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Alquimia

13 de fevereiro de 2012

Berenice Sica Lamas*

decantar                                                                                                                                     

Não sei se as manias começam com mamãe ou com vovó, figuras dominadoras na minha vida. Onipresentes. O autoritarismo parecia vir através do genoma, escorria braços e pernas. Zinabre ferrugem nos neurônios. A carreirinha de formigas e azafamas pelos rodapés, fruto de um condicionamento mais do que centenário. Semente funde, divide e multiplica forrada de lã e cetim. Teto cheio de nichos e em cada um, um lustre de cristais e outras bobagens. Me diziam que as tríades eram as relações mais difíceis e complexas; ali estava eu, ponta de um triangulo somente de mulheres, e transgeracional ainda por cima. Duas pontas que se dobravam sobre a terceira, oprimida. 

Intuí o que aconteceria desde o velório de papai, quando minha avó estampou um semblante de alivio. Genro danado. Me dei conta de que ela teria minha mãe de volta. E provavelmente palpitaria até mesmo nos negócios. O caixão, ela ajudara os caras da funerária a aparafusar. Dio mio, ninguém se deu conta, somente eu.

Elas me disputaram para sempre e não foi fácil conviver. Necessitei transvasar obsessões e compulsões. Era purificação minha precisão. Formigas, impurezas, papeizinhos, resíduos, farelos e lascas de chocolate, tudo implodiu em meio à nuvem de veneno que inundou meu quarto. Aproveitaram, as duas loucas, um dia de aula noturna na faculdade. Vovó aparafusaria meu esquife também?                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                catalisar

Minha filha não sabe o que é bom para ela, de que necessita, não tem consciência, se transformou em uma menina sem pai. As moças de hoje privam de uma liberdade ainda maior do que a angariada nos anos 60 por minha geração mas administrar e reconhecer isso, neca pau. O que eu não daria para aplaudir novamente o por do sol o espetáculo diário em Morro de São Paulo na Bahia ou caminhar pelos Champs Elisèes em Paris tendo ao fundo o Arco do Triunfo? 

Acontecimentos de tempos atrás me alagam, porém a casa precisa de mim, arrumações, faxinas, agendamentos, compras. A companhia de mamãe me assegura, dá suporte. Uma casa com três mulheres é como uma fortaleza de hábitos e regras. Gosto do império do feminino, embora não entenda bem minha filha nem mamãe, às vezes sou um elástico puxado antagônico por ambas as pontas.

Me conformo com a viuvez, a morte do Paulo era inevitável, tudo excedia nele, eu nem avisava nem pedia mais. Fumo bebida e trabalho não é uma boa combinação, sobretudo se em excesso. Um remoinho de areia se aproxima, grãos em furacão, o coleguinha de minha filha, sim, um projeto portentoso de homem, que não saibam as outras mulheres da família. Em busca de minhas utopias derramadas através deste menino. Orvalho para desembaciar minha pele.    

condensar

Bem que preferiria um filho, um neto, e tive um genro fraco, pusilânime. Senti mais pelo pai de minha neta. Mastigo sementes de abóbora trituro ervas e se eu desaparecesse? o lago não murmura soletra letras que vagam duvidosas pelo caminho lácteo de um céu resplandecente será que conseguirei morrer? Ultrapasso um plano de realidade e me encaminho para encaracolados, me desdobro em inquietudes e gozos. O que está embaixo é semelhante ao que está em cima. Fiquei desarticulada e desorganizada, e daí? depois de viver mais de oitenta e cinco anos quem não fica?                                                                          

O rosto e o corpo murcham, tá certo, o cheiro de carne velha, talco, pó de arroz, colônia floral, memórias pedras preciosas em minha cabeça o mundo se alarga na velhice na proporção em que o corpo encolhe. Não é fácil equilibrar este contraste, cautelas acabam, quero é riscos traços marcas pesar plumas, na balança levezas. Mãos sujas em claros colarinhos nem filha nem neta sustentam a inquietação, quero me derreter feito relógio de Dali. Alguém duvida que vi o surrealismo nascer?                                                                                                                                     

Impossível não perceber os rastros, lençóis, papéis, mensagens, esta minha filha é muito burra mesmo, tentar resgatar fracassos deste jeito. Uma vida inteira pra aprender que tudo é processo, bem que alguém poderia contar isto pra gente na adolescência. E agora esta, o primeiro boletim de ocorrência de minha vida, pensei que havia surripiado a ècharpe sem testemunhas.

*Psicóloga e escritora