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Mulheres e negros são protagonistas das eleições presidenciais

24 de setembro de 2014

Juan Arias (El País)

Mulheres e negros são duas categorias que reúnem o maior número de votos nestas eleições de 2014. Em comparação com 2010, as mulheres cresceram seis milhões. No total, 52% dos eleitores são mulheres, com 74,4 milhões de votos, contra 68,2 milhões de homens. Ao mesmo tempo, 55% dos brasileiros que têm direito a votar são negros.

Pode-se dizer, então, como apontam os sociólogos, que o sucesso das eleições depende, pelo menos numericamente, das duas categorias de eleitores.

Apesar disso, tanto as mulheres quanto os negros se queixam de não verem refletidas, nem na propaganda eleitoral de rádio e televisão, nem nos programas dos candidatos, suas verdadeiras exigências.

Mulheres e negros foram as duas categorias que mais demoraram historicamente a ter o direito de votar. Foi negado o direito de voto às mulheres até que os movimentos feministas forçaram para conseguir esta conquista. No Brasil, como no princípio os analfabetos não podiam votar, os mais discriminados foram os negros já que, herdeiros da escravidão que os libertou só em 1888 sem dar acesso à educação, continuaram constituindo a maioria dos que não sabiam nem ler nem escrever, e portanto estavam impedidos de votar.

Outra novidade no campo feminino, segundo reforçou a socióloga Fátima Pacheco, do Instituto Patrícia Galvão, ao comentar os resultados das pesquisas de intenção de voto feitas pelo Ibope, é que 69% das mulheres revelaram sua vontade de votar em uma candidata mulher.

Até agora, antes mesmo de iniciar a campanha eleitoral deste ano, os votos das mulheres que desejavam votar em uma candidata mulher estavam quase empatados entre as candidatas Dilma Rousseff (27%) e Marina Silva (26%).

Algo que, segundo os sociólogos, os partidos e os criadores de imagem dos candidatos costumam esquecer: o voto feminino é “mais pensado” que o dos homens. As mulheres examinam com maior atenção não apenas os candidatos, sua biografia, mas também seus programas, sobretudo os aspectos mais pragmáticos como os que se referem a políticas públicas, já que são elas as que mais sentem no cotidiano os prós e os contras destas políticas. É por isso que ainda hoje, a poucos dias das eleições, 37% das mulheres ainda não decidiram seu candidato. “As mulheres demoram mais para decidir o voto”, me dizia hoje Reginalda, a dona de um pequeno bar em Saquarema, na região dos Lagos, estado do Rio. Mesmo sendo evangélica, não tinha decidido ainda se votaria em Marina, embora tivesse claro que votaria em uma mulher: “O voto é uma coisa séria e as mulheres sofrem mais os efeitos de políticas corruptas e machistas”, comentou.

As mulheres, ao mesmo tempo, sobretudo entre as camadas mais humildes da sociedade, acabam tendo maior influência que os homens entre seus filhos e familiares em geral, assim como entre suas amigas.

Nas classes mais humildes, as mulheres são hoje em sua maioria chefes de família, o que leva a um maior peso na hora de influenciar as decisões dentro do lar.

Mais de 90%, por exemplo, dos cartões para receber o Bolsa Família estão em nome de mulheres – e é nesse âmbito que Dilma tem maior número de votos.

Apesar de constituírem o maior contingente de votos, só 10% dos cargos na política estão em mãos femininas.

Quanto ao voto negro, as políticas eleitorais ainda consideram pouco, em suas propagandas, os problemas desta categoria. O tema, por exemplo, de uma política clara e aberta contra o racismo, aparece sempre desbotado e em segundo plano.

Jacqueline Gomes, destaca, por exemplo, que se fala pouco do fato de que o chamado “racismo moderno” é muito mais sutil do que o racismo clássico. Assim, por exemplo, segundo ela, estaria sendo exigido da candidata Marina, pelo fato de ser negra além de mulher, o que nunca se exigiria de um homem e ainda por cima branco. Existem até aqueles que veem nas políticas de cotas para negros e pardos uma forma sutil de discriminação. Alguns prefeririam a igualdade de oportunidades para negros e brancos em todos os aspectos.

A presidenta Dilma se queixou mais de uma vez que, por ser mulher, era criticada por ser dura e exigente com ministros e congressistas. Segundo ela: “No homem, ser duro é uma virtude, enquanto que numa mulher, é uma debilidade.”

Algo parecido, segundo os psicólogos, acontece com os negros. Já foi escrito que se o ex-presidente do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa, tivesse sido um magistrado branco, talvez tivessem perdoado mais suas grosserias e intransigências no exercício do cargo.

As mulheres se inclinam a votar em candidatas presidenciais femininas, pelo fato de que, segundo afirmaram algumas sociólogas, elas têm a experiência de que uma mulher acaba entendendo melhor os problemas que mais interessam às mulheres e que os homens nem sempre são capazes de captar.

As mesmas feministas que, segundo o jornalista Jarid Arraes, “não gostam de” Dilma, no entanto acabam preferindo votar nela do que em um candidato homem.

A psicóloga Leda Mendes Pinheiro considera que nos temas que interessam às mulheres, como por exemplo, o do aborto, Dilma é mais aberta pessoalmente do que poderia ser institucionalmente, pelas dificuldades que deveria enfrentar no Congresso e em alguns partidos aliados.

Se o maior número de eleitores que têm direito a votar são mulheres e negros, quem aparece mais favorecida, segundo analistas políticos, seria a candidata Marina Silva pela possibilidade de chegar à Presidência, pela primeira vez, uma mulher que também é negra.

No entanto, cada eleição é uma incógnita e só no dia 5 de outubro poderá ser comprovada a consistência das teses sociológicas que estão sendo embaralhadas nestas tensas eleições presidenciais, as mais complexas e com maiores surpresas das últimas décadas.