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Cerimônia de Adeus

15 de setembro de 2014

Berenice Sica Lamas*

Coimbra, 27 de Abril de 1956 – Pareço uma rês enfragada, a que ninguém pode acudir. Gemo no fundo do abismo, com a alma partida, e só no desespero encontro conforto. É um desamparo     irremediável que sinto, uma velhice súbita que me dobra, uma solidão absoluta que me acobarda (A morte do pai – Miguel Torga).

Repentinamente viajo ao Brasil devido ao agravamento da doença do pai – ainda o vejo na UTI de um hospital com alguma lucidez e ele me reconhece – falece alguns dias depois. Ainda acompanho a mãe e os irmãos alguns dias e regresso em seguida. A viagem em si não foi fácil: pouco tempo e longa distância; ao todo, sete aviões entre ida e volta, em nove dias. Sentimentos contraditórios: rever amigas e familiares nesta situação – o pessoal todo de Pelotas novamente em Porto Alegre, as duas famílias de origem, como nas festa de suas bodas, impossibilidade de conversar, tempo escasso, situação familiar em luto.

Te olhar, pai, com o físico tão depauperado, teu corpo frágil sob o lençol, solto aos caprichos das trevas que talvez não demorem, cheio de aparelhos que não permitem que fales, durante minutos controlados pelo relógio em rodízio de familiares. Tu que sentes tanto frio, aqui exposto com roupas neutras e toscas tão exíguas. A vulnerabilidade. A fragilidade. A solidão. A terrível solidão da morte, sem teus queridos, sem o aconchego de teu ninho, atravessado pela parafernália hospitalar que sabemos não adiantar mais nada.

Te sinto tão perto entretanto longe, em outras paragens azuis prateadas rosadas. Hoje morrer em casa é luxo para poucos. Desfio palavras e preces discretas, somente pra ti. Rondam por aqui teus cavalos esculpidos e peixes e barcos navegam nesta imensa enfermaria. Vejo em especial um cavalo que te vigia e não vai embora. Teus pensamentos dissolvidos nas sombras, já adentras no sótão e porão do armazém do vovô Lamas. Talvez na fusão eterna com o outro Rubens que te antecedera, desaparecido precocemente, este duplo que habitou tuas memórias, este fantasma que emoldurou tuas paredes, este irmão morto precocemente de quem herdasses o mesmo nome. Desprendo-me e também estalo por ali, em busca de anotações, bilhetes e lembretes com tua letra clara e precisa em papeizinhos dobrados entre as páginas de teus livros. Encontro o chapéu tirolês, presente antigo meu. Sou um peixinho vermelho tecendo vôo com guelras famintas. Te vais nas luzes pálidas do outono.

Não era esta a visita idealizada, ainda mais no primeiro retorno depois de um ano. Senti-me muito desconfortável, com sentimentos de “não lugar” e  desterritorializada. Quando voei de retorno a Bologna, tive a sensação de estar voltando pra casa e isto me assustou um pouco. Minha identidade foi revolvida outra vez.  A vida oferta situações singulares às vezes: eu não estava ao lado de meu filho quando perdeu o pai, mas ele estava a meu lado quando perdi o meu, seu avô. Voltar a dormir “em casa” trouxe um certo estranhamento: peças vazias, meu quarto disposto em outro cômodo, a mala permaneceu no chão até o momento do retorno, nem desfeita foi – tudo muito rápido. Me empanturrei de filmes em DVD da locadora – uma boa fuga, as legendas em português me confortavam, acostumada ao italiano. Vagava pelo apartamento já um tanto esvaziado. Apesar de ser abril e inicio de maio, o frio já chegara a Porto Alegre. Houve ate mesmo o brinde de um ciclone extra-tropical. Revi algumas amigas, jantei com duas.

Conheci uma sobrinha neta de três meses. A casa nova construída pelo irmão caçula. Pude ajudar no rearranjo de móveis do quarto da mãe, das arrumações dos armários e separação das roupas do pai, papelada, amparando-a nestes primeiros dias de luto. Não havia digerido nada ainda quando embarquei de novo alguns dias depois. Precisei de um tempo – reorganizar tudo para seguir o movimento dos compromissos ou o contrário, as tarefas me ajudaram a me reestabelecer. Pai, voltei contigo no coração e mente, não existia mais tua figura física. Fotos, lembranças, pensamentos. Transbordava pra dentro. Tua presença muito forte em mim. Como dispôs Proust, o morto continua a agir sobre nós. Tua vida interrompida continuava em nós, uma extensa família. Pressinto que a dinâmica da família se modificará para sempre. Ao reler o livro de memórias chegando em Bologna, me emocionei e chorei muito nas diversas passagens em que me ocupei de ti. Pude te sentir e te reviver. E ressignificar tudo de ti em mim.

Sério, calado, circunspecto, encapsulado, mas com um humor prestes sempre a desabrochar, ditos espirituosos à espreita – rejeitavas o aparelho que te melhoraria a audição, pois era cômodo muitas vezes fingir não ouvir. Podias ficar sem proferir uma palavra durante cinco, seis ou até mais horas – às vezes se chegava na casa de vocês e a mãe logo dizia “teu pai ainda não deu uma palavra hoje” como se fosse uma grande novidade ou como se pudéssemos fazer alguma coisa a respeito e agora, que me dizes de tua própria morte? – agora já disseste tudo, não precisas falar mais nada.

Contradições e paradoxos de tua vida, vivida de forma tão intensa, interna, tão interior – sabias pensar, refletir, avaliar, sabias tanta coisa, mas não compartilhavas tanto – às vezes de mal com o mundo e com as pessoas, custavas a fazer as pazes, azedavas rancores inúteis, uma pena. Tanto sofrias com os fatos externos, do social – um assalto a uma agência do Banco do Brasil, por exemplo, era motivo de te colocar sofredor e aflito por dias e dias. Uma vez funcionário do BB, sempre funcionário do BB!! Acidentes rodoviários também te mobilizavam muito, talvez pela perda prematura de nossa Dag em 1974. Gostavas de uma contra-luz, de um ventilador indireto, de um lençol térmico aconchegante, jogo de luzes e sombras, penumbras, músicas de CD’s e jornais do dia.

Petiscos diferentes para saborear, que os filhos buscavam com prazer – bolinho de bacalhau do restaurante Calamares, por exemplo ou galinha ao molho pardo. Passeios com os filhos aos arredores de Porto Alegre. Visitas à tua Pelotas querida. Foi difícil manejar e conter a fase das compras pelo programa Shopping Time da TV, pois conseguias driblar o controle da mãe, e quando se percebia, estavam chegando ventiladores, jogos de lençois, caixas de facas de todos os tamanhos e usos, rádios, e muitos outros objetos e aparelhos. Tivemos que bloquear o acesso ao telefone do programa. Não ficaram débitos emocionais, não temos contas pessoais afetivas a ajustar nem a pagar. Não precisarei escrever uma Carta ao pai ao modo de Kafka. Sensibilidade vivida pra dentro, raramente externalizada. Sob esta capa antissocial uma vida interior plena de riquezas mas tuas dificuldades impunham limitações que bloqueavam teu ser mais participativo. Generoso, no entanto, com os seus, da forma como eras capaz: presentes, ajudas financeiras, adoravas surpresas – tanto proporcioná-las quanto recebê-las. Silencioso em vida, na morte fazes um rumor tremendo, espesso…Sempre foste um… & outros. Múltiplo.

quando morre um pai,

                       são tantos

não se perde o pai

                        se perdem muitos

o que embalou fez ler proibiu o namoro

ensinou a dirigir dançou a valsa levou a viajar  

                      modelou constância honra

                      responsabilidade lealdade dignidade

                                       gosto pela arte beleza estética

                                                       leitura gatos cavalos

                                                      valor do silêncio

o que babou com os netos, bisnetos

        adoeceu, envelheceu

 

* Psióloga e escritora