretanto longe, em outras paragens azuis prateadas rosadas. Hoje morrer em casa é luxo para poucos. Desfio palavras e preces discretas, somente pra ti. Rondam por aqui teus cavalos esculpidos e peixes e barcos navegam nesta imensa enfermaria. Vejo em especial um cavalo que te vigia e não vai embora. Teus pensamentos dissolvidos nas sombras, já adentras no sótão e porão do armazém do vovô Lamas. Talvez na fusão eterna com o outro Rubens que te antecedera, desaparecido precocemente, este duplo que habitou tuas memórias, este fantasma que emoldurou tuas paredes, este irmão morto precocemente de quem herdasses o mesmo nome. Desprendo-me e também estalo por ali, em busca de anotações, bilhetes e lembretes com tua letra clara e precisa em papeizinhos dobrados entre as páginas de teus livros. Encontro o chapéu tirolês, presente antigo meu. Sou um peixinho vermelho tecendo vôo com guelras famintas. Te vais nas luzes pálidas do outono.

Não era esta a visita idealizada, ainda mais no primeiro retorno depois de um ano. Senti-me muito desconfortável, com sentimentos de “não lugar” e  desterritorializada. Quando voei de retorno a Bologna, tive a sensação de estar voltando pra casa e isto me assustou um pouco. Minha identidade foi revolvida outra vez.  A vida oferta situações singulares às vezes: eu não estava ao lado de meu filho quando perdeu o pai, mas ele estava a meu lado quando perdi o meu, seu avô. Voltar a dormir “em casa” trouxe um certo estranhamento: peças vazias, meu quarto disposto em outro cômodo, a mala permaneceu no chão até o momento do retorno, nem desfeita foi – tudo muito rápido. Me empanturrei de filmes em DVD da locadora – uma boa fuga, as legendas em português me confortavam, acostumada ao italiano. Vagava pelo apartamento já um tanto esvaziado. Apesar de ser abril e inicio de maio, o frio já chegara a Porto Alegre. Houve ate mesmo o brinde de um ciclone extra-tropical. Revi algumas amigas, jantei com duas.

Conheci uma sobrinha neta de três meses. A casa nova construída pelo irmão caçula. Pude ajudar no rearranjo de móveis do quarto da mãe, das arrumações dos armários e separação das roupas do pai, papelada, amparando-a nestes primeiros dias de luto. Não havia digerido nada ainda quando embarquei de novo alguns dias depois. Precisei de um tempo – reorganizar tudo para seguir o movimento dos compromissos ou o contrário, as tarefas me ajudaram a me reestabelecer. Pai, voltei contigo no coração e mente, não existia mais tua figura física. Fotos, lembranças, pensamentos. Transbordava pra dentro. Tua presença muito forte em mim. Como dispôs Proust, o morto continua a agir sobre nós. Tua vida interrompida continuava em nós, uma extensa família. Pressinto que a dinâmica da família se modificará para sempre. Ao reler o livro de memórias chegando em Bologna, me emocionei e chorei muito nas diversas passagens em que me ocupei de ti. Pude te sentir e te reviver. E ressignificar tudo de ti em mim.

Sério, calado, circunspecto, encapsulado, mas com um humor prestes sempre a desabrochar, ditos espirituosos à espreita – rejeitavas o aparelho que te melhoraria a audição, pois era cômodo muitas vezes fingir não ouvir. Podias ficar sem proferir uma palavra durante cinco, seis ou até mais horas – às vezes se chegava na casa de vocês e a mãe logo dizia “teu pai ainda não deu uma palavra hoje” como se fosse uma grande novidade ou como se pudéssemos fazer alguma coisa a respeito e agora, que me dizes de tua própria morte? – agora já disseste tudo, não precisas falar mais nada.

Contradições e paradoxos de tua vida, vivida de forma tão intensa, interna, tão interior – sabias pensar, refletir, avaliar, sabias tanta coisa, mas não compartilhavas tanto – às vezes de mal com o mundo e com as pessoas, custavas a fazer as pazes, azedavas rancores inúteis, uma pena. Tanto sofrias com os fatos externos, do social – um assalto a uma agência do Banco do Brasil, por exemplo, era motivo de te colocar sofredor e aflito por dias e dias. Uma vez funcionário do BB, sempre funcionário do BB!! Acidentes rodoviários também te mobilizavam muito, talvez pela perda prematura de nossa Dag em 1974. Gostavas de uma contra-luz, de um ventilador indireto, de um lençol térmico aconchegante, jogo de luzes e sombras, penumbras, músicas de CD’s e jornais do dia.

Petiscos diferentes para saborear, que os filhos buscavam com prazer – bolinho de bacalhau do restaurante Calamares, por exemplo ou galinha ao molho pardo. Passeios com os filhos aos arredores de Porto Alegre. Visitas à tua Pelotas querida. Foi difícil manejar e conter a fase das compras pelo programa Shopping Time da TV, pois conseguias driblar o controle da mãe, e quando se percebia, estavam chegando ventiladores, jogos de lençois, caixas de facas de todos os tamanhos e usos, rádios, e muitos outros objetos e aparelhos. Tivemos que bloquear o acesso ao telefone do programa. Não ficaram débitos emocionais, não temos contas pessoais afetivas a ajustar nem a pagar. Não precisarei escrever uma Carta ao pai ao modo de Kafka. Sensibilidade vivida pra dentro, raramente externalizada. Sob esta capa antissocial uma vida interior plena de riquezas mas tuas dificuldades impunham limitações que bloqueavam teu ser mais participativo. Generoso, no entanto, com os seus, da forma como eras capaz: presentes, ajudas financeiras, adoravas surpresas – tanto proporcioná-las quanto recebê-las. Silencioso em vida, na morte fazes um rumor tremendo, espesso…Sempre foste um… & outros. Múltiplo.

quando morre um pai,

                       são tantos

não se perde o pai

                        se perdem muitos

o que embalou fez ler proibiu o namoro

ensinou a dirigir dançou a valsa levou a viajar  

                      modelou constância honra

                      responsabilidade lealdade dignidade

                                       gosto pela arte beleza estética

                                                       leitura gatos cavalos

                                                      valor do silêncio

o que babou com os netos, bisnetos

        adoeceu, envelheceu

 

* Psióloga e escritora

Incongruência

15 de setembro de 2014

Lícia Peres*

27.09.2012. O debate sobre a obra de Monteiro Lobato ganhou até audiência no Supremo Tribunal Federal, instituição que vem merecendo o respeito de todos pela seriedade de seu trabalho no chamado Mensalão.

Agora o STF é instado a manifestar-se pelo Instituto de Advogacia Racial que defende   a restrição a adoção do livro Caçadas de Pedrinho no Programa Nacional Biblioteca na Escola (PNBE), por suposto conteúdo racista.

Desde menina posso dizer que tomei gosto pela leitura a partir de alguns clássicos infantis, entre eles as obras de Monteiro Lobato, instigantes e divertidas.

Penso mesmo que uma das melhores séries produzidas para o público infantil para televisão foi o Sítio do Pica-Pau Amarelo, uma exceção em meio a tanta mediocridade.

Imaginem a quantidade de grandes obras literárias que, obedecendo ao crivo do olhar feminista, deveriam ser” condenadas”. Para começar, todos os romances de época :Jane Austin,Henry James que retratam a condição feminina ,cujo único objetivo é um casamento adequado, com um pretendente possuidor de uma sólida renda anual ou com perspectiva de herança. A moça que não casasse era uma pobre coitada. Praticamente inexiste mobilidade social e o trabalho era considerado algo desprezível. Shakespeare seria considerado inapropriado : a Megera Domada, o Mercador de Veneza (anti-semita) só para dar alguns exemplos. Haveria uma lista infindável de livros a serem censurados e mergulharíamos na indigência intelectual.

Considero absurda a tentativa de retirar da lista de leituras indicadas nas escolas um livro escrito em 1933, no contexto que é um retrato daquela sociedade, marcada fortemente pelo escravagismo.

A resposta efetiva para tudo aquilo que, ofensivo no passado é inaceitável hoje, está sendo dada pelas conquistas dos movimentos sociais que falam por si mesmas. Na época atual racismo é crime inafiançável; as mulheres vêm ampliando suas conquistas . Todas as formas de discriminação e preconceito são consideradas um desrespeito aos direitos humanos. Felizmente a mudança está aí ,e conhecer os costumes de séculos anteriores ilustra o quanto avançamos.

E acrescento mais uma ponderável razão ao defender a adoção de todas as obras do consagrado escritor Monteiro Lobato: se for censurada, a boneca Emilia vai ficar furiosa.   E olhem que a boneca é marrenta.

* Socióloga

Deusas

15 de setembro de 2014

Berenice Sica Lamas*

                                      Gaia Reia Demeter Iemanjá

mães da terra

dessacralizam espaços

entoam uma espécie de tormenta

torneio

anseio

deusas de palavras evocatórias

e chaves para o indecifrável

zelam pelas pedras do leite e amuletos

para os humanos eseus relógios de areia

embebedam-se de fertilidade,

rendem fluxo de excessos

ao prazer

 

*Psicóloga e escritora

Alquimia

13 de fevereiro de 2012

Berenice Sica Lamas*

decantar                                                                                                                                     

Não sei se as manias começam com mamãe ou com vovó, figuras dominadoras na minha vida. Onipresentes. O autoritarismo parecia vir através do genoma, escorria braços e pernas. Zinabre ferrugem nos neurônios. A carreirinha de formigas e azafamas pelos rodapés, fruto de um condicionamento mais do que centenário. Semente funde, divide e multiplica forrada de lã e cetim. Teto cheio de nichos e em cada um, um lustre de cristais e outras bobagens. Me diziam que as tríades eram as relações mais difíceis e complexas; ali estava eu, ponta de um triangulo somente de mulheres, e transgeracional ainda por cima. Duas pontas que se dobravam sobre a terceira, oprimida. 

Intuí o que aconteceria desde o velório de papai, quando minha avó estampou um semblante de alivio. Genro danado. Me dei conta de que ela teria minha mãe de volta. E provavelmente palpitaria até mesmo nos negócios. O caixão, ela ajudara os caras da funerária a aparafusar. Dio mio, ninguém se deu conta, somente eu.

Elas me disputaram para sempre e não foi fácil conviver. Necessitei transvasar obsessões e compulsões. Era purificação minha precisão. Formigas, impurezas, papeizinhos, resíduos, farelos e lascas de chocolate, tudo implodiu em meio à nuvem de veneno que inundou meu quarto. Aproveitaram, as duas loucas, um dia de aula noturna na faculdade. Vovó aparafusaria meu esquife também?                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                catalisar

Minha filha não sabe o que é bom para ela, de que necessita, não tem consciência, se transformou em uma menina sem pai. As moças de hoje privam de uma liberdade ainda maior do que a angariada nos anos 60 por minha geração mas administrar e reconhecer isso, neca pau. O que eu não daria para aplaudir novamente o por do sol o espetáculo diário em Morro de São Paulo na Bahia ou caminhar pelos Champs Elisèes em Paris tendo ao fundo o Arco do Triunfo? 

Acontecimentos de tempos atrás me alagam, porém a casa precisa de mim, arrumações, faxinas, agendamentos, compras. A companhia de mamãe me assegura, dá suporte. Uma casa com três mulheres é como uma fortaleza de hábitos e regras. Gosto do império do feminino, embora não entenda bem minha filha nem mamãe, às vezes sou um elástico puxado antagônico por ambas as pontas.

Me conformo com a viuvez, a morte do Paulo era inevitável, tudo excedia nele, eu nem avisava nem pedia mais. Fumo bebida e trabalho não é uma boa combinação, sobretudo se em excesso. Um remoinho de areia se aproxima, grãos em furacão, o coleguinha de minha filha, sim, um projeto portentoso de homem, que não saibam as outras mulheres da família. Em busca de minhas utopias derramadas através deste menino. Orvalho para desembaciar minha pele.    

condensar

Bem que preferiria um filho, um neto, e tive um genro fraco, pusilânime. Senti mais pelo pai de minha neta. Mastigo sementes de abóbora trituro ervas e se eu desaparecesse? o lago não murmura soletra letras que vagam duvidosas pelo caminho lácteo de um céu resplandecente será que conseguirei morrer? Ultrapasso um plano de realidade e me encaminho para encaracolados, me desdobro em inquietudes e gozos. O que está embaixo é semelhante ao que está em cima. Fiquei desarticulada e desorganizada, e daí? depois de viver mais de oitenta e cinco anos quem não fica?                                                                          

O rosto e o corpo murcham, tá certo, o cheiro de carne velha, talco, pó de arroz, colônia floral, memórias pedras preciosas em minha cabeça o mundo se alarga na velhice na proporção em que o corpo encolhe. Não é fácil equilibrar este contraste, cautelas acabam, quero é riscos traços marcas pesar plumas, na balança levezas. Mãos sujas em claros colarinhos nem filha nem neta sustentam a inquietação, quero me derreter feito relógio de Dali. Alguém duvida que vi o surrealismo nascer?                                                                                                                                     

Impossível não perceber os rastros, lençóis, papéis, mensagens, esta minha filha é muito burra mesmo, tentar resgatar fracassos deste jeito. Uma vida inteira pra aprender que tudo é processo, bem que alguém poderia contar isto pra gente na adolescência. E agora esta, o primeiro boletim de ocorrência de minha vida, pensei que havia surripiado a ècharpe sem testemunhas.

*Psicóloga e escritora

Relacionamento de uma pessoa com outra

10 de janeiro de 2012

Marco Antonio Fetter*

Nem o amor, e muito menos o casamento, surgiram assim sem mais nem menos. Foi criado, estruturado, se fez para atender algumas necessidades, ou melhor, o sentimento do amor e a instituição do casamento nasceram para atender as nossas melhores necessidades. Da alma e da vida. De uma vida com alma.

… é de se perguntar, então: onde e como começou o casamento? Por mais que alguns queiram acreditar, a caricatura do homem da caverna arrastando sua noiva pelos cabelos para a sua caverna não foi…com toda a certeza, o modo pelo qual o casamento começou. 

Outros entusiastas teóricos românticos podem especular que o homem começou em bandos de laços frouxos partilhando sexo, companheiras e filhos, juntamente com sua comida. Mas, embora tal opinião de vida comunal promíscua seja intrigante, os antropólogos não encontram provas para sustentar essas idéias propostas por antigos antropólogos e filósofos.

Mesmo os nossos parentes mais próximos entre os primatas não vivem em bandos promíscuos – podem ser mais ecléticos em sua vida sexual do que gostamos de pensar que somos, mas eles também seguem certas normas de relacionamento.

Simplesmente não sabemos quais foram às primeiras normas do homem no casamento embora se especule que o “vínculo do par” foi à unidade fundamental do homem em suas fases iniciais de desenvolvimento humano.  

Mas isso é apenas uma teoria, e, como as pesquisas da história humana e antropológica nos mostram, o modo de vinculação do homem no casamento tem sido espantosamente diverso, variando desde a monogamia até a poligamia. Entretanto, naquelas sociedades em que se preferem outras formas de casamento, a monogamia também existe, é uma norma universal em todas as sociedades do mundo.

Esse tipo de união da mulher e do homem pode não ser sexualmente exclusivo ou durar a vida inteira, mas sua presença em toda parte confirma o fato de que o relacionamento de uma pessoa com outra é uma norma humana básica.

O relacionamento de uma pessoa com outra satisfaz as necessidades profundamente humanas do indivíduo, as necessidades desenvolvimentistas e psicológicas da intimidade, confiança, afeição, associação e validação da experiência. Não precisa ser permanente, exclusivo ou dependente, mas o relacionamento de duas pessoas – de uma com a outra – permite uma aproximação e intimidade psicológica que nenhuma outra espécie de relacionamento oferece.

Na teoria, o casamento não deve ser necessário para haver um relacionamento de uma pessoa com outra. Na verdade, nem é preciso haver casamento para se legitimar um filho. Num mundo de verdadeira compreensão humana, o filho deve ser legítimo porque nasceu. Todos os requisitos para cuidá-lo – cuidado maternal, garantia de interdependência e cooperação com os outros, podem ser atendidos sem o casamento legal.

O amor e o companheirismo existentes entre um casal não necessitam de documento nenhum para fazê-los atuar ou assegurar sua existência. Ou precisam?

O compromisso com outra pessoa não pode ser legislado ou registrado. O “verdadeiro compromisso vem de dentro, não de fora de um relacionamento”. A assinatura de um contrato não pode garantir a ninguém o compromisso de outra pessoa no sentido emocional; porque a ausência de tal contrato deve significar falta de compromisso? Não deve, é claro. Mas, infelizmente, às vezes significa, e bastantes vezes para permitir que aqueles que acreditam no compromisso da companheira (ou companheiro) pensem duas vezes. Não precisaríamos do contrato de casamento, na realidade, se todos nós tivéssemos alcançado uma etapa de desenvolvimento humano que assegurasse responsabilidade e confiança mútuas entre todas as pessoas.

*Doutor em Sociologia da Família – www.rebraf.com.br

Curso: oficina de poesia na Academia Literária Feminina RS-2012

5 de janeiro de 2012

Ampliando o repertório 2: diálogos sobre poetas e poéticas com Ronald Augusto

Duração: 04 encontros-aulas, no mês de janeiro.

Local: Academia Literária Feminina/RS – Rua Sarmento Leite, 933 – quase esquina Rua Lima e Silva, Cidade Baixa, Porto Alegre, RS.

Datas: 12, 19 e 26/01 quintas-feiras e 17/01 terça-feira.

Horário: das 16h às 18h.

Inscrições pelos telefones: 9991 9292 ou 9676 2730 ou e-mail: alf.rs@terra.com.br 

Sobre a oficina

Um diálogo dinâmico sobre alguns poetas fundamentais da tradição poética de língua inglesa, seja em termos de fundação da linguagem moderna, seja em termos de perspectivas para a contemporaneidade. Através da apresentação e análise de obras chaves de determinados poetas, os participantes do curso se familiarizarão com as questões essenciais da função estética da linguagem e desse modo ampliarão sua capacidade de leitura e criação de poemas.

Os encontros serão dedicados aos seguintes autores: Walt Whitman, Ezra Pound, T. S. Eliot e, finalmente, William Carlos Williams e E. E. Cummings. Dentro deste quadro se discutirá desde a dicção versicular do utópico Whitman até a fratura sem-versista de Cummings, passando pela épica sem enredo de Pound, o imagismo de Williams e as 3 vozes poéticas de Eliot.

Em paralelo os participantes exercitarão a escritura de poemas que serão comentados e debatidos em grupo. O curso, portanto, também se voltará para o aspecto da criação verbal de cada interessado.

Em seus objetivos gerais a oficina pretende

Reforçar o valor da literatura como forma de ampliar a subjetividade do indivíduo — objetivo por si só pertinente, haja vista o panorama sociocultural cada vez menos voltado ao pensamento e à interpretação.

Divulgar e, na medida do possível, ampliar a riqueza da produção poética universal.

Estimular a produção de poemas no sentido de acréscimo criativo (qualitativo) à nossa tradição literária.

E em seus objetivos específicos

Identificar e explorar no interior do texto a função poética da linguagem, de modo a potencializar os elementos já iniciados ou prefigurados racional ou intuitivamente nos escritos dos candidatos.

Ler, em cada poema apresentado, o que está de fato escrito/inscrito desde um ponto de vista de forma-e-fundo, e não aquilo que gostaríamos que estivesse escrito.

Trabalhar elementos/insumos essenciais como sonoridade, rima, ritmo, imagem, e outras figuras de linguagem. Perceber que forma e conteúdo são inseparáveis.

Tomar consciência de que a poesia não é uma janela para o real. A arte da poesia propõe quando muito um sentido provável para o real.

Sobre Ronald Augusto

Ronald Augusto é um escritor que atua em inúmeras áreas: é poeta, músico (integra a banda os poETs), letrista (parcerias com Marcelo Delacroix), ensaísta e possui ainda um trabalho significativo no âmbito da literatura. Como poeta alcançou expressividade no cenário nacional e até mesmo mundial, de tal forma que suas produções foram publicadas em revistas literárias, bem como em antologias, dentre elas destacamos: A razão da Chama, organizada por Oswaldo de Camargo (1986), a revista americana Callaloo: African Brasilian Literature: a special issue, EUA (1995 e 2007), a revista alemã Dichtungsring Zeitschrift für Literatur, e outras.

As principais temáticas presentes no repertório intelectual de Ronald Augusto referem-se à poesia contemporânea e à literatura negra no Brasil. Entre essas publicações um estudo referente à obra de Cruz e Sousa mereceu destaque e por este trabalho o escritor recebeu a Medalha de Mérito conferida pela Comissão Estadual para Celebração do Centenário de Morte de Cruz e Sousa. Além dessa premiação, o poeta recebeu ainda o Troféu Vasco Prado conferido pela 9ª Jornada Nacional de Literatura de Passo Fundo, em agosto de 2001 e o Prêmio Apesul Revelação Literária em 1979.

Atualmente Ronald Augusto realiza palestras e oficinas/cursos abordando assuntos como música, poesia contemporânea e visual. Em 2007 criou ao lado do poeta Ronaldo Machado a Editora Éblis, voltada para a poesia. É diretor associado do website WWW.sibila.com.br. Colaborador do caderno Cultura do Diário Catarinense.

Entre suas principais publicações destacamos Homem ao rubro, de 1983, Puya, com a primeira edição em 1987; e ainda um dos seus mais recentes trabalhos, que recebeu o nome de Confissões Aplicadas, publicado em 2004. Recentemente publicou pela editora Éblis o livro de poemas No assoalho Duro (2007).

Escritura

11 de janeiro de 2011

Berenice Sica Lamas*

acadêmicas estudiosas
dizem a escrita feminina
é da ordem do impossível
(como o desejo?)
não é fácil, concordo
todavia não me sinto incapaz
às vezes desanimo desinspirada
até enclausuro encontro tempos
nunca impossibilitada

teimosamente
na orla do amarelo horizonte
há um sempre possível
dizendo

vem!

* Escritora e acadêmica da Academia Literária Feminina RS

Aposentadoria

17 de outubro de 2010

por Ana Mello

Essa semana um colega com 48 anos de trabalho resolveu parar de trabalhar, aposentado, optou por desligar-se do quadro de funcionário e curtir a vida a sua maneira. Ficamos todos fazendo contas e vendo quanto tempo mais trabalharíamos, discutindo o que faríamos depois de aposentados.

Em seguida vieram relatos de experiências de amigos de amigos quando se aposentaram. Muitas experiências tristes de pessoas que envelheceram rapidamente, que passavam o dia em casa de pijama só assistindo televisão. Algumas felizes, daqueles que resolveram
aproveitar para viajar ou fazer um curso que desejavam e não tinham tempo, para ler, ficar com os netos, fazer caminhadas diárias ou apenas curtir a vida fazendo o que estavam mesmo com vontade de fazer a cada momento.

Meu colega disse temer pelo seu casamento, pois a esposa poderá não agüentá-lo todos os dias em casa. É possível! Todas as coisas novas precisam de uma fase de adaptação, sem dúvida, mas depois tudo se acomoda, assim espero. Cada um sabe o que é melhor para si, contudo, quem sempre trabalhou a vida toda como dizem, deve se ocupar com alguma
coisas, ter uma rotina de atividades, nada muito estressante. Programar coisas para fazer como um cinema, café com os amigos, compras, visitas, atividade física. É o que pretendo fazer quando decidir me aposentar e escrever muito, ler muito, planos, muitos planos.

Seguidamente no shopping vejo um grupo de aposentados em um bom papo, dando risadas, fazendo lanchinho. No parque também é comum vê-los reunidos na maior farra. Todos homens, as mulheres não tem este hábito, pelo menos eu não tenho visto. Será que elas fazem outras coisas? Cuidam dos netos, quem sabe? Conheço umas que viajam, não param quietas em casa nunca.

Bate uma nostalgia em quem pára de trabalhar e nos que seguem trabalhando, afinal conviver com alguém durante muitos anos e interromper, é um pouco triste. Bom é saber que ele está vivo e com saúde e pode nos visitar sempre que quiser. É inevitável também ficar pensando em como mudamos neste tempo, namoros, casamentos, filhos, problemas compartilhados
e brigas, algumas brigas, passamos mais tempo no trabalho do que em casa e entramos na intimidade das pessoas próximas mesmo sem querer.

Sabemos das cirurgias uns dos outros, das doenças, dos aniversários, do colégio dos filhos, dos namoros, dos parentes. Já houve um tempo que eu achava chato saber de coisas que não me diziam respeito, depois amadureci também e fico feliz quando alguém quer me contar
algo pessoal, demonstrar sua alegria por alguma conquista ou algo assim.

Meu pai tinha uma dica ótima para aposentados e idosos, ele dizia que depois de certa idade temos absoluta obrigação de ficar bonitos e cheirosos e com um sorriso no rosto. Pois velho é que nem bebê, de fralda suja, ninguém quer dar colinho. Uma boa comparação para dizer que quem tem suas chatices e manhas, deve no mínimo tentar causar boa impressão. Certo ou errado eu não sei, mas ele sempre foi muito simpático e querido por todos e é isso que dá sabor a vida, percorrer caminhos, aprender, ser feliz.