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O falso feminismo de silicone

31 de agosto de 2010

por Sergio Domingues

É costume dizer que o feminismo está morto. As mulheres teriam conquistado seu lugar ao sol. É maioria entre os trabalhadores, consumidores e eleitores. Há mulheres no parlamento e nos governos. Podem ser vista à frente de grandes empresas.

Quase tudo nessas afirmações é aparência. As mulheres são maioria no mercado de trabalho, mas de forma desigual. A maior parte dos postos de direção e gerência é ocupada por homens. Assim mesmo, os salários são sempre menores para elas.

No Congresso Nacional, parlamentos em geral e governos a visibilidade acontece exatamente porque a presença feminina continua rara. Nada rara é sua exposição como objetos em tudo isso. “Elas enfeitam o cenário”, dizem os machistas, que continuam na direção do espetáculo.
Não à toa o Brasil é um dos líderes mundiais em cirurgias plásticas.

Cerca de 70% delas são de caráter estético. Mais de 80% feitas em mulheres. Nos Estados Unidos e Europa, começa a fazer sucesso a labioplastia. Uma intervenção cirúrgica nos lábios vaginais. Grande parte delas nada tem a ver com correções necessárias à saúde.

É o novo machismo travestido de feminismo. Beleza e sensualidade seriam direitos conquistados pelas “mulheres emancipadas”. Além de cuidar da casa, dos filhos e ser competente na profissão, elas também têm que atender exigências impostas pelo mercado erótico.

Se isso pode ser massacrante para quem tem algum dinheiro, imagine para a grande maioria. Aquelas que mal conseguem comprar roupas novas.

Mulheres que denunciam essa situação são consideradas amargas, ressentidas, chatas. “Deixem disso” dizem os meios de comunicação. “Corram para os cirurgiões, cabeleireiros e liquidações. Rendam-se ao silicone e às próteses”. É o machismo cirurgicamente renovado pelos poderosos.

Princesas cor-de-rosa

31 de agosto de 2010

*Mirian Goldenberg

O rosa, imposto desde o berço, simbolizaria o culto da aparência no lugar da
inteligência?

A MONOCROMIA impera nas roupas e nos brinquedos das meninas. Basta observar em parques, praias, shoppings, escolas: o cor-de-rosa reina no universo infantil feminino.

O rosa não é só a cor das Barbies, mas também de vestidos, camisetas, biquínis, mochilas, sapatos, pulseiras, bicicletas, cadernos, lençóis, fantasias de princesa etc.

Enquanto as meninas estão de rosa da cabeça aos pés, os meninos vestem azul, verde, amarelo, vermelho, preto, cinza, laranja, branco e, até, algumas vezes, rosa.

Eles não são apenas mais livres no uso de cores, mas correm, brincam, gritam, jogam, se sujam e se machucam muito mais do que elas.

No comércio há uma invasão, nunca vista anteriormente, de produtos cor-de-rosa. Muitas mães afirmam que há uma ditadura do rosa, que as filhas acabam ficando viciadas nessa cor. Não há escolha para as que gostariam de mais diversidade.

No blog PinkStinks, duas mães inglesas declararam guerra ao que chamam de “pinkification” das meninas: a onipresença da cor rosa.

Elas acreditam que o fenômeno vai muito além da cor.

Dizem que a cultura do rosa, imposta às meninas desde o berço, é baseada no culto da beleza, do corpo, da aparência, da magreza, em detrimento da inteligência.

Apesar de parecer inofensivo, dizem, o rosa simboliza a cultura da celebridade, fama, riqueza e da obsessão pela imagem, que aprisiona e limita as aspirações das meninas sobre o que podem ser e realizar quando se tornarem mulheres.

O rosa, para elas, representa um retrocesso, o retorno de um modelo feminino que parecia ter sido abolido nos anos 1970 pelas mulheres que desejavam ser livres, independentes, fortes, poderosas, sexualmente ativas e donas do próprio corpo.

A comparação entre as cores e as brincadeiras de meninos e meninas sugere que faltará a elas, quando adultas, algo fundamental: liberdade.

Liberdade que, na minha pesquisa com cariocas das classes médias, elas afirmam invejar nos homens. Já eles dizem não invejar absolutamente nada nas mulheres.

Se a roupa fala da nossa cultura, o que o rosa diz sobre as futuras mulheres? Estaria falando de uma cultura que associa mulher a delicadeza, doçura, sensibilidade, inocência, fragilidade, fraqueza, passividade, inferioridade, submissão? De mulheres infantis e dependentes, que precisam da proteção de príncipes? Da dominação que transforma garotas superpoderosas em princesas cor-de-rosa?

*Antropóloga e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Mulheres na política

31 de agosto de 2010

Luiza Nagib Eluf*

As próximas eleições já entraram para a história, independentemente do resultado. Pela primeira vez no país, duas mulheres disputam o cargo de presidente da República e estão entre os principais candidatos. Dilma Roussef (PT) e Marina Silva (PV) são as protagonistas deste pleito. Antes delas, tentaram Maria Pio de Abreu (em 1989, ficando em 17º lugar) e Heloísa Helena (em 2006, ficando em 3º lugar, com expressiva votação).

Se o fato de termos duas fortes postulantes ao Palácio do Planalto em uma mesma eleição é histórico e motivo de comemoração, a verdade é que a política no Brasil ainda é essencialmente masculina. A participação das mulheres é crescente na história brasileira, mas ainda está aquém do desejado. Somos a maioria da população do país e representamos 40% da força de trabalho fora do lar, mas continuamos invisíveis na área pública. Só em 1985, uma mulher se tornaria prefeita de uma capital (Maria Luiza Fontenelle, do PT, em Fortaleza) e, apenas em 1995, o Brasil elegeria a sua primeira governadora mulher (Roseana Sarney, no Maranhão). Apenas dois dos nossos Estados mais populosos já elegeram governadoras – o Rio de Janeiro (Rosinha Garotinho) e o Rio Grande do Sul (Yeda Crusius).

Na Câmara Federal o cenário é ainda mais desanimador. Em 184 anos de existência do Legislativo, nunca uma mulher ocupou um cargo titular na mesa da Câmara. São apenas 45 mulheres em meio a 513 deputados, ou seja, míseros 8% de representação feminina. No Senado, o percentual sobe para 13%, mas ainda é inexpressivo. O percentual de mulheres na Câmara Federal e no Senado brasileiros é um dos mais baixos da América Latina e do mundo.

Apesar de a legislação determinar que os partidos preencham pelo menos 30% de suas candidaturas com mulheres, isso não ocorre na prática. Entre os fatores que desestimulam as mulheres a participar da política estão o preconceito, que já começa na própria família, a falta de incentivos financeiros e a dificuldade de encarar uma jornada dupla de trabalho, muito mais acentuada no caso de atividade partidária.

Trata-se de um problema cultural. Durante grande parte da história do Brasil, as mulheres não tiveram direitos civis nem cidadania plena. A elas eram negados os mais elementares direitos políticos como votar e ser votadas. Somente em 1932, durante o governo de Getúlio Vargas, as mulheres conquistaram o direito ao voto, depois de muita luta do movimento sufragista. Mesmo assim, apenas as mulheres casadas (com autorização do marido), viúvas e solteiras com renda própria votavam.

Com o Estatuto da Mulher Casada, de 1962, algumas liberdades fundamentais foram conferidas às mulheres, como o direito de viajar sem autorização do marido ou de gerenciar seus bens patrimoniais. Mais tarde, a Lei do Divórcio (1976) possibilitou que casamentos fracassados pudessem ser oficialmente desfeitos, permitindo-se a dissolução do vínculo matrimonial que, finalmente, deixou de ser para sempre. A mesma Lei igualou os direitos dos filhos, independente da situação dos pais. No entanto, esses passos aparentemente elementares, resultaram de muito esforço de persuasão das militantes feministas. A verdadeira emancipação feminina aconteceu apenas com a Constituição de 1988, que equiparou homens e mulheres em direitos e obrigações. Em que pesem os avanços legais, convivemos, ainda, com os resquícios culturais dessa antiga situação de subalternidade.

A desigualdade de gênero nas instâncias de poder é um problema internacional. Em 1995, aconteceu em Pequim, China, a IV Conferência Mundial da Mulher, um verdadeiro marco no avanço dos direitos femininos. No entanto, muitas das recomendações feitas às delegações oficiais dos países participantes não foram implementadas. As propostas legislativas que visavam à garantia dos direitos das mulheres ao patrimônio, à saúde e à liberdade sexual não se realizaram em sua plenitude. Com a população feminina sub-representada nas áreas de comando e compondo apenas 20% dos legisladores em todo o mundo, segundo dados da ONU, estamos muito distantes das metas fixadas em Pequim.

Nesse compasso, serão ainda necessárias muitas décadas para haver paridade de gênero nos cargos políticos de relevância.

Mulheres já foram eleitas para presidente ou primeira-ministra na Índia, Alemanha, Noruega, Inglaterra, Chile e Argentina, para citar alguns exemplos, mas uma andorinha só não faz verão. A emancipação efetiva será realidade apenas quando atingir todas as mulheres, em todas as classes sociais. Enquanto houver violência doméstica, discriminação no trabalho fora do lar e abusos sexuais nenhuma sociedade poderá dizer que a igualdade de gênero foi alcançada. Por essa razão, fortalecer e proteger a população feminina deve ser um projeto de governo.

Um exemplo de divisão justa do poder foi adotado por Michelle Bachelet, no Chile, e por José Luiz Zapatero, na Espanha, que decidiram nomear um ministério paritário (metade homens e metade mulheres). Essa medida, na esfera do poder executivo, é fundamental para promover o respeito a uma parcela da população até hoje subjugada e menosprezada pelos padrões patriarcais. Se as mulheres não estiverem no poder, suas reivindicações não serão concretizadas, os projetos que as beneficiam estarão fadados ao esquecimento.

No Brasil, foi aprovada uma nova lei eleitoral, a Lei n. 12.034/2009 que determina a obrigatoriedade dos partidos políticos de destinar 5% do fundo partidário à formação política de mulheres, prevendo punição para o descumprimento da regra, e determinando a obrigatoriedade do preenchimento dos 30% de vagas de candidaturas femininas; além disso, reserva 10% do tempo de propaganda partidária em anos não-eleitorais para promover a participação da mulher.

Democracia se aprende, se constrói, se exerce. No caso das mulheres e de outros segmentos excluídos, a verdadeira democracia requer o acesso ao poder político. O Brasil cidadão precisa ser mais feminino, mais tolerante, mais igualitário, mais atento à preservação ambiental, em suma, mais responsável pelo seu próprio futuro, nos exatos termos consignados em nossa Constituição.

* Procuradora de Justiça do Ministério Público de São Paulo. É autora de vários livros, dentre os quais “A Paixão no Banco dos Réus” e “Matar ou Morrer, o Caso Euclides da Cunha”. www.luizaeluf.com.br

O patriarcado e as várias sentenças de morte

31 de agosto de 2010

Ana Veloso*

“Eu sofro por ser mulher.”
Sakineh Mohammadie Ashtiani

Enquanto o jornalismo sensacionalista mundial explora o caso da iraniana que poderá ser apedrejada até morrer, centenas de movimentos feministas e nações do mundo inteiro estão fazendo mobilizações e pressionando entidades internacionais de direitos humanos em protesto contra mais um ato de barbárie contra a condição feminina no planeta. Todavia, o governo do Irã assumiu uma tendência de cancelar a execução por apedrejamento, mas pretende manter a sentença de morte com o enforcamento da ré.

Sakineh Mohammadie Ashtiani, mãe de duas crianças, foi obrigada a confessar que cometeu adultério, pelas autoridades do país. O caso está sendo usado como um exemplo do cumprimento das leis locais e para que outras cidadãs permaneçam mantidas em silêncio e sob a tirania do Estado.

Resguardadas as especificidades de cada cultura, é possível perceber semelhanças quando o assunto é a institucionalização da dominação/opressão feminina ao redor do mundo. Um planeta onde a amputação do clitóris, em algumas regiões, faz parte de um ritual de passagem para milhares de mulheres mutiladas. Passagem para quê? Para uma vida sem prazer, sem amor, sem sentido?

Discordo da tese da derrocada do patriarcado. Minha posição poderá contrariar argumentos de pesquisadores/as que debatem o assunto com vigor e competência. Contudo, não consigo perceber mudanças substanciais e efetivas quando percebo que tal sistema devastador continua vitimizando as mulheres ao redor do globo. Observamos sua perpetuação quase silenciosa em nações do oriente e, no ocidente, de modo talvez mais escandaloso com a explicitação dos crimes praticados nas esferas privada e pública contra a população feminina.

Quando o patriarcado “apresenta suas armas”, o apedrejamento assume formas distintas em cada país. Em Nairobi, a organização “Médicos sem Fronteiras” denuncia, em relatório recente, a existência de uma “violência sexual endêmica”, onde mulheres e crianças (meninas e meninos) são violados/as todos os dias por homens conhecidos, em geral, familiares. No Brasil, a expressão do modelo, marcado pela divisão sexual das tarefas e no controle sobre os corpos e a sexualidade das mulheres, é impressionante. Basta notar os altos índices de violência e o tráfico de mulheres para fins de exploração sexual.

O Mapa da Violência/2010, feito com base no banco de dados do Sistema Único de Saúde (DataSUS), revela: entre 1997 e 2007, 41.532 mulheres morreram vítimas de homicídio, o que significa dez cidadãs assassinadas por dia. Aqui mesmo, no eudecido, noticiamos: cerca de 40% das vítimas de tráfico de pessoas em Portugal são brasileiras. Este é o resultado do Relatório Anual de 2009 do Observatório do Tráfico de Seres Humanos, órgão ligado ao Ministério da Administração Interna (Interior) português.
Os/as leitores/as podem até pensar que as situações aqui apresentadas não têm relação direta.

Todavia, estamos tratando do mesmo fenômeno secular, que se estabeleceu, no mundo inteiro e que é responsável pela perpetuação das relações desiguais entre os gêneros masculino e feminino. Apesar de todas as transformações que o movimento feminista impulsionou ao lutar pela autonomia e contra qualquer tipo de interdição à liberdade das mulheres, precisamos permanecer em estado de alerta, em vigília.

O patriarcado ainda dita o ritmo das relações de opressão/dominação a que muitas cidadãs estão assujeitadas. Estamos muito distantes da vivência integral da emancipação das mulheres em vários países. As desigualdades entre homens e mulheres no mundo do trabalho, a permanente exploração das empregadas domésticas negras, a lesbofobia, a mercantilização dos corpos e da sexualidade feminina e a exploração sexual para fins comerciais de mulheres e meninas são fenômenos do século XXI!

Em meio às contradições e disputas de projetos e modelos de sociabilidade na tessitura da teia de nossa “aldeia global”, debates acerca dos princípios teóricos e das práticas políticas feministas são urgentes para a reinvenção do mundo. Não poderemos ousar falar na existência de uma democracia plena enquanto a liberdade das mulheres estiver ameaçada por Estados omissos e/ou pela força alienadora de fações religiosas.

Também não devemos nos contentar e comemorar a edição políticas compensatórias por nações que privilegiam o mercado em detrimento dos direitos humanos. Não há placebo para atenuar a dor das mulheres apedrejadas diariamente por governos que obedecem aos ditames dos fundamentalismos, do patriarcado e do capital.

*Jornalista, doutoranda em Comunicação, empreendedora social da Ashoka, professora da UNICAP e colaboradora do Centro das Mulheres do Cabo

Ao alcance de um mouse: o Orkut, o facismo e o descarte do ser humano

22 de agosto de 2010

por Ana Veloso*

“Tolerar a existência do outro, e permitir que ele seja diferente ainda é muito pouco. Quando se tolera, apenas se concede, e essa não é uma relação de igualdade, mas de superioridade de um sobre o outro. Deveríamos criar uma relação entre as pessoas da qual estivessem excluídas a tolerância e a intolerância”. (José Saramago)

A profusão de comunidades que atacam os nordestinos no Orkut faz pensar. Assim como as comunidades dos “adeptos do estupro corretivo”, causa repulsa, revolta e estranhamento. A oferta das possibilidades tecnológicas de tais redes sociais não pode ser classificada de forma simplista como boa ou má. A técnica pela técnica, o mero aparato, tem ideologia?

Não podemos observar os fenômenos comunicacionais e tecnológicos separados dos contextos históricos, políticos, culturais e sociais onde estão inseridos. O ser desumano é a desmedida de todas as coisas. De forma vil, se apropria de tudo e de todos como objetos para consumo. Como se os outros, os humanos, os “descartáveis”, não pudessem ter a liberdade para ser, viver, existir.

Quando denunciamos a conexão entre os/as que se identificam pelo desejo de exterminar os nordestinos ou dos/as que celebram o “estupro corretivo de lésbicas”, e fazem suas manifestações criminosas via internet, observamos a instrumentalização de uma ferramenta para a violação dos direitos humanos. Isso não é nenhuma novidade uma sociedade que lançou a bomba atômica. “Os fins justificam os meios” (Maquiavel).

O primeiro fenômeno foi intensificado, recentemente, depois da catástrofe que dizimou centenas de vidas em Alagoas e Pernambuco. O segundo existe há muito tempo, tendo sido publicizado, inclusive, por representantes da ONU. Uma análise dos discursos dos/as pertencentes a esses “grupos” revela um teor tão intenso de violência que chega a causar descentramento, sobretudo diante do que compartilhamos como sentimento de pertencimento à humanidade. “O inferno são os outros” (Sartre).

“O exercício da liberdade de expressão não pode violar outros direitos humanos”. De qual tipo de “liberdade” estamos tratando? Certamente, não daquela que eleva a alma. Da que desenvolve o ser e o impulsiona à vida, à contemplação da natureza e à arte. Falamos de um sentido de liberdade que os/as participantes desses espaços virtuais ignoram. Sob a égide da opressão/dominação não é possível conceber a essência da liberdade.

As posições, os termos e a forma de pensar e agir dos que estão envolvidos nestes guetos exprimem o facismo presente em nosso cotidiano. Quando tratamos do tema, de modo sério e responsável, muitos/as saem em defesa dos/as que compactuam com esse absurdo. Já ouvi: “são jovens brincando”, “faz parte da liberdade na internet ”, “restringir é censurar”.

Até quando, tais argumentos irão dissimular a verdade? Quem prega o separatismo, a xenofobia, o racismo e os crimes de ódio coloca combustível nas engrenagens que movem a barbárie em todo o mundo. É por isso que a mecanização da vida e o descarte do ser humano são, hoje, divulgados sem o menor pudor para quem estiver “conectado/a”. Assim como a exploração sexual comercial virtual de crianças e adolescentes, são delitos que, no Brasil, estão ao alcance de um mouse.

* Jornalista, professora de jornalismo da UNICAP, colaboradora do Centro das Mulheres do Cabo, doutoranda em Comunicação pela UFPE e empreendedora social Ashoka

Super-heróis são maus modelos

21 de agosto de 2010

por Arnaldo Rabelo

Segundo a Dra. Sharon Lamb, professora emérita da Universidade de Massachusetts-Boston, a imagem de super-heróis batendo em vilões pode não ser boa se a sociedade quiser promover comportamentos masculinos mais gentis e menos estereotipados.

Em comunicado divulgado pela entidade, ela afirmou existir uma grande diferença entre os heróis dos filmes de hoje e os dos quadrinhos do passado. Em suas próprias palavras, “os heróis de hoje participam de ações ininterruptas de violência”. Esses personagens seriam agressivos, sarcásticos e raramente demonstrariam a virtude de fazer o bem à humanidade. Sharon diz ainda que, despidos de seus trajes de heróis, estes homens são péssimos exemplos: exploram as mulheres e mostram sua masculinidade com armas poderosas.

Para a psicóloga, o exemplo típico desse novo Super-Herói moderno é o Ironman, ou Homem-de-Ferro.

Segundo ela, a grande diferença dos personagens dos quadrinhos do passado para os atuais super-heróis dos filmes é que os primeiros representavam modelos nos quais os garotos podiam se espelhar – já que, despidos de seus trajes, eles seriam pessoas reais, com problemas reais e vulnerabilidades.

A psicóloga afirma ainda que, na mídia de hoje, só existem duas imagens com as quais os garotos pode se identificar: super-heróis ou vagabundos. De acordo com ela, após uma pesquisa feita com 674 meninos de 4 a 18 anos, a conclusão é a de que a publicidade se aproveita do fato de que jovens precisam moldar sua identidade durante a adolescência. O truque seria então lhes “vender” uma versão limitada de masculinidade.

Para ela, a solução seria ensinar os jovens a se distanciarem dessas imagens e encorajá-los a achar as “mentiras” nelas.

Outros estudos mostram que o interesse que meninos entre 4 e 8 anos têm por super-heróis é determinado por sua necessidade natural de maior poder e controle, nesta fase da vida em que ganha certa autonomia. Seria uma forma de aprender a lidar com esta autonomia, garantindo a auto-sobrevivência. Esta está longe de ser uma questão simples.

Fonte: Info

Violência doméstica tem relação direta com dependência econômica na América Latina

20 de agosto de 2010

por Cristóvão Feil

As mulheres vítimas de violência doméstica na América Latina se submetem aos maus-tratos porque não dispõem de condições financeiras para sobreviver sem a ajuda dos companheiros, maridos e namorados. No Brasil, 24% das entrevistadas disseram que, apesar das agressões que sofrem, não se separam porque não têm como se sustentar. Uma em cada quatro brasileiras sofre com a violência doméstica. A cada 15 segundos, uma mulher é atacada no Brasil.

A conclusão é de um estudo da organização não-governamental (ONG) Centro pelo Direito à Moradia contra Despejos (Cohre), intitulado “Um Lugar no Mundo”. A ONG tem sede em Genebra, na Suíça. O estudo, divulgado semana passada, mostra que na América Latina, os índices de violência doméstica são elevados. A pesquisa informa que, na região, de 30% a 60% das mulheres sofreram agressões.

O relatório analisa a questão da violência contra a mulher no Brasil, na Argentina e na Colômbia.

Nesses países, o estudo informa que a “falta de acesso a uma moradia adequada, incluindo refúgios para mulheres que sofrem maus-tratos, impede que as vítimas possam escapar de seus agressores”. Segundo o documento, “a dependência econômica aparece como a primeira causa mencionada pelas mulheres dos três países como o principal obstáculo para romper uma relação violenta”.

No Brasil, 70% das vítimas de violência foram agredidas dentro de casa e, em 40% dos casos, houve lesões graves. Das mulheres assassinadas no país, 70% sofreram agressões domésticas. A ONG informa ainda que esses problemas afetam, principalmente, as mulheres pobres que vivem em comunidades carentes.

A maior parte das vítimas não exerce atividades profissionais fora de casa. No Brasil, 27% das entrevistadas disseram que se dedicam ao lar. Na Argentina e na Colômbia, 25% das mulheres se declararam como donas de casa. Algumas delas afirmaram que não têm outras atividades profissionais por desejo dos maridos, companheiros e namorados.

O relatório, de 50 páginas, não especifica a quantidade de mulheres entrevistadas, mas informa ter conversado com dezenas de mulheres, vítimas de violência doméstica, nas cidades de Porto Alegre (Brasil), Buenos Aires (Argentina) e Bogotá (Colômbia).

“O direito à moradia adequada ultrapassa o direito de ter um teto sobre sua cabeça. É o direito de viver em segurança, em paz e com dignidade. É obrigação do governo assegurar esse direito às vítimas de violência doméstica”, disse a responsável pelo setor de Peritos sobre as Mulheres da ONG Cohre, Mayra Gomez. “Por muito tempo, a relação entre violência doméstica e direito à habitação tem sido negligenciada pelos políticos. É tempo de os governos da América Latina corrigirem este erro”.

A Violência contra a mulher – 3° lugar

20 de agosto de 2010

por Fabiana Almeida

O número de violência contra a mulher é bem maior do que os dados registrados apresentados pelas delegacias das mulheres. Muitas vítimas não denunciam seus agressores; algumas têm medo, outras se sentem envergonhadas. A maioria possue empregos de baixa renda, residindo em cidades do interior e zonas rurais. Seu conhecimento para combater esse crime é praticamente nulo! A justiça criou a Lei Maria da Penha (Lei de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher), decretada pelo Presidente Lula, no dia 07 de Agosto de 2006.

Mesmo com essa medida, por que os homens ainda continuam cometendo esse crime?

A resposta é que, na verdade, a nossa sociedade mesmo com toda modernização, ainda é machista. Já faz parte do instinto do homem ver a ulher como sua propriedade, encarando-a como um ser inferior em todos os aspectos perante a sua posição.

A maioria dos homens ainda continua sendo adestrada com a visão de superioridade, não admitindo a conquista das mulheres pelo direito de igualdade como consta na constituição. Todas as crianças (meninos e meninas), desde a fase do seu desenvolvimento deveriam ser educadas com essa conscientização.

A mulher violentada não pode deixar esse crime impune; deve denunciar seu agressor à justiça!

Não podemos nos esquecer que existem outros tipos de violência contra a mulher sem ser a agressão física. Existem também as que não deixam marcas como as ofensas verbais, humilhações e o abandono.

A mulher deseja e precisa sentir-se amada e respeitada…

Salvador, BA (almeida.fabicruz@gmail.com)

A honra das mulheres

3 de agosto de 2010

por Rosiska Darcy de Oliveira

Começou pouco depois que se conheceram. Um belo dia, sem que nem pra que, ele grunhiu: você não sabe o que diz. Ela tentou se defender, explicar mais uma vez seu argumento que não lhe parecia estúpido. Ele virou as costas e foi se servir de um uísque que não lhe ofereceu.Quer gelo, ela perguntou em voz baixa já procurando o baldinho e o pegador. O não foi seco. Assunto encerrado.

Tudo deveria ter se encerrado ali. Errou. Dois anos depois já morava com ele e, quando engravidou, admitiu que ele tinha um gênio difícil, que não queria esse filho e que, furioso, a maltratara quando recebeu a notícia. Como se nada tivesse a ver com isso, como se o Espírito Santo a tivesse visitado à revelia dele.

As brutalidades cotidianas vai engolindo. Quer salvar a relação, é o pai do seu filho. E vai enveredando pelo caminho do calvário, bem conhecido das mulheres que hipotecaram suas vidas a homens violentos. São elas que viram estatística.

A violência nem sempre é um gesto físico, como uma bofetada. Começa antes, é feita não só de atos mas de sua ausência, de desacatos, um decreto de inexistência que anula sua vida, um olhar que lhe atravessa como se você não estivesse ali. É a presença incontornável de um poder inconteste que, mesmo sem origem ou justificativa, se exprime nos menores gestos. Espécie de direito divino ao que há de melhor em casa, a melhor cadeira, o controle da TV, o espaço na cama, apagar ou acender a luz, o direito de falar e ser ouvido, ao silencio quando trabalha, ao barulho quando recebe os amigos. Direito de ser respeitado em seus desejos. Tudo que a ela é negado.

Quando a violência sanguinária contra as mulheres explode como agora, freqüente e macabra, abalando todo o país, essa pergunta volta, insistente. Em que momento começaram os gestos que a anunciavam? Quando acende o sinal de alerta que pressagia o perigo? Cada mulher deveria rever em sua vida as grosserias que deixou passar. Porque aceitou que fosse assim.

Quem tem filhas lembre-se de preveni-las de que ainda vivemos em um mundo que tudo perdoa aos homens e muito pouco às mulheres, o que é descrito como a ordem natural das coisas. Ordem inóspita para nós e por demais confortável para eles. Cuidado com o senso comum, o que parece óbvio, o”sempre foi assim”, o “é da natureza deles”, que disfarça uma ideologia que nos é tão desfavorável.

Cuidado, portanto, para não endossar pela omissão, submissão ou vício de sedução, uma ordem que não só não é natural mas é injusta. Que, em casos extremos, evolui para se tornar criminosa. E que precisa acabar.

Um bom exemplo é o conceito de honra. No século passado quem, solteira deixava de ser virgem, tinha sido desonrada. Era uma perdida. Perdida ou desonrada era a mesma coisa. Um século mais tarde ainda há quem fale em piranha referindo-se a quem faz o que quer do seu corpo. Não há, na gíria, um equivalente masculino.

Homens não perdem a honra, o que quer que façam com seus corpos. Não é neles que ela reside. Só sentem a honra atacada quando perdem a mulher para outro homem e por isso já houve quem defendesse o assassino de uma mulher em nome da legítima defesa da honra. O corpo das mulheres vira, assim, uma espécie de coisa sem alma mas com dono.

Os números assustadores de casos de violência contra as mulheres sugere que é urgente que elas defendam a sua honra que não reside em uma suposta pureza mas no seu estatuto de ser humano, livre e respeitado como todos devem ser.

É o princípio de honra feminina que é preciso incutir na nossa cultura e no nosso cotidiano. Que elas não precisam de protetor ou provedor. Ambos cobram e o custo pode ser alto. Que não devem levar desaforo para casa e, sobretudo, ouvi-los dentro de casa. Nem confundir o carinho, traço atávico da cultura feminina, e o instinto protetor que exercitam na maternidade, com a anulação de si que tudo perdoa. O tapinha dói e é véspera da chacina.

Que se envergonhe quem achou graça quando um goleiro boçal perguntou quem nunca saiu na mão com uma mulher. Deu no que deu.

A invisibilidade da violência doméstica

2 de agosto de 2010

por Eliana Polo*

Duas mulheres com o mesmo triste final, apenas separadas por algumas semanas, mas pelo mesmo motivo vil e infame: machismo, ciume, certeza de impunidade.

Tenho visto na face de outras mulheres e de muitos homens o horror estampado diante das notícias que tem entupido os noticiários e as caixas de mensagens de todos nós.

Trata-se de um momento de grande reflexão, não basta somente lamentar o que aconteceu, mas precisamos, neste momento, lançar uma ação concreta para o enfrentamento de situações de violência contra o direito da pessoa humana, seja ela mulher ou homem.

A violência doméstica contra a mulher é quase sempre silenciosa, acontece entre quatro paredes, só há visibilidade quando o ponto culminante é a morte da mulher, seja ela esposa, namorada ou amante. Rica, pobre ou provedora de uma família.

Quantas mulheres ainda haveremos de perder? Quantas vezes assistiremos a impunidade se instalar em nossa cidade, em nosso estado, em nosso país?

Droga, álcool, dinheiro, pobreza, quantas desculpas esfarrapadas para encobrir um crime hediondo e covarde. Quantas vezes, ainda, seremos testemunhas do pouco caso das autoridades que apenas deveriam cumprir seu papel diante da lei existente, que neste caso é a Lei Maria da Penha?

E a história se repete, mudando apenas o nome da vítima. Outra Elisa, outra Márcia, Ângela, Sandra, outra mulher sucumbindo, sob ameaça de um homem. Vidas ceifadas, vidas interrompidas, crimes registrados e mortes anunciadas.

Infelizmente, ainda há de se falar que a moça não era isso ou aquilo, que ela foi a procura de seu algoz. Justifica? Torturar, matar e mais cruel ainda, ter os restos mortais comidos por feras? Quem realmente são as feras nesta mórbida e triste história?

As conquistas das mulheres nas últimas décadas marcaram novos tempos, determinaram uma nova sociedade, definiram uma nova concepção de família. Saímos de uma sociedade patriarcal e chegamos a uma sociedade igualitária na qual não há espaço para o pátrio poder, mas sim para o poder familiar.

A Constituição da República Federativa do Brasil proclama o seguinte: “O Estado assegurará a assistência à família na pessoa de cada um dos que a integram, criando mecanismos para coibir a violência no âmbito de suas relações” (Art. 226, parágrafo 8º).

O Brasil é signatário da Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Contra as Mulheres – adotada pela Resolução nº 34/180 da Assembleia das Nações Unidas, em 18 de dezembro de 1979 –, através do Decreto Legislativo nº 93, de 14.11.1983, que foi ratificada pelo Brasil em 1º de fevereiro de 1984, e, finalmente, promulgada pelo Decreto nº 89.406, de 20.3.1984.

O Brasil ratificou, em 27 de novembro de 1995, a Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência Contra a Mulher – Convenção de Belém do Pará – adotada pela Assembleia Geral da Organização dos Estados Americanos em 6 de junho de 1994.

A Lei 11.340, de 7 de agosto de 2006, publicada no Diário Oficial da União de 8 de agosto do mesmo ano, que ficou conhecida como Lei Maria da Penha, garante direitos às mulheres antes não reconhecidos. E tivemos grandes avanços conquistados com a criação dos Juizados de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher, com competência cível e criminal (Art. 14).

E, mesmo assim, o que acontece? Por que ainda acontece?

Precisamos urgentemente mudar a cultura de nosso povo de que mulher é inferior, que homens e mulheres são diferentes em direitos e deveres, que mulher quanto mais bonita mais burra tem que ser. “Que em briga de marido e mulher ninguém deve meter a colher”.

A visibilidade da violência de gênero, no âmbito doméstico, demanda o reconhecimento da violência contra a mulher enquanto uma violação de direitos humanos, uma violação que acarreta sérios danos à saúde física e psíquica das vítimas e dos filhos desta relação.

A Lei nº 11.340/2006 se de um lado instrumentaliza a repressão penal, de outro constitui importante marco para a implementação de políticas públicas destinadas à promoção da igualdade de gênero, que tem por escopo superar desigualdades socialmente construídas, mediante discriminação positiva em favor do gênero feminino.

Encerro com a famosa frase de Simone de Beauvoir em O segundo sexo: “não se nasce mulher, torna-se mulher”. Heleieth Saffioti sustenta que: “é preciso aprender a ser mulher, uma vez que o feminino não é dado pela biologia, ou mais simplesmente pela anatomia, e sim construído pela sociedade”.

* Administradora, Graduada em Direito e Pós Graduada em Psicologia Jurídica, atualmente atuando como Coordenadora do Centro de Referência da Mulher. CREM Nova Friburgo