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Maratonar com leveza, eis o desafio

14 de agosto de 2020

Eloá Muniz*

Em tempos de pandemia maratonar tornou-se um verbo bastante conhecido e propagado. As imagens e o mergulho no desconhecido tornaram o isolamento social uma atividade essencial e fóbica. A ansiedade e o medo apoiado pela mídia catastrófica tornou insuportável a brusca mudança de comportamento social via decreto e orientações desconexas. Uma doença desconhecida e cruel tomou conta do planeta: globalização pandêmica.

Uma sociedade acostumada a viver no público viu-se obrigada a viver no privado. Que privado? Cada pessoa precisou buscar seu cantinho preferido, tanto na casa como na alma. As informações diversas, dispersas e desencontradas. É um game?

Aos poucos uma nova rotina se impôs e a sociedade não estava preparada. Ocupar o tempo. Usar o tempo. Aproveitar o tempo. Tempo para o sol. Onde? Cadê o tempo? Distanciamento. Isolamento social. Aproximação virtual. Espaço fértil para consumir cultura. Os produtos culturais, como um elemento líquido, penetram nos espaços vazios. Surgiu a cultura líquida.

As plataformas de streamings da infoesfera (como Netflix, Amazon Prime Vídeo, HBO, Globoplay, Fox+, Telecine Play e outras) estavam lá. A Netflix com as estratégias mais eficientes identificou a oportunidade de imediato. Ganhou o público com seus produtos culturais, séries e filmes. Ocupou o Top 10 na conexão com o telespectador. Maratonar tornou-se imperativo. A quarentena obrigou os canais abertos a uma programação de reprises e, assim, a migração para novos conteúdos foi rápida.

As redes sociais alavancaram o processo de distribuição e propagação de um novo comportamento: Estou maratonando a série tal. E você? Eu também. Estou adorando esta série. Ou Eu parei de assistir na primeira temporada. Não gostei. A linguagem tornou-se leve, gostei ou não gostei, simples assim.

De repente, as pessoas pararam de se contrapor e passaram a falar de temas amenos. A grosseria de “quem tem razão grita”, perdeu seu efeito devastador, e, finalmente, se poderia conversar nas redes sociais face to face. Cresceram as conexões via WhatsApp. Que susto para o establishment.

A cultura invadiu os lares das pessoas conectadas às plataformas, desterritorializando a cultura como se fora líquida. As séries espanholas e mexicanas chegaram aos corações da audiência surpreendendo, inclusive os executivos da Netflix. Rapidamente a plataforma tornou-se receptora de séries e filmes em língua espanhola fazendo frente às grandes produções norte-americanas. No bojo desses acontecimentos vieram as produções canadenses, alemãs, inglesas, e francesas.

O isolamento social trouxe uma grande mudança de comportamento, os brasileiros passaram a consumir cultura fora do eixo Globo-Hollywood. Descortinou-se uma nova possibilidade de contar e ouvir histórias: as produções europeias.

Portanto, maratonar, uma atividade muito intensa e que ao tornar-se ação efetiva nessa quarentena, passou a significar assistir a uma série sem parar. Ler um livro ou consumir qualquer produto de entretenimento de forma ininterrupta, frenética e incessante, com muito interesse e empolgação tornou-se um comportamento ritualizado, preparar os lanches, organizar o espaço confortável, relaxar e curtir.

Uma ação individual ou coletiva de assistir tornou-se sinônimo de maratonar. Se a televisão tem como característica a tradição humana mais antiga que é a de contar e ouvir histórias, nesse período pandêmico ela apresenta uma audiência não aglomerada, mas muito mais numerosa do que jamais foi possível conseguir na história da humanidade, atender as demandas pandêmicas: isolados, mas virtualmente aglomerados.

Os artistas com o poder de estarem em milhares de lugares ao mesmo tempo conectando-se a pessoas dispersas geograficamente – local e global –, perfeitos simulacros de deuses, contam histórias simultâneas, falando em todos os idiomas, numa verdadeira maratona globalizada. As redes sociais crescem com críticas a favor e contra, revelando que o trinômio drama-conflito-ação parece ser indissociável, não apenas para o cinema clássico, como para todas as linguagens. Mundialização das histórias transmitidas pelas infovias e impulsionadas como culturas líquidas para o consumo na casa ou nas mãos de cada espectador.

O Brasil é um país tradicionalmente afeto aos relatos orais, leituras em voz alta, declamações, histórias continuadas nos serões familiares, local em que nem todos são alfabetizados. A televisão reeditou esse hábito de ouvir histórias em capítulos, reunidos em família, promovendo conversas relevantes. A telenovela narra as histórias, tal como folhetins românticos e heroicos, organiza o cotidiano das pessoas que se acostumaram a assistir o contar e recontar em tempos divididos, sempre no mesmo horário, narrações em forma de diálogos, esteticamente bem apresentados. Os cenários, locações e figurinos apresentam os personagens no contexto de suas histórias contribuindo com a narração não verbal, e os diálogos, luzes e trilha sonora contribuem com o contar da história, a narração verbal. Completam-se para atingirem os sentidos. 

A telenovela é uma obra aberta, portanto, a opinião da audiência é muito relevante, e a história vai se estruturando e se transformando conforme a anuência do público em relação aos personagens. Trata-se de uma forma de contar histórias que ganhou o mundo. Mas parece que a pandemia alterou um pouco essa relação. Os produtos com características de serialidade diária exigem um espectador disposto a assistir todos os dias a mesma história, na mesma hora, e dessa maneira, organize seu cotidiano. Uma ritualização durante um período, estar sempre à frente da televisão naquele tempo e ao mesmo tempo.

Nessa linha de produtos em capítulos existem três tipos diferentes: a telenovela organizada em capítulos, em que o seguinte é continuação do anterior, sem que haja previsão do desenvolvimento e desenlace da história; a série ou seriado é uma sequência de histórias completas – apresentação do tema, problematização e desenvolvimento e finalização – com os mesmos cenários e personagens principais. Cada episódio é independente, não tem compromisso com a continuidade narrativa, apenas manter as características dos personagens fixos; e a minissérie que possui uma história fechada, em capítulos definidos previamente – apresentação dos personagens na história, desenvolvimento e finalização – junto à produção. Constitui-se numa obra fechada.

A televisão de canais abertos e fechados assustou-se, viram sua programação patinar na audiência e anunciantes migrando para outras formas de apresentação de conteúdos. Os tradicionais serviços de TV por assinatura perderam assinantes, enquanto as plataformas de streaming crescem nitidamente. A pandemia acelerou esse processo e a Netflix, a principal plataforma de streaming, ultrapassou as assinaturas de TV a cabo nos Estados Unidos e o Brasil seguiu no mesmo ritmo.

A pandemia impulsionou esse aumento, mas o investimento em conteúdo original foi ainda mais significativo. Mais conteúdo próprio significa independência em relação às emissoras e até economiza nos gastos com direitos de transmissão de conteúdos alheios.

No Brasil os dados da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) mostram que o mercado de TV paga perdeu mais de 10% de sua base. Isso significa que a cada 100 televisores, pelos menos 32 estavam sintonizados na Globo e outros 15 conectados aos serviços de streaming. Os outros televisores dividiram-se entre todos os canais abertos.

As séries espanholas lideram as plataformas de streaming e ganham Top 10, globalizando-se. Obtiveram os maiores índices na recepção das histórias contadas e trouxeram ao mundo uma nova possibilidade, resgatar a teledramaturgia com estrutura de direção artística e roteiros bem escritos. Conteúdos criativos com forte apelo emocional, mas com componentes históricos reais. O feminismo, a sororidade, a sexualidade, as lutas cívicas e o amor romântico desfilaram em épicos folhetins arrebatando os assinantes como há muito não acontecia com as histórias contadas na contemporaneidade. A estética ocupou-se em modelar uma nova forma de contar histórias usando o mesmo modelo shakespeariano.

Os canais de TV aberta ou a cabo terão que rever sua programação. Telenovelas longas demais não serão acompanhadas, tem-se pressa de viver. Temas duros e muito reais não serão arrebatadores, tem-se pressa em sonhar. A falta de otimismo e o fatalismo não terão espaço, tem-se pressa de um novo normal. Cada experiência trouxe um novo alento e uma nova forma de resolubilidade, centrado no eu e, depois, no outro mais próximo. Não há tempo de espera.

A pandemia trouxe um grande aprendizado: o desapego. Para viver é preciso tudo isso? O consumerismo desacelerou. A pandemia ensinando prioridades. Mostrar que o planeta é um só, sem muralhas e sem separações entre as pessoas, as classes sociais desaguaram no vazio. É necessário compreender o novo normal. E qual seria? Quanto mais se vive mais se perde, mas não se pode viver com medo. Relaxar um pouco é preciso. Tentar apreciar o que se tem é viver o presente. Gosto deste presente? Todo o tempo é de ser. Não renuncie a nada.

* Psicanalista Clínica, Publicitária, Professora, Escritora e Ensaísta. www.eloamuniz.com.br. eloamuniz@terra.com.br.

DRINQUE: Sweet blade poético

28 de julho de 2020

Berenice Sica Lamas*

Ingredientes: uma dose de licor Baileys irish cream, 1/4 de dose de grapa, cubinhos de gelo, uma bola de sorvete de baunilha, creme ou chocolate, canela em pó, folhas de hortelã, açúcar, creme, gotas de baunilha, chocolate raspado, Bolero de Ravel, livros de poesia, filmes.

Modo de fazer: colocar os ingredientes – licor, grapa, sorvete, gelo e baunilha – na coqueteleira devagar, no intervalo entre um e outro leia um poema de amor do Afonso Romano Sant’ ana, um do Cesare Pavese, outro do Eugenio Montale, deguste Hilda Hilst e Adélia Prado e seus fervores, vá dissolvendo as dores e conflitos por antecipação. Aceite o prazer e a bem aventurança que se aproximam. Misturar até adquirir tessitura homogênea.

Neste momento ponha o bolero de Ravel a tocar, as notas deverão se misturar aos demais ingredientes e posteriormente inundar a boca. Seu corpo ondulará ao natural em movimentos dançarinos. Junto ao gelo moído serão trituradas as amarguras e aflições.   

Verta em uma taça alta – gelada previamente – e alterne a mistura com camadas de creme. Use um mixing glass se precisar e a colher bailarina própria de bares. Sugerem-se mais palavras, melopéias diretas na saliva. Concilie a dança com o preparo do néctar macio.  

Decore com folha de hortelã e açúcar gelado na beira e raspas de chocolate, polvilhe com canela. Estale beijos e afine a sensibilidade. Se quiser, enfeite ainda com fios de mel e fragmentos de chocolatinho-menta, o pratinho em que repousar a taça. Confunda tudo com rimas, ritmos, sonoridades, aliterações, metáforas, sínteses. Os versos livres e a música deverão pairar em torno do drinque que o prazer bebe. O condensado da poesia se entrelaça com o denso do paladar. Baileys perfuma a amêndoas e avelãs, creme e café.     

Lambuze o beiço, sinta no corpo. Gire o filme “A mulher do lado” ou “Blade Runner”. O paladar, os olhos e a mente agradecem.

Obs. – substitua os poetas, a música e os filmes a seu gosto.   

  • Psicóloga e Escritora

Uma narrativa da pandemia

16 de abril de 2020

Berenice Sica Lamas*

001 bereNos aeroportos o cenário já me parecera realidade paralela de ficção científica. Estaria eu personagem de um filme ou de um livro? Evocava Ray Bradbury, Isaac Asimov, Poul Anderson. Todo mundo de máscara, alguns de luva. Pessoas quietas, silenciosas. Tentando manter espaço entre si. Cenário fantasmagórico. Estranhamento total.

Primeiro paraliso me concentrando apenas em estar ali, me dou uns momentos para sentir que estou em casa, do ângulo em que me encontro observo a sala e a cozinha. Há algumas horas atrás saíra do hotel com o motorista da empresa para o aeroporto. álcool em gel, lavar as mãos com sabão.

Segundo, observo mala, mochila e bolsa na porta, levo para a área de serviço, esvazio e coloco quase tudo na máquina de lavar. Passo álcool em gel, água sanitária. Papéis, computador na bancada de pedra na cozinha, descalço os tênis também na área. Limpo as solas. Estão lá até hoje, abertas, higienizadas e não tenho coragem de guardá-las. Idem os tênis. Não toquei mais, até parece trauma.

Terceiro, olho a geladeira, o freezer, bem abastecidos. Na véspera meu filho cozinhara e levara mantimentos e me dissera ao telefone: – “quando chegares, tu não sais mais”! Frango ao catupiry, carne assada ao molho, arroz, lentilha, lasanha, vários potes. Frutas, legumes, ovos, leite, massa, mel. Produtos de limpeza. Filho de ouro. Começo a conscientizar o que poderia significar uma quarentena.

Quarto, enfim o tal banho sanitário e troca de roupa. Mais itens para a máquina de lavar. E vou descansar, que o primeiro voo saíra as 3 da manhã e eu estou insone.

Começo a trabalhar online, o que já costumo fazer. Revisões e orientações, álcool em gel, lavar as mãos com sabão, relato do trabalho realizado que realizara em março álcool em gel, lavar as mãos com sabão. Telefonemas e mensagens de whatsapp, álcool em gel, lavar as mãos com sabão, noticiários na TV e séries e filmes na Netflix, sarau literário por google meet, como é bom rever o grupo, mais disciplinado do que nunca por conta do encontro virtual, ninguém fala ao mesmo tempo, parabéns um aninho do sobrinho neto by encurtador online engarrafamento de familiares na tela álcool em gel, lavar as mãos com sabão, vídeo chamada por hangout com família. Caminho, danço. Em casa.

Penso que nossa geração – alvo principal do vírus – tem que ceder o bastão prematuramente à geração dos filhos que nos ajudam agora, somando-se aos cuidados com seus próprios filhos, nossos netos. Não podemos mais ajudá-los como antes. Essa inversão me incomoda, eles estão sobrecarregados com duas gerações nas costas. Que vírus danado. Que mexida na ordem, que caos instalado. No 4º dia senti tontura, caminho meio torta pela casa, chequei se seria sintoma do corona, mas não. Qualquer arranhadinho na garganta lá ia eu para o termômetro. E vá gargarejo com água morna e sal. Litros de chá e água. Como tenho rinite alérgica e tosse de refluxo, às vezes pensava, será o corona?

Comecei a reler Camus, sua Peste. O próximo será Boccaccio, seu Decameron. Somente para combinar com a realidade. E dê-lhe desinfecção, álcool, água sanitária, desinfetante. E não deixar louça suja, meu pior pesadelo: o tempo de cozinha, de máquina de lavar, de limpar a casa, de lavar gêneros alimentícios. Essa higienização diária vai me deixar maluca.

Inicia uma reconstrução do dia a dia, novo cotidiano, álcool em gel, lavar as mãos com sabão. Enclausurada, sem liberdade de ir e vir. Em contrapartida, outras liberdades a serem exercidas. Não me abato. Mas reconheço que me sinto controlada. Sem saber que novo mecanismo é esse.

Gosto de estar em casa sozinha. Sempre tenho mil coisas para fazer, pensar, imaginar, arrumar, organizar, ler. Porém esse jeito compulsório e com esse vírus lá fora ameaçando, não é nada confortável. Gosto de estar com meus netos, agora somente por vídeo chamadas. Me sinto espionando suas brincadeiras, participação virtual.

Mais uns dias e as contas começam a chegar. Não usar aplicativo de banco pode ser uma limitação. E os papéis para o imposto de renda? Motoboy será a solução, álcool em gel, lavar as mãos com sabão.

O cara da fruteira se despediu após me entregar as sacolas no portão do edifício, e depois do ritual do pagamento com a maquininha envolta em papel filme (será q adianta?), ia saindo com meu cartão enfiado na máquina. Gritei, ei, meu cartão! Ele se voltou pedindo desculpas. Todo o mundo atrapalhado, álcool em gel, lavar as mãos com sabão.

Passa um carro com alto falante de som metálico que proclama: Fiquem em casa! Fiquem em casa! Recordo de imediato o chamado para o circo de minha infância. Uso máscara e luvas quando desço p colocar o lixo e buscar a correspondência e o jornal. O novo mundo com coronavírus. Álcool em gel, lavar as mãos com sabão. A vida em suspenso. A rua antes tão disputada para estacionamento, agora vazia, desfigurada.

Finalmente os 14 dias!! para ter certeza de que não retornei da viagem infectada. Mas não consigo me sentir aliviada. “O mundo como o conhecemos, não existe mais”, ouço na TV. Frase forte. Meu sistema imunológico fraco.

Aglomerações, não uso de máscara, quebra do isolamento social. O ser humano se mostra mais onipotente, ignorante e alienado como nunca. Mecanismo maciço de negação. Mais do que medo… O corona já captura mais de dois milhões de habitantes do planeta e o nº de mortos ultrapassa os cem mil e trezentos, até o fechamento deste relato. Não adianta buscar bodes expiatórios, precisamos de ação, ação!! Um viruzinho que nem vivo é, uma proteína revestida, um micro organismo invisível, tão letal e perigoso. Colocando o mundo de joelhos. Tive que adicionar seu nome ao dicionário do meu computer. Às vezes ainda perpassa uma sensação de irrealidade. Pandemia.

Zanzo pela casa durante o dia passando por diversos estados de espírito: indignada, perplexa, compassiva, alarmada, vulnerável, repugnada, assustada, raivosa, envergonhada, fragilizada, impotente, raramente tranquila (meu professor de oficina literária Assis Brasil diria: menos enumeração, Berenice), álcool em gel, lavar as mãos com sabão. Respira a terra, gorjeiam as águas, limpa-se o ar. E morrem as pessoas.

Minhas mãos nunca estiveram tão cheirosas nas 24 horas do dia. Mesmo cortando cebola, elas rescendem a perfume.

Mordo a cenoura crua, cansada de lavar panelas. Meus dentes hão de aguentar.

*Psicóloga e escritora

Bando de Cafonas

28 de agosto de 2019

Fernanda Young não foi em silêncio. Seu último texto:

A Amazônia em chamas, a censura voltando, a economia estagnada, e a pessoa quer falar de quê? Dos cafonas. Do império da cafonice que nos domina. Não exatamente nas roupas que vestimos ou nas músicas que escutamos — a pessoa quer falar do mau gosto existencial. Do que há de cafona na vulgaridade das palavras, na deselegância pública, na ignorância por opção, na mentira como tática, no atraso das ideias.

O cafona fala alto e se orgulha de ser grosseiro e sem compostura. Acha que pode tudo e esfrega sua tosquice na cara dos outros. Não há ética que caiba a ele. Enganar é ok. Agredir é ok. Gentileza, educação, delicadeza, para um convicto e ruidoso cafona, é tudo coisa de maricas.

O cafona manda cimentar o quintal e ladrilhar o jardim. Quer todo mundo igual, cantando o hino. Gosta de frases de efeito e piadas de bicha. Chuta o cachorro, chicoteia o cavalo e mata passarinho. Despreza a ciência, porque ninguém pode ser mais sabido que ele. É rude na língua e flatulento por todos os seus orifícios. Recorre à religião para ser hipócrita e à brutalidade para ser respeitado.

A cafonice detesta a arte, pois não quer ter que entender nada. Odeia o diferente, pois não tem um pingo de originalidade em suas veias. Segura de si, acha que a psicologia não tem necessidade e que desculpa não se pede. Fala o que pensa, principalmente quando não pensa. Fura filas, canta pneus e passa sermões. A cafonice não tem vergonha na cara.

O cafona quer ser autoridade, para poder dar carteiradas. Quer vencer, para ver o outro perder. Quer ser convidado, para cuspir no prato. Quer bajular o poderoso e debochar do necessitado. Quer andar armado. Quer tirar vantagem em tudo. Unidos, os cafonas fazem passeatas de apoio e protestos a favor. Atacam como hienas e se escondem como ratos.

Existe algo mais brega do que um rico roubando? Algo mais chique do que um pobre honesto? É sobre isso que a pessoa quer falar, apesar de tudo que está acontecendo. Porque só o bom gosto pode salvar este país.”

Sobre Salete Beatriz

18 de dezembro de 2017

Presidente do Conselho Estadual dos Direitos da Mulher

Salete Beatriz Roszkowski nasceu no dia 07 de agosto de 1962, em Porto Alegre. Reside na cidade de Eldorado do Sul e trabalha em Porto Alegre. Funcionária pública estadual exerce suas atividades profissionais na Assembleia Legislativa do Estado do Rio Grande do Sul, como assessora parlamentar.

Estudou o Curso Médio no Ginásio da Paz e a graduação em Administração na Universidade Luterana do Brasil -Ulbra.

É militante do Partido Democrático Trabalhista – PDT desde 1988. Exerceu vários cargos entre eles Secretária de Organização Nacional do PDT; e é Titular do Diretório Estadual e Nacional do PDT.

De 2012 a 2014 trabalhou na Secretaria de Polí­ticas para as Mulheres do Estado do Rio Grande do Sul. Assumiu o cargo de Diretora de Relações Internacionais na Secretaria.

Sempre ativa e se empenhando para conquistar espaços e exercer atividades que dignifiquem as mulheres foi Secretária Municipal de Saúde, de janeiro de 2000 a dezembro de 2002 e Diretora do Meio Ambiente de janeiro de 1990 a janeiro de 1994, ambas em Eldorado do Sul.

Salete foi Presidente da Ação da Mulher Trabalhista – AMT Estadual por 12 anos. Trabalhou pela expansão e conquista de novos espaços desenvolvendo as representações municipais da AMT a todos os lugares que pode alcançar. Tarefa árdua que exige diálogo e paciência, nessa sociedade patriarcal e machista que vivemos. A luta é diária e vigí­lia permanente. Mas Salete soube exercer esta atividade com altivez e ações estratégicas. Foi bem sucedida e todos quantos se aproximam a respeitam. Exerceu também o cargo de tesoureira nacional da Açãoda Mulher Trabalhista Nacional.

No dia 20 de junho de 2017, no Palácio Piratini, Salete tomou posse como Presidente do Conselho Estadual dos Direitos da Mulher, período 2017 a 2019, representando todas as mulheres da Ação da Mulher Trabalhista – AMT, bem como, representando a luta feminista de todas as mulheres do Estado do Rio Grande do Sul, independentemente de sua cor partidária, respeitando a diversidade que emana da sociedade.

Todas as pessoas presentes conhecem a trajetória da Salete, reconhecem seu trabalho e a respeitam. Por isso, agora, faremos uma pequena homenagem, mas antes, uma bem humorada análise do significado de seu nome.

Salete é um nome de origem Francesa. Nascida no castelo de Sales, Savóia, na França. Significa aquela que é devota. Sua personalidade irradia alegria e simpatia fazendo com que as conquistas ocorram naturalmente. É conservadora, idealista e romântica. Conservadora porque está sempre se sentindo bem em casa com a famí­lia, amigos ou em um relacionamento. Busca segurança, compreensão e afeto.

A sensibilidade de quem se chama Salete permite enxergar o real valor das coisas. É capaz de atuar de maneira autoritária, mas por que trabalha duro para atingir os objetivos que se propõe a realizar. É lí­der, organizada, perseverante e confiante, caracterí­sticas que têm de mais positivo de seu nome.

Considerando o segmento ativista que escolheu como luta, qual seja autonomia e conquista de direitos humanos das mulheres, Salete por vezes é vista como teimosa e impaciente, no entanto, são justamente estas caracterí­sticas que a tornam uma lí­der de sucesso.

O seu segundo nome Beatriz é de origem Hebraica que significa Bem-aventurada ou aquela que faz os outros felizes. Indica uma pessoa disposta, capaz de fazer piada com quase tudo, para alegrar-se ou dar nova luz aos ambientes que frequenta. Mas isso não impede que ela tenha um espí­rito crí­tico, capaz de distinguir com muita clareza o certo e o errado.

Beatriz costuma ser criativa e agir com felicidade para lidar com situações difí­ceis e na maioria das vezes, é extremamente otimista e desligada de coisas banais. A prioridade de quem se chama Beatriz é o amor e a famí­lia. Gosta de tranquilidade, harmonia e a beleza em seu redor. Busca sempre pessoas generosas e afetivas que lhe tragam coragem para afastar o fracasso.

Ser otimista, carismática e cheia de vitalidade são pontos positivos para quem se chama Beatriz.

Essa é a nossa homenageada, Salete Beatriz, uma pessoa dedicada à  causa da mulher e da coletividade.

A vida imita a arte?

11 de outubro de 2017

Maria Berenice Dias *
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Todos estamos atônitos diante de tantos debates e radicalismos sobre temas que acompanham a história da humanidade.

Nudez, sexo, homossexualidade tentam ser barrados da arte em nome da “moral e dos bons costumes”.

Chegou-se ao ponto de fechar exposições, impedir performances artísticas sob a pífia alegação de crianças se encontrarem em ditos ambientes.

Sequer se cogitou da possibilidade de impedir o ingresso de menores de idade em ditos espaços. Não, a solução foi exigir que as portas fossem fechadas e todos impedidos de ter acesso à exposição.

Certamente isso só ocorre no Brasil, país que não investe na educação exatamente para o povo poder ser massa de manobra e servir aos interesses de quem quer assumir o poder.

Assim, ao invés de armas, são usadas as almas de multidões que acreditam no que lhes é dito de forma raivosa e ameaçadora. Ao invés de fuzis é empunhado um livro apócrifo, escrito há mais de dois mil anos, dando-lhe a interpretação que melhor lhes servem.

Planta-se a falsa ideia de que a família vai acabar, quando todos sabem que isso nunca vai acontecer. Pode mudar a sua conformação, mas não sua essência: espaço de afeto e de cuidado.

Também se ameaça com o inferno a quem não entregar seus bens às igrejas ou templos.

Esta é a forma mais perversa de enriquecimento ilícito. Multidões são induzidas em erro. A exploração do medo da morte faz com que as pessoas paguem para obter a vida eterna.

Com este expediente são amealhadas incalculáveis fortunas, livres de impostos, o que enseja a construção de templos monumentais, a aquisição de meios de comunicação e a formação de uma verdadeira teia de controle social.

A manipulação começa desde a infância. Sob a falaciosa expressão Escola sem Partido se conseguiu banir dos currículos escolares o estudo da sexualidade e das questões de gênero.

Com isso se naturaliza a discriminação e a violência contra a mulher. A chamada “ideologia de gênero” é equivocamente interpretada como uma tentativa de acabar com a diferença entre os sexos e incentivar a homossexualidade.

Assustadoramente este movimento só avança, o que tem permitido que os autoproclamados líderes religiosos se apropriem das instâncias de poder. Já invadiram as casas parlamentares e almejam assumir também o Poder Executivo em todas as suas esferas.

Algo precisa ser feito e agora! A responsabilidade é de cada um de nós.

* Advogada e Vice Presidente Nacional do IBFAM

Lícia Peres, uma ativista dos Direitos Humanos

16 de março de 2017

file1307Por Eloá Muniz

Este é um momento de muita tristeza, mas também de homenagem. Nossa despedida de uma Grande Mulher, que sempre soube seu papel na sociedade. Escolheu as suas lutas e defendeu os Direitos Humanos das Pessoas e principalmente das Mulheres. Ultimamente por influência do amor de seu filho Lorenzo e sua nora defendia também os direitos dos animais.

Lícia Margarida Macêdo de Aguiar Peres nasceu em Salvador, Bahia, filha única entre dois irmãos, era a mais jovem. Conheceu Glênio Peres quando, em uma excursão, visitou Porto Alegre. Apaixonou-se, como dizia, por um charmoso jornalista gaúcho, que após a troca de muitas cartas e viagens, casou na Igreja de São Francisco, em Salvador, na Bahia. Mudou-se para o Rio Grande do Sul, fixando residência em Porto Alegre, em setembro de 1964.

Aqui estudou na Universidade Federal do Rio Grande do Sul e formou-se em sociologia. Neste período conhecido como os “anos de chumbo”, iniciou sua militância política no movimento estudantil. Atuante na resistência à ditadura militar, lutou pelos Direitos Humanos da Pessoa.

Em 1975, no México, no Congresso pelo Ano Internacional da Mulher, corajosamente, na tribuna, Therezinha Zerbine fez a leitura de um importante documento onde expressava a importância da anistia para o Brasil. Na volta em São Paulo nasciao Movimento Feminino pela Anistia no Brasil.

Nesse mesmo ano, Lícia conheceu Dilma e juntas organizaram em Porto Alegre, o segundo núcleo do Movimento Feminino pela Anistia do Brasil. Lícia foi sua primeira presidente no período de 1975 a -1979.

Participavam deste grupo Mila Cauduro, Quita Brizola, Lygia de Azeredo Costa, Angelina Guaragna, Ilza Brams, Enid Backes e muitas outras mulheres combativas. Uma luta árdua, dura, mas vitoriosa. A Lícia jamais erguera a voz, no entanto, jamais deixou-se curvar diante da injustiça. Diversas vezes me disse: se a injustiça é um obstáculo, olhe através dela, como se fosse transparente, e você vence. Lícia era firme, altiva e amorosa. Lições que ficarão para a vida inteira.

Em 1976, conheceu pessoalmente Leonel Brizola e sua história, tornou-se uma apoiadora e passou a atuar no PDT após a redemocratização. Participou das campanhas do partido – o marido Glênio se elegeu vice-prefeito de Porto Alegre, com Alceu Collares em 1985. Lícia disputou o mesmo posto, em 2004, com Vieira da Cunha. Em 2010, concorreu como suplente ao Senado na Campanha de Germano Rigotto. Era uma trabalhista inconformada com as injustiças.

Juntamente com as companheiras de Partido, Sueli Schimith, Marlene Vargas, Dilma Roussef, na época Linhares, Lícia Peres fundou e presidiu a AMT – Ação da Mulher Trabalhista, órgão de ponta mais importante da PDT, ainda é atualmente.

De 1983 a 2001 foi Assessora da Bancada do PDT na Assembleia Legislativa. E em junho de 92 recebeu da Câmara Municipal de Porto Alegre o título de Cidadã Porto-alegrense.

Lícia integrou a Comissão do Acervo de Luta contra a Ditadura no Rio Grande do Sul durante todo o tempo em que permaneceu atuante, de 2000 até 2009. Foi um trabalho primoroso de organização de documentos que formaram o Acervo do trabalho do Movimento Feminino pela Anistia, bem como, todas as documentações doadas pelos familiares das pessoas que alguma forma tinham envolvimentos com os “Anos de Chumbo”. Esta documentação foi entregue ao Memorial do Rio Grande do Sul.

Feminista atuante integrava os diretórios estadual e nacional do PDT. Foi Diretora Cultural da FRACAB- Federação das Associações Comunitárias e Amigos de Bairros. De 1991 a 1993 presidiu o Conselho Estadual dos Direitos da Mulher do RS. De 1995 a 1999 representando o Rio Grande do Sul no Conselho Nacional dos Direitos da Mulher.

Em agosto de 99, recebeu do governador Olívio Dutra a medalha Negrinho do Pastoreio por relevantes serviços prestados ao Rio Grande do Sul. Em outubro de 99 representou o Conselho Nacional dos Direitos da Mulher na “Reunião Subregional de Oficinas Governamentais da Mulher – Segmento Beijing+5”, organizada pelo Instituto Nacional da Família e da Mulher e o Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para a Mulher – Banco Central, Montevidéu, Uruguai.

Em novembro de 99 integrou a Delegação Brasileira na condição de palestrante na Primeira Reunião Sub- Regional de Delegadas e Especialistas da Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Paraguai e Uruguai promovida pela Comissão Interamericana de Mulheres- CIM da OEA onde proferiu a palestra “Violência Contra a Mulher” – Palácio Legislativo, Montevidéu. E de 99 a 2003 foi Membro do Conselho Político da Frente Democrática e Popular.

Participou da reconstrução do Conselho Estadual dos Direitos da Mulher, que fundou o Fórum Municipal da Mulher e esteve junto na criação do Comdim de Porto Alegre.

Esteve em Nova Iorque, de 5 a 9 de junho de 2000 na Sessão Especial da ONU “Beijing+5”, como observadora, representando o IDAC (Instituto de Desenvolvimento de Ação Cultural ).

Em 15 de março de 2004, participou, na condição de palestrante, no Seminário “Desenvolvimento, Igualdade e Democracia na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa”, no painel “A dimensão de gênero na Cooperação para o Desenvolvimento”, em Lisboa, Portugal.

Em março de 2000 recebeu da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul o troféu “MULHER CIDADÔ, pelos relevantes serviços prestados na área de defesa dos direitos da mulher e combate à violência.

Em 02 de setembro de 2002 recebeu da RBS – Rede Brasil Sul de Comunicação – o Troféu “Gaúcho Honorário 2002”, prêmio oferecido a personalidades que vieram elevar o nível comunitário, cultural e social e econômico do Rio Grande do Sul.

De 2005 a 2008 foi Membro do Conselho Diretor da THEMIS – Assessoria Jurídica e Estudos de Gênero, entidade que tinha muito orgulho em participar.

De 2012 a 2014 foi convidada pelo Governador Tarso Genro como Conselheira do Conselho Estadual de Desenvolvimento Social para a temática dos Direitos Humanos, tive a honra de ser sua Conselheira Técnica.

Lícia Peres escolheu Porto Alegre para viver. Quando Glênio partiu ela escolheu ficar e morar aqui. Lorenzo havia chegado para completar a felicidade deles. Ela tinha um amor incondicional ao filho Lory. Lorenzo também tinha e tem um amor muito grande pela mãe. Foi incansável ao seu lado nesta luta derradeira. Depois chegou Gabi, sua nora, a quem dedicava um carinho imenso. Veio, então, o godão, um cão lindo, que a ensinou a lutar pelo direito animal. Tutuca já estava lá, fiel, atenciosa e Lícia a amava como a pessoa que ela escolhera para compartilhar o dia-a-dia.

Lícia era assim, uma amiga dedicada, alegre e disponível. Tratava dos assuntos mais ásperos com leveza. A dignidade trazia no olhar, a firmeza no passo determinado. Generosa, respeitava o contrário, mas não provocava a contrariedade. Íntegra em suas emoções sabia agregar e multiplicar de maneira solidária. Discreta, sempre nos surpreendia com um gesto de carinho ou uma palavra de incentivo.

Nos últimos 15 anos, nossa amizade nos trouxe uma maior proximidade e percebi que, como a Deusa Grega Atena, sua sabedoria transcendia as cores partidárias. Seu legado está posto a todas as mulheres guerreiras e lutadoras incansáveis na luta pelos seus direitos.

Hoje, Lícia, o Movimento de Mulheres te agradece de corpo presente, mas tua consagração será na luta cotidiana, quando lembrarmos teu exemplo, tuas palavras e tua luta. Lícia quando falava arrebatava e ampliava a audiência. Quando calava, refletia e ampliava a estratégia.

Nossa luta continua, tuas ideias continuarão, teus ensinamentos se multiplicarão, e assim, dia após dia, conquistaremos mais e mais os Direitos Humanos das Mulheres e dos Homens. Queremos uma sociedade de igualdade, de equidade, de respeito à diversidade e de amor sem violência entre as pessoas.

Minha palavra agora é gratidão.

Lícia Peres, presente!

Feminismo cultural: uma reflexão necessária

29 de novembro de 2016

Eloá Muniz*

A existência de uma sociedade patriarcal ainda é a realidade no mundo contemporâneo, embora se tenha a ilusão de conquistas da equidade e igualdade de gênero. A sociedade patriarcal se caracteriza fundamentalmente pela imposição institucional da autoridade dos homens sobre as mulheres, tanto no âmbito familiar como no corporativo. Hoje a sociedade tem novas maneiras de submissão feminina, fortalecendo sempre a supremacia do homem nas elações sociais. O funk é um exemplo desse comportamento.

Evidentemente o mundo moderno apresenta grandes e rápidas transformações. A modernidade líquida traz mudanças conceituais, paradigmáticas, valores, sentimentos perspectivas de realização que acabam por envolver a pessoa por inteiro. Estas mudanças acontecem principalmente, por que há uma necessidade intrínseca de transformação do mundo e, em ato contínuo, transformar o mundo transformado.

Nesse processo de transformação o feminismo tem influenciado a cultura no que tange a identidade de gênero, feminina e masculina, determinando o agir, o sentir e o pensar de cada um, que vinculado à crença de ser mulher e homem, portanto, diferentes, são valorizados na sociedade de forma desigual. Considerando que as únicas diferenças reais entre mulheres e homens são as biológicas, as demais diferenças atribuídas às mulheres e homens como sensibilidade, candura, submissão, dependência, rebeldia, violência, fortaleza e independência são culturais, portanto, aprendidas. Chama-se então construção cultural de gênero.

O gênero, então, é identificado como atributos simbólicos, sociais, políticos, econômicos, jurídicos e culturais, atribuídos às mulheres e aos homens ao longo do desenvolvimento do pensamento humano. Este processo de socialização de gênero é transmitido pelos diferentes agentes sociais como família, escola, mídia e linguagem, além de outras formas de relações sociais entre as pessoas, reforçando e legitimando ideologias patriarcais milenares através da família e das religiões inseridas no sistema de poder político das sociedades contemporâneas.

Assim, pela linguagem as pessoas aprendem a hierarquização, proveniente das diferenças em função do sexo – menina e menino. Para a linguagem só existe o que nomeia, portanto, usar a língua como reflexo de uma sociedade, propaga a ideologia imanente, refletem e legitimam as desigualdades oriundas das discriminações contra as mulheres pelo androcentrismo – visão do mundo onde se valoriza o masculino –; do sexismo – termo que se refere ao conjunto de ações e ideias que privilegiam determinado gênero ou orientação sexual em detrimento de outro gênero ou orientação sexual.

Dessa maneira, muito antes de nascer o bebê já está classificado: menino é azul e menina é rosa. Menino brinca com carrinhos e é educado para as atividades laborais remuneradas no público e menina brinca de boneca e é educada para atividades laborais não remuneradas no privado. Meninas são belas, recatadas e do lar e meninos são brutos, conquistadores e do mundo.

Nessa sociedade dualizada pelo conceito preestabelecido de feminino e masculino e, portanto, de relações heterossexuais é difícil pensar em tirar a sociedade dessa zona de conforto para jogá-la em uma perspectiva de reflexão, aceitação e, principalmente, de aprendizagem e reconhecimento de uma nova relação onde os conceitos religiosos de sexualidade somente para a procriação dariam lugar às relações afetivas e de prazer puramente. Por exemplo: Muito prazer! Sou heterossexual. Muito prazer! Sou homossexual. Muito prazer! sou mulher hetero e não quero ser mãe. Muito prazer! Sou mulher hetero e não quero casar. Muito prazer! Sou homem homo e quero ser pai, quero adotar. Muito prazer! Sou mulher homo e quero ser mãe. Vou escolher um doador. Muito prazer! Somos um casal hetero e adotamos uma menina negra.

Esse é o momento que a sociedade moderna patriarcal vive. Esses movimentos de avanços dificilmente se converterão em retrocesso, pois está desvelado. Não há por que não revelar. Mas os avanços poderão ser em menor velocidade.

O necessário é manter o diálogo e a educação do respeito pela diversidade em toda a sua complexidade, pois cada pessoa – menina ou menino – precisa ter assegurado o direito na busca pela felicidade com respeito e dignidade.

• Publicitária e Psicanalista

Precisamos falar sobre estupro

30 de maio de 2016

por Lícia Peres

Há meses a atenção nacional se concentra na política onde acompanhamos atentamente a enxurrada de notícias envolvendo a ação da Polícia Federal, as delações premiadas e, mais recentemente, o afastamento da presidente Dilma.

Procurei deixar, desde sempre, muito clara minha posição contrária ao impeachment da presidenta eleita e favorável à Operação Lava-Jato na sua ação moralizadora de combate à corrupção, separando as estações.

Agora com o vergonhoso caso do estupro coletivo sofrido por uma adolescente de 16 anos, no Rio de Janeiro, precisamos envidar todos os esforços para estancar a vergonha dessas violações, cujas estatísticas já ganham manchetes internacionais.

As imagens do crime ganharam a internet por postagem dos próprios agressores, que expuseram covardemente sua vítima nua e desacordada, vitimando-a e revitimando-a.

As estatísticas são assustadoras e contabilizam 11 estupros por dia no Brasil. O Rio de Janeiro registra três casos diários.

Por que, mesmo enquadrado como crime hediondo, os violadores sentem-se confortáveis para agir e não temer punições?

Dados oficiais registram, em 2014, 47.646 estupros; 67,1% da população nas grandes cidades tem medo de ser agredida sexualmente. Mais de 90% das mulheres jovens (de 16 a 24 anos)) temem sofrer tal barbárie.

Trata-se de um medo justificado. Nossa cultura é machista e o corpo feminino ainda é visto como objeto.

Busca-se amenizar estas violações culpabilizando a vítima (roupas provocantes, horário impróprio de estar na rua, provocação etc.), quando o único responsável é exclusivamente o estuprador. Ninguém merece ser estuprada.

Felizmente, a reação da sociedade já se faz sentir, por campanhas como a de #EstuproNuncaMais e outras, que buscam estancar essas ocorrências. Os homens estão aderindo, o que é altamente positivo. Mobilizações de rua já estão marcadas em várias capitais.

Muito precisa ser feito. A humanidade no acolhimento da vítima deve ensejar que mais mulheres se animem a denunciar, evitando, assim, as subnotificações.

E o mais importante: a Justiça precisa alcançar e punir severamente os culpados.

As consequências de uma gravidez indesejada

18 de março de 2016

“A gestação indesejada, quando levada até o seu final com a realização do parto, pode resultar em distúrbios na relação mãe-filho e na má formação do vínculo materno-filial. As consequências imediatas podem ser a síndrome de negligências pediátricas e os maus tratos contra a criança”, a ênfase é do Chefe do Serviço de Obstetrícia da Santa Casa de Porto Alegre Celso Ayub, com 50 anos de casa e ainda atuando na área.

Segundo o especialista, a situação pode levar a doenças psiquiátricas, delinquência, comportamento criminal e ao alcoolismo nos filhos de gravidez indesejada, como apontam estudos realizados na Suécia.

No painel A gestação Indesejada: Suas Implicações Médicas e Sociais, durante o I Colóquio de História e Saúde realizado no Centro Histórico-Cultural da instituição, na manhã de sábado (12), Ayub apontou para a gravidade da situação da mulher frente a uma gravidez indesejada, aos conflitos emocionais e a ambivalência de sentimentos, mesmo quando a mulher deseja ter o filho.

Declarando-se feminista radical, ele lembrou também que a todo o contexto pode levar à ausência do pré-natal ou de um pré-natal negligente e mesmo ao aumento de complicações na gestação.

“O aborto é inevitável no Brasil. É a 4ª causa de morte materna e a segunda de insuficiência renal”, declarou o médico. Observou, no entanto, que a legislação brasileira – contrária a sua realização – levou muitas mulheres que procuram esta alternativa até a infecções generalizadas, extirpação do útero e até à morte.

Afirmando que as sequelas emocionais do aborto são um mito, declarou que, quando a prática é feita às claras e com técnicas seguras, nos países onde ele é amparado pela legislação, a mortalidade é de quase zero por cento.

Celso Ayub citou o caso do Estado de Nova Iorque (EUA), onde a Suprema Corte liberou o aborto em 1973. O caso foi estudado no mesmo período e chegou-se à conclusão de que haveria a possibilidade de a redução da criminalidade na década de 90 também ter sido atribuída à nova legislação, que impediu o nascimentos de filhos indesejados.

Por outro lado, acrescentou ainda que, com dez semanas (70 dias), já existem estímulos elétricos e circulação sanguínea no feto, segundo o professor.

O evento foi patrocinado pela Secretaria de Diretos Humanos e Secretaria Adjunta da Mulher de Porto Alegre.

Rosa Pitsch (MTb-5015)